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Edição de 31-07-2026
Jornal Online

SECÇÃO: Ciência

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[P.1]
A Oliveira do Mouchão: a árvore mais antiga de Portugal e uma lição viva sobre o tempo

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Há organismos que medem a vida em dias, outros em anos e alguns em séculos. Depois existem seres vivos que desafiam a própria perceção humana do tempo, permanecendo de pé durante milénios enquanto civilizações surgem e desaparecem à sua volta. É precisamente essa a história da Oliveira do Mouchão, localizada na freguesia de Mouriscas, no concelho de Abrantes, considerada a árvore mais antiga de Portugal e uma das oliveiras mais antigas do mundo.
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Estima-se que tenha cerca de 3.350 anos, uma idade impressionante que a coloca entre os mais antigos organismos vivos da Europa. Quando esta oliveira começou a crescer, o Egito ainda vivia o auge do Novo Império, os fenícios navegavam pelo Mediterrâneo e faltavam ainda vários séculos para o nascimento da democracia ateniense ou do Império Romano. Em Portugal, o território era habitado por comunidades da Idade do Bronze que jamais poderiam imaginar que uma das árvores então jovens chegaria viva ao século XXI.
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Mais do que um monumento natural, a Oliveira do Mouchão representa um testemunho extraordinário da capacidade de sobrevivência das árvores e da importância que estas desempenham na manutenção dos ecossistemas terrestres.
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As árvores são frequentemente encaradas apenas como elementos da paisagem. No entanto, desempenham funções absolutamente essenciais para a vida no planeta. Funcionam como autênticas fábricas biológicas, captando dióxido de carbono da atmosfera através da fotossíntese e libertando oxigénio, contribuindo para regular o clima e mitigar os efeitos das alterações climáticas.
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Ao longo da sua vida, uma árvore armazena grandes quantidades de carbono no tronco, nos ramos e nas raízes. Quanto mais antiga e robusta é, maior tende a ser esse reservatório natural. Ao contrário da ideia, durante muito tempo difundida, de que apenas as árvores jovens captam carbono de forma significativa, sabe-se hoje que muitas árvores antigas continuam a desempenhar um papel importante nesse processo, mantendo um crescimento lento mas contínuo.
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Além disso, as árvores regulam a temperatura do ambiente envolvente. A sombra que proporcionam reduz significativamente o aquecimento do solo, enquanto a evapotranspiração — o processo através do qual libertam vapor de água para a atmosfera — contribui para refrescar o ar. Em meio urbano, esta função é particularmente relevante, ajudando a diminuir o efeito conhecido como “ilha de calor”, responsável pelas temperaturas mais elevadas nas cidades durante o verão.
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Outro aspeto frequentemente esquecido é a importância das árvores na conservação dos solos. As suas raízes estabilizam terrenos, reduzem a erosão provocada pela chuva e facilitam a infiltração da água, diminuindo o risco de cheias e permitindo uma melhor recarga dos aquíferos subterrâneos.
[P.9]
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Mas talvez o seu papel mais fascinante seja o de autênticos ecossistemas vivos. Uma única árvore de grande porte pode albergar centenas de espécies diferentes de fungos, insetos, líquenes, aves, pequenos mamíferos e microrganismos. O tronco, as cavidades, os ramos e até a casca constituem habitats fundamentais para inúmeras formas de vida.
[P.10]
No caso das árvores muito antigas, como a Oliveira do Mouchão, este valor ecológico multiplica-se. Ao longo dos séculos, tornam-se verdadeiros refúgios de biodiversidade, oferecendo condições que árvores mais jovens ainda não desenvolveram.
[P.11]
A oliveira pertence à espécie “Olea europaea”, uma das plantas cultivadas pelo ser humano há mais tempo. Acredita-se que a sua domesticação tenha começado há cerca de seis mil anos na região oriental do Mediterrâneo, espalhando-se gradualmente por toda a bacia mediterrânica.
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Poucas espécies conseguem rivalizar com a oliveira em termos de longevidade. Enquanto muitas árvores vivem algumas centenas de anos, as oliveiras possuem uma capacidade quase única de sobreviver durante milénios.
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Esta extraordinária resistência resulta de várias características biológicas.
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Desde logo, o seu crescimento é extremamente lento. Em biologia, existe frequentemente uma relação entre crescimento lento e maior longevidade: quanto mais lentamente um organismo cresce, menor tende a ser o desgaste dos seus tecidos ao longo do tempo.
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Por outro lado, a oliveira apresenta uma impressionante capacidade de regeneração. Mesmo quando o tronco principal sofre danos causados por incêndios, tempestades ou cortes, as raízes permanecem frequentemente vivas e originam novos rebentos que acabam por formar novamente uma árvore completa. Em muitos casos, aquilo que parece ser um tronco único corresponde, na realidade, a sucessivas gerações de crescimento que foram substituindo lentamente as partes mais antigas.
[P.16]
Este fenómeno explica porque tantas oliveiras monumentais apresentam troncos ocos, retorcidos e profundamente fissurados. Embora à primeira vista possam parecer árvores em declínio, continuam biologicamente ativas graças aos tecidos vivos localizados na periferia do tronco, logo abaixo da casca.
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É precisamente essa arquitetura que confere às oliveiras o seu aspeto quase escultórico. Cada cavidade, cada fissura e cada torção contam uma história construída ao longo de centenas ou milhares de anos de secas, chuvas intensas, geadas, incêndios e inúmeras estações agrícolas.
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A Oliveira do Mouchão constitui um
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leia este artigo na íntegra na edição impressa.
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Por: Luís Dias

 

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