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ENTREVISTA COM O TREINADOR DE BASQUETEBOL DO CPN, MARCO RODRIGUES
«O CPN é um clube ganhador, no basquetebol feminino é uma referência nacional, uma das maiores, se não for mesmo a maior»
O CPN encontra-se por estas altura a realizar uma extraordinária campanha na 1.ª Divisão Nacional feminina de basquetebol. Neste sentido, este mês estivemos à conversa com o treinador das seniores cepeenistas, Marco Rodrigues, que nos abriu a porta do balneário não só para abordar essa campanha, mas de igual modo para falar da formação, já que orienta a equipa de sub-18 femininos, que, aliás, se sagrou campeã distrital em janeiro. Com 44 anos, e com passagens por emblemas como o Juventude de Leça, pelo CLIP, pelo Juvemaia, e pelo Maia Basket, além de que é atualmente treinador-adjunto de Agostinho Pinto na seleção nacional, Marco Rodrigues falou ainda do ADN do basquetebol cepeenista, o que faz deste um dos maiores, senão mesmo o maior clube do basquetebol de formação femininos em Portugal.
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| Fotos MIGUEL BARROS |
AVE: O Marco Rodrigues está na sua segunda época no CPN, e nesse sentido começamos por lhe perguntar como tem sido este seu trajeto no clube?
Marco Rodrigues: O Mundo do basquetebol (português) é pequenino, e eu já trabalho com o Agostinho Pinto (nota: coordenador da secção de basquetebol do CPN) como adjunto dele nas seleções nacionais desde 2019. Também já tinha trabalhado muito antes disso como adjunto dele nas seleções distritais. Portanto, eu sempre tive uma relação próxima com ele, e como tal identifico-me muito bem com os valores do CPN. Nesse sentido a integração tem sido mais do que natural. Foi uma integração muito fácil. Apesar da competição constante, uma vez que o CPN é um clube ganhador, pois no basquetebol feminino é uma referência nacional, uma das maiores, se não for mesmo a maior referência, existem aqui valores muito grandes, há um ambiente familiar que é extraordinário. Aliás, as próprias jogadoras que passam por cá anos depois mantêm sempre uma ligação grande ao CPN e muito obviamente ao Agostinho Pinto, também.
AVE: … O Agostinho Pinto é o basquetebol do CPN, não é?
MR: O Agostinho Pinto é mais do que o basquetebol do CPN, ele é o basquetebol feminino em Portugal, ele é a referência da modalidade no nosso país. Às vezes, a nível local, não se tem a perceção da importância que ele tem a nível nacional e internacional. Ele é provavelmente o treinador português com melhor currículo internacional, e falo de resultados com as seleções nacionais, por exemplo, e do reconhecimento que ele tem no país e no estrangeiro. Eu ando com ele pela Europa fora por causa dos campeonatos europeus e todos o conhecem, as pessoas sabem perfeitamente quem ele é. Volto a dizer, ele é uma referência. E o clube (CPN) é a imagem dele. Eu sou muito grato ao Agostinho, ele mudou a minha vida. Já o conheço há 20 e tal anos. Ele convidou-me para ser adjunto dele na seleção nacional e sempre me abriu muitas portas, permitiu-me conhecer outros treinadores, discutir, no bom sentido, o basquetebol. Sempre fui um seguir do Agostinho, identifico-me imenso com a visão que ele tem do basket, mas identifico-me muito mais com o lado humano que ele tem. Ele é uma pessoa larga e grande, mas o coração dele é maior. Ele é muito exigente, é duro, mas é tremendamente humano numa proporção ainda maior.
AVE: O Marco está também na sua segunda época à frente da equipa sénior. Atendendo à temporada excecional que a equipa está a fazer, tanto a nível de resultados como de exibições, perguntamos se no início da temporada passava pela vossa cabeça estar nesta fase do campeonato onde estão agora?
