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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 15-01-2006

    SECÇÃO: Cultura


    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    DAS AGRAS NOVAS AOS MOINHOS DE ARDEGÃES

    Ágora promoveu viagem ao passado

    HOUVE TEMPOS EM QUE O LEÇA ERA TRANSPARENTE

    Jacinto Soares, conhecido historiador de Ermesinde, foi convidado a conduzir mais de cinco dezenas de pessoas numa viagem ao passado de Ermesinde e às margens do Leça, durante uma fria mas soalheira manhã de sábado.

    O convite partiu da ÁGORArte – Associação Cultural e Artística, que assim realizou a 4ª edição dos "Passeios Pedestres" de Ermesinde, numa iniciativa que aquela novel colectividade, em vésperas de comemorar o primeiro aniversário da sua fundação oficial, tem vindo a promover com assinalável êxito.

    Já na parte final do percurso, Manuel Correia, presidente da Junta de Freguesia de Águas Santas, um homem atento e sensível aos valores culturais e ambientais, juntou-se ao grupo a convite de Jacinto Soares, para falar da região que escolheu para passar a residir, depois de ter deixado, muito jovem ainda, Vale de Cambra, sua terra natal.

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    "Das Agras Novas (Ermesinde) aos Moinhos de Ardegães (Águas Santas)" foi o tema escolhido para a caminhada de cerca de oito quilómetros que teve como ponto de partida o Fórum Cultural de Ermesinde. Ou seja, entre o centro da urbe e o que resta do bucolismo dos campos onde ainda, de quando em vez, se ouve o canto das aves. Lá, no fundo dos vales, por onde escorre um rio que conserva do passado os traços paradisíacos de frondosas paisagens, apesar de todas as agressões ambientais a que tem sido sujeito. Mas essas são as marcas dos tempos! Apenas marcas dos tempos!

    Não deram, certamente, por mal aplicado o tempo gasto, todos aqueles que se lançaram à descoberta da História. Adivinhava-se nas expressões e avaliava--se nas reacções, a um tempo de agrado e de alguma nostalgia. Olha o lugar onde estava a serração! Olha o moinho do falecido senhor Domingos! Ali era a quinta do Quinteira! Aqui ficava a pedreira da Caverneira! Escutava-se a cada passo.

    OS PRIMEIROS ELÉCTRICOS

    Uma primeira pausa na Praceta Alberto Dias Taborda foi pretexto para evocar a personalidade e a influência deste homem ilustre, responsável pelas mais importantes benfeitorias realizadas em Ermesinde nas primeiras décadas do Século XX. O prolongamento da linha do eléctrico do Alto da Maia a Ermesinde, a instalação de uma central telefónica que ligava a freguesia às várias localidades do país, a abertura de ruas, a construção das escolas do Carvalhal e da Bela, desenhadas e custeadas por Alberto Taborda, teriam sido alguns dos muitos melhoramentos devidos ao seu espírito dinâmico e empreendedor.

    Foi este homem – lembrou Jacinto Soares – que criou a chamada Comissão de Melhoramentos de Ermesinde, com que pretenderia associar a sigla CME a uma inexistente Câmara Municipal de Ermesinde.

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    UMA QUESTÃO DE TOPONÍMIA

    Conseguirão os mais novos imaginar que o local, hoje completamente urbano, que se estende do largo das Oliveiras à subestação da EDP era uma zona de mato e bouças? Ali foi, de facto, o lugar da Prumilheira, muito referido com esse nome em documentos antigos e que hoje é conhecido por Palmilheira. Defende Jacinto Soares que o primeiro é o topónimo mais lógico, tendo em conta a origem da palavra, pruma, sinónimo de caruma.

    Neste lugar situa-se o Jardim do Padre Babo, antigo professor do Colégio de Ermesinde que, para além de se ter dedicado ao ensino, ocupou parte do seu tempo à pesquisa, inventariação e classificação dos painéis que representam as almas do Purgatório, vulgarmente designados por alminhas.

    Recordou ainda Jacinto Soares que este espaço ajardinado foi projectado e construído graças aos terrenos que os loteadores se obrigavam a ceder para construção de espaços de lazer e equipamentos públicos. Ali existe um edifício, dotado de uma pequena biblioteca, que serviu de sede a uma associação. Actualmente o jardim está muito degradado e, como suspeitava Jacinto Soares, já não existiria Associação nem sede e quanto à biblioteca estaria fechada. Mais curioso ainda é a origem do Largo das Oliveiras, topónimo de um caminho medieval que por ali passava. Um pouco mais adiante das Oliveiras situa-se o Jardim do Lugar do Monte, um dos mais antigos lugares de Ermesinde, hoje descaracterizado. Em tempos recuados, aqui se reuniam as pessoas para os festejos a S. João ou para o tradicional e carnavalesco enterro do João.

