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Entrelinhas desafinadas
Julho é, por tradição, um mês de celebração para Ermesinde. A cidade assinalou o 36.º aniversário da data em que foi elevada à categoria de cidade pela Assembleia da República. Trinta e seis anos depois, Ermesinde é a maior cidade do concelho de Valongo, com mais de 40 mil habitantes, um centro urbano dinâmico, empreendedor e profundamente marcado pela ferrovia, elemento que ajudou a moldar a sua identidade, a sua economia e o seu crescimento.
Poucas localidades portuguesas podem afirmar possuir uma relação tão íntima com o caminho de ferro. Em Ermesinde convergem três linhas ferroviárias – Minho, Douro e de Leixões – fazendo da cidade um dos mais importantes nós ferroviários do país. Não por acaso, está em curso a quadruplicação da Linha do Minho entre Contumil e Ermesinde, uma obra estruturante de 5,5 quilómetros, orçada em 113,5 milhões de euros. Durante décadas, milhares de ferroviários aqui trabalharam e viveram, contribuindo para a construção de uma forte cultura ferroviária que ainda hoje faz parte da memória coletiva de sucessivas gerações.
Foi precisamente essa identidade que, mais uma vez, foi celebrada nos dias 10, 11 e 12 de julho com o “Entrelinhas – Festa do Ferroviário”, iniciativa que, em apenas quatro edições, conquistou um lugar de destaque no panorama ferroviário nacional. O crescimento do evento demonstra que existia um espaço por preencher. O modelismo ferroviário, as exposições, as conferências, os encontros de entusiastas e as diversas atividades dirigidas às famílias fazem deste festival um acontecimento único em Portugal, sobretudo a norte do Tejo.
Importa reconhecer o mérito do Município de Valongo por ter acreditado num projeto diferenciador, quando poucos imaginavam que pudesse alcançar esta dimensão. Em Espanha existem já festivais ferroviários consolidados, mas em Portugal dificilmente se encontra uma iniciativa que reúna, de forma tão abrangente, todas as vertentes ligadas ao universo ferroviário. O Entrelinhas afirma-se, assim, como mais um motivo de orgulho para Ermesinde.
Mas nem tudo são motivos de celebração. É difícil compreender que uma cidade com a dimensão de Ermesinde, com milhões de passageiros ao longo do ano, continue a ser sistematicamente ignorada pelos serviços de longo curso da CP. Todos os comboios Intercidades que ligam Lisboa a Braga, Guimarães e Valença atravessam Ermesinde sem aqui efetuarem paragem, em nenhum dos sentidos. Para quem vive na cidade, a única solução passa por se deslocar previamente até Porto-Campanhã, muitas vezes recorrendo a um comboio urbano, para depois regressar praticamente ao mesmo ponto por onde o Intercidades acabou de passar.
A esta reivindicação junta-se outra, há muito acarinhada pelos ermesindenses: o regresso do transporte de passageiros à Linha de Leixões. A sua reativação permitiria estabelecer uma ligação direta ao Hospital de São João e ao polo universitário da Asprela, constituindo uma solução rápida, cómoda e sustentável para milhares de profissionais de saúde, utentes, visitantes e estudantes que diariamente se deslocam para aquela área.
O momento é ainda mais oportuno quando a própria CP acaba de divulgar resultados que merecem destaque. Em 2025, a empresa transportou mais de 208 milhões de passageiros, o maior número deste século, mais do que duplicou os seus resultados líquidos, alcançando cerca de 4,9 milhões de euros, e prepara o maior investimento de sempre em novo material circulante. São sinais positivos que demonstram uma empresa financeiramente mais robusta e preparada para responder aos desafios da mobilidade sustentável.
Todavia, estes resultados devem refletir-se também na qualidade do serviço prestado aos passageiros. E é precisamente aqui que persistem motivos de preocupação. Os atrasos registados nos serviços de longo curso, particularmente entre Lisboa e Porto, tornaram-se demasiado frequentes. Não são raras as viagens em que os comboios chegam ao destino com mais de meia hora de atraso, situação que provoca transtornos aos passageiros, compromete ligações e afeta a confiança no transporte ferroviário.
Ermesinde continuará, certamente, a celebrar o caminho de ferro. Faz parte da sua história e da sua identidade. Mas celebrar a ferrovia não pode significar ignorar as legítimas aspirações dos seus utilizadores. Uma cidade ferroviária merece mais do que ver passar os grandes comboios sem deles poder beneficiar.
Quando tantos visitantes percorreram as diversas atividades do Festival Entrelinhas, talvez seja também tempo de lançar um desafio à CP e às entidades responsáveis pela mobilidade ferroviária: olhar para Ermesinde não apenas como um ponto obrigatório de passagem, mas como uma estação estratégica, à altura da sua população, da sua centralidade e da sua importância na rede ferroviária nacional, devolvendo igualmente à Linha de Leixões o transporte de passageiros que durante décadas serviu esta região.
Porque, apesar do êxito do Festival Entrelinhas, há entrelinhas que continuam desafinadas. E essas já não pertencem ao modelismo nem à memória ferroviária: pertencem à realidade quotidiana de milhares de passageiros que continuam à espera de uma resposta.
Por:
Manuel Augusto Dias
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