MR: Sem qualquer falsa humildade digo que sim. Nós estamos onde queríamos estar. O CPN tem este ADN de aposta em jogadoras jovens, com o risco que isso tem. A média de idade das nossas jogadoras ronda os 19 anos. Temos várias jogadoras do escalão de sub-18 a jogar na equipa sénior e com importância na equipa. Mas também temos várias jogadoras dos escalões de sub-19 e de sub-20 na equipa, e todas também com muita importância. Mesmo quando recrutamos jogadoras estrangeiras temos muito cuidado com o perfil dessas atletas para que não tapem o caminho a nenhuma jogadora que se queira desenvolver. Claro que isto tem riscos, como disse, nós somos uma equipa à imagem do Agostinho no sentido de que temos a garra, a atitude, e o atrevimento, que estão sempre presentes. Somos, de facto, uma equipa atrevida. Jogamos contra outros planteis com orçamentos muito maiores, contra jogadoras com outra experiência, mas não nenhuma equipa tem mais vontade de ganhar do que nós. E isso é inegociável. E há sempre esta preocupação de integração de novos elementos jovens que queiram atingir outros voos e que tenham espaço para crescer. Dito isto, e voltando à pergunta, estamos onde queríamos estar. Temos um plantel com qualidade, e não só de qualidade em termos do talento de atletas, mas também em termos de ética de trabalho. E com isto recordo aqui uma história que aconteceu a época passada. Nós com a derrota diante do Barcelos carimbámos matematicamente a nossa descida de divisão. E no primeiro treino a seguir a esse acontecimento parecia que íamos jogar uma final! Toda a gente com uma garra tremenda. Esta é a ética delas. Eu tenho mesmo muita sorte com o plantel que tenho. São atletas muito trabalhadoras, com talento, mas com muitos bons valores, e o companheirismo e espírito de equipa é mesmo muito forte. É uma equipa muito coesa. E isso ajuda. E são também jogadoras muito competitivas, sendo que, aliás, eu não sei se elas gostam mais de ganhar ou odeiam mais perder. (risos).
AVE: Posto isto, pelas suas palavras o regresso à Liga Feminina está no vosso horizonte…
MR: … Sabendo, naturalmente, dos riscos e das dificuldades naturais que podem acontecer. Do ponto de vista de estrutura do clube ainda não estamos num nível em que consigamos angariar fundos, patrocínios e formas financeiras para competir com outras equipas da Liga Feminina. No ano passado éramos de longe a equipa com o orçamento mais baixo da Liga Feminina. E daí a inteligência do Agostinho no projeto, na visão e essencialmente o conseguir manter estes valores que falei antes mesmo quando às vezes não corre (em termos de resultados desportivos) tão bem. E isto é a prova de uma liderança forte, pois não é por meia dúzia de derrotas, ou de insucessos, que depois se põe em causa todo o projeto. Mas mesmo na fase a seguir deste campeonato em que agora estamos, em que vamos jogar com as equipas do sul do país, e aí, nessas equipas, estão os orçamentos mais altos, e é complicado, e se juntarmos as viagens, em que nós não temos propriamente capacidade para ir um dia, ou dois para estágio, pois muitas vezes vamos e vimos no mesmo dia, em que a viagem é dura, isso acaba por ter as suas mazelas naturais.
AVE: … Mas a garra de que falou antes pode contornar esses obstáculos e catapultar a equipa?
MR: Nós acreditamos sempre que podemos ganhar. E não o dizemos da boca para fora, quem nos conhece sente isso. Temos qualidade e temos valor e por isso acreditamos sempre. Temos os pés assentes no chão, mas podemos ir à outra fase em condições de podermos subir, mas se não o fizermos não é nenhuma desgraça, não sei se me faço entender?
AVE: Perfeitamente. O facto de muitas das atletas que compõem esta equipa terem competido no ano passado na Liga Feminina e terem adquirido ali experiência competitiva, também as tornou mais fortes esta época?
