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Portugal e os portugueses
A eleição de Portugal para o Conselho de Segurança das Nações Unidas, para o biénio 2027-2028, constitui um dos mais relevantes sucessos diplomáticos dos últimos anos. Num mundo atravessado por guerras, tensões geopolíticas, crises migratórias e profundas divisões internacionais, a comunidade das nações voltou a confiar em Portugal para integrar o principal órgão responsável pela manutenção da paz e da segurança mundiais.
A votação, realizada no passado dia 3 de junho, por escrutínio secreto na Assembleia Geral das Nações Unidas, confirmou essa confiança. Portugal obteve 134 votos, superando a Áustria, que alcançou 131, e a Alemanha, que reuniu 104 votos, garantindo assim uma das duas vagas reservadas ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados. Trata-se da 4.ª vez que o nosso país integra o Conselho de Segurança, mas é a primeira em que consegue a eleição logo na primeira volta, sinal evidente do prestígio internacional que conquistou.
Naturalmente, nenhum país é eleito por acaso. A candidatura portuguesa assentou numa imagem de credibilidade, equilíbrio e capacidade de diálogo. Portugal apresentou-se como um construtor de pontes, defensor do multilateralismo, do direito internacional e da cooperação entre os povos. A sua participação ativa na União Europeia, na OTAN e na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, bem como a aposta nas questões da sustentabilidade, da transição energética e da ação climática, contribuíram decisivamente para este reconhecimento.
Esta eleição surge, aliás, num momento particularmente feliz para a presença portuguesa nas grandes organizações internacionais. Nunca como hoje tantos portugueses desempenharam funções de enorme responsabilidade, projetando uma imagem de competência e sentido de Estado que ultrapassa fronteiras e diferenças partidárias.
À frente do Conselho Europeu encontra-se António Costa, primeiro português a exercer uma das mais relevantes funções da organização institucional da União Europeia. Cabe-lhe presidir às reuniões dos chefes de Estado e de Governo dos vinte e sete países membros, facilitar consensos e representar externamente a União em matérias de política externa e segurança.
Nas Nações Unidas continua a destacar-se António Guterres. Secretário-Geral desde 2017 e atualmente a terminar o seu segundo mandato, tem enfrentado alguns dos maiores desafios das últimas décadas: a pandemia, a guerra na Ucrânia, os conflitos no Médio Oriente, as alterações climáticas e o agravamento das desigualdades globais. Mesmo quando a diplomacia parece insuficiente perante a força das armas, a sua voz permanece uma referência na defesa do diálogo e da dignidade humana.
Também António Vitorino, antigo diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, consolidou uma imagem de enorme prestígio nos domínios das migrações e dos direitos humanos. A estes nomes poderíamos acrescentar outros portugueses que marcaram as instituições europeias e internacionais, como Freitas do Amaral, Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1995-1996; Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia de 2004 a 2014; Vítor Constâncio, antigo vice-presidente do Banco Central Europeu; Mário Centeno, que presidiu ao Eurogrupo; e, entre outros, Jorge Moreira da Silva, atual Subsecretário-Geral das Nações Unidas.
São percursos diferentes, oriundos de sensibilidades políticas distintas, mas que demonstram uma característica muito portuguesa: a capacidade de diálogo, de moderação e de construção de consensos.
Durante demasiado tempo, os portugueses habituaram-se a olhar para si próprios com excessiva modéstia, quase convencidos de que o país teria um papel secundário no contexto internacional. Porém, os factos mostram precisamente o contrário. Portugal é hoje um parceiro respeitado, uma democracia estável, membro das principais organizações internacionais e centro de uma comunidade linguística com mais de 260 milhões de falantes espalhados pelos vários continentes.
A sua dimensão geográfica nunca constituiu um obstáculo à sua projeção externa. A História ensina-nos, aliás, que os povos não se medem apenas pelo território ou pela população, mas também pela influência cultural, pela capacidade diplomática e pelo contributo que dão para a construção de um mundo melhor.
É verdade que continuamos a enfrentar importantes desafios internos: a crise demográfica, a necessidade de aumentar a competitividade económica, a valorização dos salários, a modernização da Administração Pública ou o combate às desigualdades sociais. Mas uma nação também se afirma pela qualidade dos seus representantes e pela imagem que consegue projetar além-fronteiras.
Num tempo em que o mundo parece frequentemente dominado pelo conflito, pela polarização e pelo populismo, conforta saber que há portugueses que continuam a ser chamados para funções onde contam a ponderação, a competência e a capacidade de aproximar posições aparentemente inconciliáveis.
A eleição para o Conselho de Segurança da ONU representa a confiança da comunidade das nações num país que acredita no diálogo, na negociação e no respeito pelo direito internacional.
Talvez esta seja a principal lição deste momento. Portugal pode ser um pequeno país à escala do mapa, mas continua a revelar uma extraordinária capacidade para formar homens e mulheres preparados para servir causas maiores do que eles próprios.
Por:
Manuel Augusto Dias
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