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A Oliveira do Mouchão: a árvore mais antiga de Portugal e uma lição viva sobre o tempo
Há organismos que medem a vida em dias, outros em anos e alguns em séculos. Depois existem seres vivos que desafiam a própria perceção humana do tempo, permanecendo de pé durante milénios enquanto civilizações surgem e desaparecem à sua volta. É precisamente essa a história da Oliveira do Mouchão, localizada na freguesia de Mouriscas, no concelho de Abrantes, considerada a árvore mais antiga de Portugal e uma das oliveiras mais antigas do mundo.
Estima-se que tenha cerca de 3.350 anos, uma idade impressionante que a coloca entre os mais antigos organismos vivos da Europa. Quando esta oliveira começou a crescer, o Egito ainda vivia o auge do Novo Império, os fenícios navegavam pelo Mediterrâneo e faltavam ainda vários séculos para o nascimento da democracia ateniense ou do Império Romano. Em Portugal, o território era habitado por comunidades da Idade do Bronze que jamais poderiam imaginar que uma das árvores então jovens chegaria viva ao século XXI.
Mais do que um monumento natural, a Oliveira do Mouchão representa um testemunho extraordinário da capacidade de sobrevivência das árvores e da importância que estas desempenham na manutenção dos ecossistemas terrestres.
As árvores são frequentemente encaradas apenas como elementos da paisagem. No entanto, desempenham funções absolutamente essenciais para a vida no planeta. Funcionam como autênticas fábricas biológicas, captando dióxido de carbono da atmosfera através da fotossíntese e libertando oxigénio, contribuindo para regular o clima e mitigar os efeitos das alterações climáticas.
Ao longo da sua vida, uma árvore armazena grandes quantidades de carbono no tronco, nos ramos e nas raízes. Quanto mais antiga e robusta é, maior tende a ser esse reservatório natural. Ao contrário da ideia, durante muito tempo difundida, de que apenas as árvores jovens captam carbono de forma significativa, sabe-se hoje que muitas árvores antigas continuam a desempenhar um papel importante nesse processo, mantendo um crescimento lento mas contínuo.
Além disso, as árvores regulam a temperatura do ambiente envolvente. A sombra que proporcionam reduz significativamente o aquecimento do solo, enquanto a evapotranspiração — o processo através do qual libertam vapor de água para a atmosfera — contribui para refrescar o ar. Em meio urbano, esta função é particularmente relevante, ajudando a diminuir o efeito conhecido como “ilha de calor”, responsável pelas temperaturas mais elevadas nas cidades durante o verão.
Outro aspeto frequentemente esquecido é a importância das árvores na conservação dos solos. As suas raízes estabilizam terrenos, reduzem a erosão provocada pela chuva e facilitam a infiltração da água, diminuindo o risco de cheias e permitindo uma melhor recarga dos aquíferos subterrâneos.
Mas talvez o seu papel mais fascinante seja o de autênticos ecossistemas vivos. Uma única árvore de grande porte pode albergar centenas de espécies diferentes de fungos, insetos, líquenes, aves, pequenos mamíferos e microrganismos. O tronco, as cavidades, os ramos e até a casca constituem habitats fundamentais para inúmeras formas de vida.
No caso das árvores muito antigas, como a Oliveira do Mouchão, este valor ecológico multiplica-se. Ao longo dos séculos, tornam-se verdadeiros refúgios de biodiversidade, oferecendo condições que árvores mais jovens ainda não desenvolveram.
A oliveira pertence à espécie “Olea europaea”, uma das plantas cultivadas pelo ser humano há mais tempo. Acredita-se que a sua domesticação tenha começado há cerca de seis mil anos na região oriental do Mediterrâneo, espalhando-se gradualmente por toda a bacia mediterrânica.
Poucas espécies conseguem rivalizar com a oliveira em termos de longevidade. Enquanto muitas árvores vivem algumas centenas de anos, as oliveiras possuem uma capacidade quase única de sobreviver durante milénios.
Esta extraordinária resistência resulta de várias características biológicas.
Desde logo, o seu crescimento é extremamente lento. Em biologia, existe frequentemente uma relação entre crescimento lento e maior longevidade: quanto mais lentamente um organismo cresce, menor tende a ser o desgaste dos seus tecidos ao longo do tempo.
Por outro lado, a oliveira apresenta uma impressionante capacidade de regeneração. Mesmo quando o tronco principal sofre danos causados por incêndios, tempestades ou cortes, as raízes permanecem frequentemente vivas e originam novos rebentos que acabam por formar novamente uma árvore completa. Em muitos casos, aquilo que parece ser um tronco único corresponde, na realidade, a sucessivas gerações de crescimento que foram substituindo lentamente as partes mais antigas.
Este fenómeno explica porque tantas oliveiras monumentais apresentam troncos ocos, retorcidos e profundamente fissurados. Embora à primeira vista possam parecer árvores em declínio, continuam biologicamente ativas graças aos tecidos vivos localizados na periferia do tronco, logo abaixo da casca.
É precisamente essa arquitetura que confere às oliveiras o seu aspeto quase escultórico. Cada cavidade, cada fissura e cada torção contam uma história construída ao longo de centenas ou milhares de anos de secas, chuvas intensas, geadas, incêndios e inúmeras estações agrícolas.
A Oliveira do Mouchão constitui um
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Por:
Luís Dias
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