MR: Indiscutivelmente que sim e por vários motivos. Primeiro pela adversidade no dia a dia, por (competir com) outras capacidades, o outro talento e o outro tipo de preparação que a competição exige, pois competir com gente melhor só por si faz-nos melhores. Mas eu acrescentaria outra coisa, que é o saber lidar com a frustração. O saber aprender com os erros. Depois, fizemos uma época inteira em superação constante. A superação constante obriga-nos a elevar os nossos níveis, as nossas metas de exigência, e então nós estamos sempre insatisfeitos porque queremos sempre mais qualquer coisa. Mas também aprendemos a trabalhar e a acreditar no processo a médio e a longo prazo. Nós sabíamos desde início que o ano passado ia ser difícil, mas também há que lembrar que foi um ano atípico. Ou seja, perdemos duas jogadoras por lesão cedo, perdemos uma das jogadoras estrangeiras que não se adaptou e não tínhamos a capacidade financeira que os outros clubes tinham para jogar com quatro estrangeiras e jogávamos só com duas e durante algum tempo só jogámos com uma. E quando conseguimos ir buscar a segunda estrangeira a nossa (jogadora da posição) base teve uma proposta para ir para Espanha. Ou seja, tivemos demasiados contratempos para aquilo o que é normal numa época… normal. Acho que em condições normais conseguiríamos manter-nos na Liga e eventualmente andar ali a picar o play-off. Mas todas estas dificuldades só nos tornaram mais fortes. Ajudaram-nos a crescer e a unir. É estranho, mas às vezes é na adversidade que nos unimos mais, e eu acho que isso é o que define muito bem o CPN, ou seja, que é na adversidade que se supera. E esta (atual equipa) é sem dúvida uma equipa à imagem do CPN.
AVE: O facto de o CPN ser uma referência nacional no basket feminino de formação e o Marco ser também simultaneamente treinador da formação, tem-no ajudado no processo de recrutamento para as seniores, ou seja, enquanto treinador das seniores tem um conhecimento maior do filão que tem nos escalões abaixo?
MR: 100 por cento. Aliás, o Agostinho não pensa no dia de hoje nem no dia de amanhã, pensa muito mais à frente. Mas o CPN é um clube de formação, e, inclusive, eu enquanto treinador das seniores treino como um treinador de formação e não como um treinador de rendimento, porque tenho a preocupação de desenvolver jogadoras na mesma. É óbvio que olhamos para baixo e projetamos como seriam os próximos dois, três ou cinco anos e vemos que o futuro parece promissor. E há uma linha condutora que facilita que as jogadoras possam saltar de um escalão para o outro e que quando se integram no escalão acima facilmente se conseguem integrar. Ou seja, há ali alguns aspetos não só técnicos e táticos, mas também mentais, de identidade e de forma de estar que são facilmente alinhados. É muito fácil ver na equipa de sub-14 que o Agostinho treina, por exemplo, aspetos que vemos nas seniores, desde as coisas mais simples aos pormenores mais mentais, ou à forma de se comportarem no campo. Há um ADN.
AVE: Este mês o Marco foi campeão distrital de sub-18 femininos. Diríamos que foi um título normal, pois anormal seria não ganhar, atendendo a que todos os anos o clube ganha títulos distritais na formação…
MR: … Nós gozamos um bocadinho com o Agostinho porque achamos que ele não sabe ao certo, ou de cor, quantos títulos distritais tem, porque ele praticamente só já conta os títulos nacionais (risos). Mas há uma curiosidade sobre ele: ele festeja-os (os títulos) todos. Para mim não é assim tão comum. Eu sou treinador há muitos anos, mas esta foi só a quarta vez que fui campeão distrital. Já fui várias vezes a fases finais por clubes por onde passei e às vezes só o facto de estar lá, entre os melhores, já é um título para nós. Mas é óbvio que há esta pressão de ganhar no CPN. Tendo em conta que nós éramos a única equipa invicta a chegar à fase final as expectativas seriam de que tínhamos de cumprir e saber lidar com a pressão de sermos os melhores, mesmo sabendo que as fases finais mudam. Posso dar este exemplo. A última vez que eu fui campeão distrital, ao serviço do CLIP, ficamos no 4.º lugar (da fase regular), sendo que tínhamos de ganhar um jogo por mais de 12 pontos para nos apurarmos para uma fase intermédia de apuramento, para depois poder ir à fase final. E fui campeão. Portanto, isto para dizer que nas fases finais tudo pode acontecer. Mas este ano nós, CPN, tivemos a perfeita consciência que não tendo o plantel mais profundo em termos de capacidade física e técnica, tínhamos a melhor equipa em termos de hábitos de competitividade e de postura. Além de que tivemos três jogadoras que na fase final estiveram a um nível soberbo. Na minha opinião foram as três melhores jogadoras da fase final, que foram a Ana Alves, a Rita Rodrigues e a Sofia Mota.
AVE: É mais fácil ganhar (ao nível da formação) no CPN do que nas outras equipas?
MR: É uma fantástica pergunta. Eu achava que
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Por:
Miguel Barros
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