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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 30-08-2006

    SECÇÃO: Crónicas


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    O ninho

    Há um poema de Miguel Torga que sensibiliza muito: “Eu sei um ninho”. Gostava de escrever sobre o assunto, mas que fosse motivante para os leitores.

    Em primeiro lugar qual o interesse? É nos ninhos das aves que podemos observar o nascer e o crescer dos animais. Como é possível com bico e patas construírem-se tão recatados e fofos locais para os filhotes? A delicadeza da construção e a localização são um espanto!

    Só quem foi criado na aldeia teve tempo para andar aos ninhos. A sagacidade de os encontrar não era pequena, mas o transmitir a descoberta aos outros rapazes, enchia a alma ao dizer-se:

    – Anda a fazer; já tem ovos; tem pássaros sem penas; já fugiram! ...

    Ter assistido ao fazer de um ninho de melro, na ramada do poço por cima da bomba de tirar água, no tempo em que frequentei a Escola Primária de Provesende, foi um deslumbramento de ver tão perfeito e eficiente trabalho. Os quatro ovos azulados ficaram colocados em finos pelos de boi, enrolados à volta de ervinhas secas que, por sua vez, cobriam uma pasta de lama seca e gravetos toscos, entre os sarmentos da videira.

    Não admira que ao ler os Diários do médico conterrâneo, Adolfo Correia da Rocha, o poema “Eu sei um ninho” cismasse com a magia da vida, vivida entre fragas transmontanas.

    Ilustração RUI LAIGINHA
    Ilustração RUI LAIGINHA
    Longe estava de, com netos em idade de andar aos ninhos, vir a encontrar um, no quintal duma vivenda da cidade do Porto!

    Eu conto:

    Na Rua do Bonjardim, onde residi quando estudante, havia uma árvore, nos quintais vizinhos, que me intrigava. Foram precisos longos anos para que a outra geração de residentes, viessem a oferecer os frutos dessa planta: peras abacates!

    Sempre pensei que era um fruto tropical, comido, com gosto e abundância, em Angola.

    Na oferta das peras abacates portuenses, os redondos e grandes caroços foram metidos em vasos de plantas da marquise.

    No meio de plantas ornamentais, rebentaram os pequenos arbustos que, em selecção natural, “abafaram os competidores” envasados, e cresceram, cresceram... Foram transplantados, para quintal da Rua Costa Cabral (às Antas) a ver no que davam!

    Desenvolveram-se bem, e já nos deliciamos com o conteúdo dos três únicos frutos, no ano passado.

    Após o começo da Primavera, sempre que possível, as jovens árvores eram “espiolhadas” a ver se pegavam os frutos: a que deu as três peras tem, quando muito, uma dúzia; outra, que nada tinha dado, tem mais de dúzia e meia! Será que se vão aguentar até à maturação? Espero que sim. A estiagem forte não as tem apoquentado. Será por terem seiva tropical?

    Foi na que produziu o ano passado que, ao investigar frutos em ramos baixos, vi e senti fugir, sorrateiramente, uma carriça (?) pelo interior da folhagem. “Devia estar no choco”, pensei, recordando o tempo de andar aos ninhos!

    Os três ovinhos amarelados, no esconderijo e de pintas negras, fizeram uma maravilhosa surpresa. Calei, bem calado, o segredo, e só a Maria Fernanda teve direito a saber e de poder ver o ninho!

    Numa segunda observação, vi já os passarinhos de canudos das futuras asas. O tempo corre, corre tão rápido, que, noutra visita, os passarinhos tinham partido para a liberdade! Só os excrementos, depositados higienicamente fora do berço, diziam do êxito da criação!

    Ainda bem que há aves citadinas e se reproduzem. As novas carriças devem andar às sementes e larvas, sobrevivendo entre prédios de cimento, em habitat cada vez mais reduzido.

    O ninho continua na árvore. Vai ser o talismã para as novas peras abacates da Cidade Invicta!

    * Director do Colégio Vieira de Castro (gcm@mail.telepac.pt)

    Por: Gil Monteiro

     

     

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