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Edição de 31-05-2020
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    Arquivo: Edição de 30-04-2020

    SECÇÃO: Local


    Como um italiano e um espanhol veem desde Ermesinde a crise pandémica da Covid-19 nos seus respetivos países

    O ESPANHOL JAIME BARRASA E O ITALIANO GIANMARCO GIROLAMI
    O ESPANHOL JAIME BARRASA E O ITALIANO GIANMARCO GIROLAMI
    O surto de Covid-19 não tem poupado nenhuma nação a nível planetário. Há países onde os números - de casos confirmados e mortes provocadas pelo novo coronavírus - atingem contornos mais dramáticos e catastróficos do que em relação a outras nações, países que estão a sofrer mais do que outros com a pandemia, como é por exemplo o caso de Espanha e Itália, onde já se registaram vários milhares de mortos e muitos milhares de infetados. E pese embora nos últimos dias as notícias deem conta de que o número de vítimas mortais de Covid-19 nos dois países está a diminuir, as cautelas e preocupações ainda são muitas e o tão sonhado regresso a uma vida normal, por assim dizer, está ainda longe de acontecer conforme vão anunciando as autoridades espanholas e italianas.

    Italianos e espanhóis vivem por estes dias entre o medo e a esperança. E assim é não só para italianos e espanhóis que habitam dentro das fronteiras das suas respetivas pátrias, mas também para aqueles que por estes dias estão longe de casa.

    Isto levou-nos à conversa com dois jovens oriundos destes dois países e que de há uns meses a esta parte vivem em Ermesinde, acolhidos pelo Centro Social de Ermesinde no âmbito do Programa Europeu “Erasmus+” (que está a ser desenvolvido nesta instituição). Abra-se aqui um parênteses para referir que o Programa Europeu “Erasmus +” é um programa de intercâmbio europeu que visa a troca de experiências e partilhas de âmbito profissional e valoriza a aprendizagem de competências transversais obtidas através da multiculturalidade europeia.

    Foi este programa que trouxe a Ermesinde o italiano Gianmarco Girolami e o espanhol Jaime Barrasa. O primeiro tem 23 anos, é de Pescara e está em Ermesinde há 3 meses, sendo que no dia seguinte a esta nossa conversa iria regressar à sua Itália. Um regresso cujo motivo principal assenta na preocupação que sente por estar longe de casa nesta altura tão complicada. O segundo jovem é oriundo de uma das regiões de Espanha mais afetadas pela pandemia, Madrid, e tem 25 anos, e por enquanto, e apesar de também estar naturalmente preocupado com esta situação, diz que para já vai ficar pela nossa cidade, onde se encontra desde setembro passado.

    Quisemos pois perceber como, longe de casa, ambos estão a viver, e a ver, esta crise pandémica nos respetivos países.

    A VISÃO ITALIANA...

    Gianmarco começa por dizer que neste momento (a meio de abril, altura em que tivemos esta conversa) a situação em Itália é um pouco melhor do que era há um mês atrás, em que o país ficou destruído. Agora, as preocupações dos italianos estão centradas nas consequências da pandemia, isto é, nas consequências económicas, e na incerteza do “amanhã”, na crise (económica) que aí vem, na incerteza se vai ou não haver emprego no pós-crise pandémica. Gianmarco não tem dúvidas de que a crise económica que aí vem será para o seu país muito pior do que a de 2008.

    Todos os dias fala com a família e amigos e diz que estão bem, tranquilos, de um modo geral. A salvo da pandemia. A sua região não é das mais fustigadas pela Covid-19, o epicentro está no norte, na Lombardia, Piemonte, ou Vêneto. Nas outras regiões também há casos, mas menos em comparação com as do norte. Na região de Pescara, por exemplo, a sua terra natal, Gianmarco diz-nos que atualmente haverá cerca de 2000 casos positivos, numa população de 1 milhão de pessoas. Porém, ainda que em menor número, há casos na sua região, e também ele conhece um outro, como o do seu vizinho, por exemplo, que contraiu o vírus e esteve 28 dias no hospital nos cuidados intensivos. Agora está em casa, recuperado. «Em Itália, tal como nos outros países, sabemos que para já não há uma cura para esta doença, mas percebemos também que há uma forma de viver, ou conviver, com este problema. Por isso, é que em Itália tem havido cada vez menos pessoas nos cuidados intensivos de há uns dias a esta parte», diz-nos. Opina igualmente que a razão de quer a Itália quer a Espanha serem dos países mais afetados a nível mundial pela pandemia deriva do facto de no início de tudo, quando a Covid-19 “chegou” à Europa, terem sido feitos poucos, ou nenhuns, testes à população para compreender a forma como a doença se estava a espalhar e consequentemente travar a disseminação do vírus. E daí o número assustador de casos e mortes que “bombardeou” o país. Outra explicação para os números alarmantes que o país apresenta, tem a ver, segundo o jovem de Pescara, com o facto de Itália ter muita população idosa, sobretudo no norte, de ser um dos países do Mundo com média de idades mais alta e com uma baixa taxa de natalidade. Gianmarco tem esperança de que com a chegada do verão e do calor o número de casos baixe significativamente, tendo em conta que o vírus “dá-se bem” com climas frios.

