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    Arquivo: Edição de 15-11-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    D. ERMESENDA, A DEVOTA (8)

    A fé de Ermesenda

    A s duas devotas, acompanhadas do capelão, frei Tarcísio, que lhes pergunta pela sobrinha Dórdia, dirigem-se, então, à capela do solar onde vão fazer as suas preces. D. Maior vai ver a mãe e Ermesenda retira-se para o seus aposentos. Precisava de descansar e meditar um pouco, no seu quarto de menina e jovem, que em tempos partilhou com suas irmãs Gontina, Gontrode e Toda. Passaram--se muitos anos, muita coisa aconteceu e a entrada naquele paço levava-a ao passado e sentia uma grande necessidade de reflectir sobre a sua vida o que devia ser feito, ali na penumbra.

    Sentou-se no leito que não era mais que um estrado de madeira com almatra (enxerga) de colmo, com lençóis e almandra (colcha) de linho bordada e uma manta de lã de ovelha cardada. Ainda tinha, nos ouvidos, o toque do adaíl, a grande porta chapeada da barbacã a ranger nos gonzos, o bater, no lajedo do terreiro, dos cascos dos cavalos e das sapatas ferradas dos cavaleiros a apearem-se, todo aquele fragor das armas de aço toledano, dos lorigais e cotas de malha, que lhe provocou aquele baque à chegada. Esses distantes ruídos tão familiares, ali, no seu aposento, traziam-lhe à memória cenas distantes ali vividas na sua meninice e juventude, há mais de meio século. Parecia que, naquela penumbra, as sombras projectadas nas paredes despidas, pelo pequeno candil de azeite que alumiava aquela alcova, faziam renascer, como fantasmas do passado, todas aquelas cenas e personagens e já ouvia novamente os passos do seu pai Gonçalo Trastemires, de seu tio Aboazar e dos primos Fromorico e Toderedo “Cid” com as escarpas ferradas (sapatões com protectores de ferro), a bater no lajedo dos corredores, a caminho da sala nobre onde os esperava o seu avô Trastemiro já doente, a avó Dórdia e a mãe Unisco, após um fossado nas Terras de Santa Maria, de Lafões ou Montemor, já para além do Douro. De facto, todo aquele frenesim e alvoroço da chegada ao paço a impressionou e fez avivar, na memória, todo o seu passado, sentimentos e emoções vividos naquele solar e que influenciaram o destino da sua vida.

    Ermesenda seguiria a vida monástica, compreendeu cedo, ainda muito jovem a sua vocação, a finalidade da sua existência como poucos o lograram fazer naqueles tempos conturbados em que se dedicava a ajudar os mosteiros e cenóbios da sua terra, destruídos pelas investidas e saques do terrível Almançor, hashib (prefeito) do califa Hisham II e que tinha tomado o poder em Córdoba, nos finais do século passado (X). Não havia mosteiro que não tivesse sido destruído ou sofrido enormes danos pela acção demolidora do vizir. De alguns só restavam as absides das igrejas conventuais e as paredes derrocadas dos mosteiros com a cobertura e travejamentos queimados. O Labrense estava irrecuperável não só pelos ataques dos mouros mas principalmente pelos saques vikings e o de Leça, de forte construção, já estava, há muito, novamente em actividade, embora a sua recuperação continuasse. O mesmo acontecia com o de Sam Salvador de Moraria (Moreira), perto de Christinus (Crestins), que dizem ter sido construído no Sec. IX (862) e que foi restaurado, já em 1027, pela prima Gontina, madrinha da sua irmã Gontina e rica solarenga das Pedras Rubras, já falecida há muitos anos, no tempo do rei Afonso V de Leão, avô do actual Afonso VI.

    Fugia serenamente aos olhares do jovem D. Egas Gomes, de Sousa, ainda seu parente afastado, amigo do seu irmão Mendo que foi Triúnviro e refugiava-se em Leça, no velho cenóbio de monjas e monges de S. Bento, do qual foi donatária e onde tinha os seus amigos e amigas. Lá, o velho abade Tudeíldo e seu sobrinho frei Randulfo, o prior e futuro abade, a ensinaram a ler, escrever o latim e lhe contavam histórias fascinantes dos mártires cristãos de Roma, do seu sacrifício, Fé e Perseverança, que, sem qualquer arma, apenas com o argumento da Razão e a força da Fé, conquistaram e converteram o poderoso Império Romano que antes os tinha flagelado durante séculos.

