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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 15-06-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    O MUNDO SOBRE RODAS

    Henry Ford – a personalidade (II)

    Em Dezembro de 1977, aquando das comemorações do cinquentenário do Ford modelo A, de cuja organização fiz parte, no âmbito da Secção Ford do CPAA, tive o prazer de conhecer um antigo operário das fábricas Ford dos Estados Unidos. Era um português, já de idade, que vivia em Vila Verde (Braga), onde recebia a sua pensão, vinda da América, respeitante aos anos de trabalho que prestou nas fábricas Ford, desde meados dos anos vinte até finais dos anos quarenta. Trabalhou, portanto, ainda com os Ford T que, na sua maioria, eram exportados embalados, por montar e também com os modelos A, B e C de 4 cilindros e os célebres Ford V8 dos anos trinta e quarenta. Na sua casa guardava várias recordações, entre as quais uma foto panorâmica que englobava todos os operários e funcionários da casa mãe, a Rouge Plant, em Detroit, junto ao rio Rouge, quando esta moderna linha de montagem, fundição e fabrico foi inaugurada, em meados dos anos 20, para substituir a antiga fábrica. Eram mais de mil pessoas numa foto!

    RECORDAÇÕES DE UM VELHO

    OPERÁRIO DA FORD

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    Conservava também uma grande bandeira americana que trouxe consigo, para a cerimónia da inauguração da exposição dos Ford modelo A, no meio dos últimos modelos do Cortina e do Escort e que levámos a efeito na RODAM, em Faria Guimarães e no Palácio Ford, na Avenida dos Aliados, concessionários Ford na cidade do Porto. No evento, esteve presente um representante da Ford Lusitana, além de outras entidades e a Imprensa. Fui encarregado de elaborar o catálogo com o historial dos modelos em exposição, do qual conservo ainda alguns exemplares em meu poder.

    Contou-me o antigo operário da Ford, ter conhecido o patrão Henry Ford e o filho Edsel, pai de Henry Ford Júnior, pois viu-os várias vezes nas suas visitas às secções de fabrico e linhas de montagem, das diversas "plants" (fábricas) onde prestou serviço. O que ele me disse, a respeito de Henry Ford, não diferiu muito da ideia que eu fazia, apenas nos pormenores. Falou no seu carácter individualista, na sua fama de ditador que, ao tomar uma resolução, não admitia réplicas. Que era muito exigente para com os empregados e operários, despedindo com muita facilidade aqueles que não cumpriam; um pouco prepotente mas ao mesmo tempo, bastante compreensivo, preocupando-se com a dignidade dos trabalhadores, procurando proporcionar-lhes uma vida com qualidade ao pagar-lhes salários justos. O que fez e poderia não ter feito, como era corrente naquele tempo. Passou o horário de trabalho para 40 horas semanais (isto nos princípios do século XX), com remunerações superiores aos que tinham que trabalhar 48 horas ou de sol a sol, como era vulgar naquele tempo. E desenvolveu toda uma política que visava proporcionar a utilização do automóvel que, na época, era privilégio de ricos, a qualquer chefe de família com um salário medíocre.

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    Isto deveu-se ao taylorismo aplicado no processo de fabrico, duma forma muito própria e engenhosa, que levou à racionalização do trabalho com a adopção de linhas de montagem, do fabrico em série e da estandardização de peças e elementos componentes, um processo pioneiro no fabrico de automóveis daquele tempo. Reduziu os custos do produto de forma substancial e conseguiu o que ninguém, até aí, tinha conseguido: baixos preços, com salários altos e ainda redução do horário de trabalho. Um exemplo para os empresários actuais que vão explorar mão-de-obra barata para a China.

    OS CARROS DO POVO

    COLONIZADORES DAS ESTRADAS

    O baixo custo do produto, com altos salários, sem prejudicar a qualidade do produto, bem como o pioneirismo dum serviço de vendas e assistência nos moldes actuais, aliados a uma filosofia empresarial muito personalizada que se chamou Fordismos, foi a base do sucesso dum homem genial, embora politicamente conservador, que conseguiu popularizar e democratizar o automóvel.

    De facto, só um individualista duro e determinado, com ideias certas e inflexíveis, antevisão intuitiva e sentido de oportunidade, é que conseguiria tão grande sucesso. Foi uma referência para outros fabricantes de automóveis, que tentaram segui-lo, e alguns com êxito, como André Citroën com o seu 5 CV (bateau de 1923-25) e o célebre 2 CV; Sir Herbert Austin, com o Austin Seven e Sir William Morris com o Morris 8 e o Minor e, mais tarde, também Ferdinand Porsche com o Volkswagen Carocha, o primeiro carro a ultrapassar o número de Ford T produzidos.

    Thomas Alva Edison com a lâmpada, a iluminação eléctrica das casas e ruas, transformou a noite em dia e Henry Ford com a massificação do automóvel, tornando-o acessível e popular, pôs o mundo sobre rodas. Talvez os dois homens que mais contribuíram para a transformação radical do modo de viver, no século XX, dando início à vida moderna da actualidade, em que o mundo continua a andar sobre rodas mesmo já tendo asas para voar.

    Por: Reinaldo Beça

     

     

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