    A crise pandémica em que Itália está mergulhada deixa-o naturalmente preocupado, e por isso regressa agora ao país, até porque nos diz que esta é a melhor altura para o fazer, tendo em conta que com uma hipotética “segunda fase” do vírus poderá ser mais difícil entrar no país. O regresso imediato faz-se contudo também por razões académicas, já que terá um exame na faculdade (de jornalismo) em junho. Mas, conta regressar a Ermesinde no verão, para continuar esta experiência de Erasmus.

    A terminar, Gianmarco acredita que quer Itália, quer Espanha, quer Portugal vão dar a volta por cima a esta situação, porque na sua voz são três povos, ou culturas, que têm uma força incrível de ultrapassar os problemas, como comprovam as respetivas Histórias. Porém, e para já, está convicto de que Portugal e outros países têm de fazer cada vez mais testes (de Covid-19) às pessoas, porque se não o fizerem será impossível resolver este grave problema.

    A VISÃO ESPANHOLA...

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    Passamos de seguida a palavra a Jaime, o jovem espanhol de Madrid, que começa por dizer que se encontra bem em Ermesinde, embora preocupado com as notícias que todos os dias chegam do seu país, e preocupado desde logo com a sua família, que está bem saúde. Pese embora também nos diga que tem conhecimento de alguns casos de Covid-19 na sua região, mas com a família está tudo bem, diz.

    Tal como Gianmarco, o jovem madrileno opina que a razão de os números de casos e mortes em torno da pandemia serem tão dramáticos no seu país se deve ao facto de se terem feito poucos testes no início e de as medidas de prevenção terem sido tomadas tardiamente. «Quando tudo começou em Itália o resto dos países europeus ainda se estavam a rir do vírus. Não levámos isto muito a sério. Em Madrid, por exemplo, sabíamos o que estava a acontecer em Itália e mesmo assim não tomámos medidas sérias de prevenção. O Governo espanhol decretou o estado de emergência um dia depois de terem ocorrido no país milhares de eventos sociais, e com um dia de diferença era demasiado tarde e tudo foi uma explosão. As medidas deviam ser tomadas mais cedo, desde o momento em que tudo começou em Itália», opina Jaime.

    Elogia o sistema de saúde do seu país, «é muito bom», mas neste momento crê que este não está preparado para lidar com a pandemia. Isto porque todos os dias há novos casos, e os hospitais não têm material nem recursos humanos para lutar contra o vírus.

    Neste mês de abril muitos foram os países europeus que prepararam, ou regressaram, a uma certa normalidade, reabrindo escolas, algum comércio, e levantando algumas das restrições impostas em março. Espanha foi um dos países que anunciou esse regresso parcial, ou faseado, à normalidade. Será que o país está preparado para esse regresso? Jaime acha que isto é um dilema. Por um lado entende que a economia, a retoma da economia, é importante para qualquer país, mas por outro lado opina que em Madrid, por exemplo, ainda é muito cedo para se voltar à normalidade. «Não sabemos se já atingimos o pico da pandemia, então acho que Madrid não pode voltar à normalidade. É uma situação que não está ainda controlada, e se agora abres o comércio, se pões a economia em funcionamento, “tudo” vai voltar e vai ser pior», diz Jaime, que para já irá ficar por Ermesinde, embora a sua família, com quem fala diariamente, esteja preocupada com ele e peça o seu regresso a Madrid. Mas «digo-lhes que por enquanto estou melhor aqui».

    Por: MB

     

     

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