    A doutrina de Cristo era arrebatadora e apaixonante, trazia a Igualdade e a Dignidade ao ser humano; combatia a arrogância, a luxúria e a escravidão a que muitos seres humanos estavam votados, situação essa que ainda estava longe de ter acabado mas já havia mais consciência, piedade e misericórdia. Por isso, foram intolerados pelos senhores de Roma que sentiam os seus privilégios, as suas ambições de deuses ao ponto de se deusificarem e a escravatura do homem em que se baseava a sua economia, ameaçadas pelas ideias dessa gente que se escondia nas catacumbas e que adorava um só Deus que tinha um reino e dizia que os homens eram todos iguais perante Ele. Mesmo o mais humilde dos escravos era igual ao Imperador, ao Tribuno, ao Senador, ao General?! Um absurdo!

    Ilustração RUI LAGINHA
    Ilustração RUI LAGINHA
    D. Sisnando, o velho bispo portucalense, numa visita ao mosteiro de Leça, contou-lhe a história do sacrifício de S. Lourenço d’ Asmes que muito a impressionou. O martírio atroz de Lourenço pôs à prova a sua fé, o poder da crença. Algo havia de verdade em tanta abnegação que até levava a vencer o poder das armas e da força. A alma redime-se com o arrependimento e também com o sofrimento do corpo e a força da Fé não dimana do corpo flagelado mas antes do espírito fortificado com o sacrifício. Foi a última lição de Cristo na cruz, do Enviado de Deus corporizado que devia nascer, viver e morrer segundo as leis que criou. Essa fé e perseverança, a serenidade perante o martírio, subjugou o mais poderoso império jamais surgido no mundo dos homens: o arrogante Império Romano que dominava a ecúmena conhecida. Na sua capital, em Roma, se sentou o novo Senhor, o Senhor dos mártires, dos humildes, dos pobres e dos flagelados nas suas arenas onde se divertiam com o sofrimento alheio. O novo Senhor que se sentava na cadeira romana era agora o representante de Cristo na Terra, que venceu, sem armas, a ambição imperial de Roma, sustentada com a escravidão dos outros povos.

    Ermesenda via assim que o poder da Fé é invencível, é superior às armas dos homens. A poderosa espada de seu pai, D. Gonçalo Trastemires que varreu os infiéis dos brejos e pegos de Montemor, feito que não agradou muito ao rei Bermudo e ao conde de Portugale, nada valia comparado ao poder da Fé que vence o sacrifício e o flagelo do corpo. Foi a última lição do Redentor que não foi compreendido. Era empolgante tanto poder, tanta glória que fazia mesquinho o poder das armas, da soberba, da ambição dos homens que a rodeavam. Os seus heróis eram os mártires. Os valentes eram aqueles como S. Lourenço que, no seu sacrifício, via muito além dos seus carrascos.

    D. Egas Gomes era como os outros e nunca sentiu nada por ele, para além da amizade e respeito. Os seus galanteios, embora velados, nunca a tinham seduzido, o que já não acontecia com a irmã Gontina que parecia vivamente atraída por aquele jovem fidalgo que aparecia no paço com D. Gomo Viegas, o batalhador neto do tio Ermígio. Gontina era mais velha, não era frívola, mas o mundo dos homens atraía-a mais do que o mundo dos espíritos e D. Egas apercebeu-se disso. Gontina casou com o sedutor Egas Gomes, de Sousa, e a pressão que Ermesenda sentia, deixou-a mais livre para pensar e dedicar-se aos seus mártires e suas mensagens.

    Gostava de estar só, de reflectir, pensar e ler os velhos pergaminhos do cenóbio que já vinha do tempo de Afonso III e do conde Vímara e que o abade Tudeíldo lhe emprestava para ler. Dominava os textos latinos dos velhos alfarrábios de pele, manuscritos pelos monges e eremitas como o frei Martinho de Roriz, com lindas iluminuras coloridas onde não faltavam histórias sobre santos e a Bíblia Sagrada, Filosofia, Teologia e doutrina dos grandes doutores e pensadores da Igreja. Numa época em que poucas mulheres sabiam ler, sentia-se ilustrada, mais esclarecida que seus orgulhosos parentes que pouco mais sabiam do que a arte de manejar as armas e caçar.

    Por: Reinaldo Beça

     

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