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Edição de 20-07-2022
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    Arquivo: Edição de 15-04-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    Aculturação

    A aculturação nem sempre foi a adaptação cultural a um novo meio ambiente ou social. É a utilização das condições de vida, em nova região ou país, que levam a modelar a expressão corporal e espiritual de um ser diferente, sendo influenciado pela comunidade. O colonizador também é colonizado. Ou seja: nos contactos dos portugueses em Angola foram “impostos” os novos hábitos, a língua e a religião, mas recebemos a música, a culinária, as lendas, os contos e as festas dos autóctones. Adoptámos os nomes de locais expressivos, que se implantam no Portugal de ontem e de hoje. Quantos estabelecimentos temos com nomes de Luanda e Benguela? Basta observar os reclamos luminosos das ruas do Porto ou Shoppings dos arredores e lá vemos nomes trazidos do Além-Mar. Mais: os diálogos ouvidos na rádio e TV estão cheios de palavras “importadas” das culturas das sete partidas do Mundo.

    Um exemplo, do quanto somos sensíveis ao que vem de fora, é a utilização de palavras brasileiras. Algumas são bem significativas, outras regressaram às origens. Deixaram de ser utilizadas, continuando no Brasil, agora de roupa tropical, voltaram à Terra debruada de mar, como dizia Miguel Torga. Assim, podemos ver a palavra estraçalhar. Ouvir dizer a um brasileiro: “Neuzinha estraçalhou meu coração!” é de partir a moca, no entanto, nos séculos idos, o Chico da freguesia da Sé do Porto estraçalhava corações de meninas desde a rua da Bainharia aos Guindais!

    Cada vez mais, fico arrepiado ao ver bandeiras e bandeiras portuguesas deitadas ao desprezo e à incúria, após o Euro 2004. Quando o treinador Scolari da Selecção Nacional de Futebol teve ideia de implantar um nacionalismo bacoco do Brasil de desfraldar muitas bandeiras nacionais a darem colorido a manifestações desportivas patrióticas. Em Portugal deu raia. Todo o Mundo, como diz o carioca, achou graça e colaborou. Pena foi que a nossa bandeira tão sofrida, ao representar a Portuguesa do Hino Nacional e o 31 de Janeiro, e fruto do querer de tantos cidadãos ilustres, entre os quais Guerra Junqueiro, iria servir, como trapo cobrindo hortaliças, embrulhar encostos de cabeça dos carros e rasgada nas janelas de prédios ou no cimo das árvores, chegaram a fins tão insólitos. Sujas vão apodrecendo por todos os lados, onde a limpeza não chega!

    Ilustração de Rui Laiginha
    Ilustração de Rui Laiginha
    No tempo da Escola Primária, os livros de leitura e de história continham textos de um nacionalismo exacerbado, resultado de ideologia bem conhecida. Lendas e episódios históricos eram lidos e comentados nas aulas. Não posso esquecer o Professor Matos, em Provesende, dizer:

    – A nossa bandeira é o símbolo da nossa Pátria. A Pátria é Portugal, desde a Fundação da Nacionalidade até hoje, e sempre... No sempre estaria o amor à Nossa Terra?

    Ouvíamos em silêncio comprometido a leitura do texto sobre o Alferes-mor Duarte de Almeida, no tempo de D. Afonso V na batalha do Toro. Ao ficar com as mãos decepadas, pelos castelhanos inimigos, agarrando a Bandeira, apertada nos cotos e dentes, continuou a batalhar! ...

    Por: Gil Monteiro

     

     

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