    CASAS DE OLHEIRAS

    Depois destas interessantes revelações, e já no lugar das Agras Novas (campos novos) nas imediações da subestação eléctrica, Jacinto Soares referiu-se às casas de olheiras (casas típicas feitas em pedra e com tabiques de madeira no interior) para onde foram morar os primeiros migrantes do êxodo agrícola. Os homens partiram para a indústria, enquanto as mulheres, que iam ficando nos campos trabalhando à jorna, encarregavam-se também de vigiar (daí o nome de olheiras) as bouças dos lavradores, sempre muito zelosos das suas terras e dos seus pinhais.

    Jacinto Soares recordou ainda o tempo em que um camião gigante vinha descarregar os enormes transformadores para a subestação de Ermesinde e que despertavam a curiosidade dos jovens.

    Dali, do apeadeiro de Águas Santas, avista-se o moinho dos Baiões, um dos poucos engenhos deste tipo, edificados nas margens do rio Tinto, que nasce em Ermesinde e desagua no rio Douro, junto ao Freixo.

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    O grupo de caminhantes passou depois pelo Largo da Granja, no lugar de Águas Santas, que muitos consideram como a freguesia gémea de Ermesinde.

    Recorde-se que Ermesinde esteve ligada ao concelho da Maia até 1836 e não se sabe muito bem onde acaba e começa Águas Santas. O que alguns reconhecem é que «tanto a cultura como a mentalidade da população de Ermesinde são maiatas», argumentou Jacinto Soares. Dizem, de resto, algumas fontes históricas, que antes do século XIII, a população de Ermesinde, então denominada Asmes, se deslocava a Águas Santas para assistir aos actos de culto religioso.

    Do Castelo da Granja até à Quinta da Granja ou Quinta dos Ingleses, como também chamda, foi o tempo de fazer a travessia por um dos passadiços da A4. Célebre pela existência, no seu interior, da capela da Senhora da Piedade, edificada no século XVIII, esta propriedade serve hoje o turismo rural. Mais antiga do que a casa, esta ermida, classificada como monumento de interesse local, começou por pertencer ao domínio público mas acabou integrada na propriedade da quinta.

    RURALIDADE A CONSERVAR

    Antes ainda do moderno e aprazível parque de Moutidos, Manuel Correia, presidente da Junta de Freguesia de Águas Santas, passou também a integrar o grupo que se dirigiu para a chamada Casa de Veia, situada num vale, bastantes metros abaixo de um lanço da A3. Lá se encontra ainda o que resta do moinho de Veia, nome toponímico pelo qual é conhecido esse antigo engenho de características medievais onde era moído o trigo que abastecia a região.

    Trata-se de um imponente moinho que foi propriedade da ilustre escritora e filóloga Carolina Michaëllis e de seu marido, Joaquim Vasconcelos, proeminente etnólogo, crítico de arte e arqueólogo, que ali passavam os seus momentos de vilegiatura. Ao que consta, esse moinho e os terrenos que o circundam são propriedade de uma instituição religiosa do distrito de Setúbal, embora o usufruto pertença ainda hoje a uma neta da escritora, que reside na Suíça.

    PATRIMÓNIO A PRESERVAR

    Mais a montante, em Ardegães (Ardeganes) existe ainda um outro grupo de moinhos que, a partir da segunda metade do século XVIII, foram conhecendo sucessivas ampliações, graças ao aparecimento do milho americano que tanto contribuiu para o desenvolvimento económico da região.

    Desse grupo de moinhos destaca-se um exemplar com mais de 20 mós. É o moinho de Pisão, construído em 1792 e reconstruído em 1828. Como refere Manuel Correia num trabalho de inventariação dos moinhos e pontes do Rio Leça, esse moinho está referenciado num relatório do Governo Civil do Porto de 1883, como tendo sido o primeiro desta zona a ser dotado com uma máquina a vapor construída pela casa Ransones. Com uma potência de 10 cavalos de força, essa máquina compensava e repunha o volume de produção sempre que o rio diminuía o caudal nos períodos de estiagem. Ainda de acordo com esse relatório, a Maia tinha, nessa época, 58 moinhos, 13 dos quais em Águas Santas.

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    Um dos maiores e mais curiosos situa-se no sentido da nascente, enquanto a jusante, mais concretamente em Parada, se pode encontrar um outro conjunto de exemplares (moinhos da Lage) que estão na origem da fundação, em 1916, de uma conhecida fábrica de massas alimentícias.

    Mas voltemos a Ardegães, do germânico "Ardica", ou Ardeganes (1258), comunidade granítica românica sobre o Rio Leça, para dizer que o rio tem naquela zona muitos rápidos e penedias com características topográficas e morfológicas que muito favoreciam a instalação de moinhos de motricidade hidráulica.

    Infelizmente quase todos estão degradados, alguns mesmo em estado de ruína acelerada, devido ao completo abandono a que têm sido votados. Que bom serviço se prestaria à comunidade se este importante património arquitectónico, talvez já museológico, que nos deslumbra, fosse recuperado. Salvem-no antes que seja tarde de mais e quando já não houver nada a fazer. Aqui fica o apelo às instituições competentes!

    Por: ÁLVARO MENDONÇA

     

     

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