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Edição de 30-09-2019
Jornal Online

SECÇÃO: Desporto


ENTREVISTA COM DIAMANTINO PINTO

Lenda do ténis de mesa do CPN prepara os craques do futuro

O seu nome dispensa apresentações, tendo em conta de que se trata de um dos mais icónicos desportistas nascidos na nossa Cidade. Durante anos e ao lado de outras figuras lendárias como Vítor Pina, Elmano Monteiro, entre outros, ele “obrigou” a imprensa nacional a procurar no mapa o nome de Ermesinde e do CPN na sequência de inúmeras conquistas e vitórias inolvidáveis no âmbito do ténis de mesa. Ele é Diamantino Pinto, indiscutivelmente um dos grandes nomes do ténis de mesa português enquanto atleta e que hoje enquanto treinador transmite aos mais novos os seus vastos conhecimentos sobre a modalidade ao serviço da Associação de Ténis de Mesa do Porto (ATMP) no âmbito de um projeto/protocolo de formação em conjunto com a Câmara Municipal de Gaia (CMG).

Foto ALBERTO BLANQUET
Foto ALBERTO BLANQUET
Estivemos à conversa com ele no sentido de conhecer um pouco melhor este projeto desportivo que de há quatro anos a esta parte já deu frutos, não só pela chamada de atletas (seus) às seleções nacionais como também o convite que a Federação Portuguesa de Ténis de Mesa (FPTM) endereçou a Diamantino Pinto para treinar o combinado nacional de sub-13 que em junho participou no Open do Luxemburgo.

E foi precisamente por este tema (o convite da FPTM para treinar a seleção nacional de sub-13 no Open do Luxemburgo) que iniciamos a conversa com esta figura do desporto local e nacional, o qual nos começaria por explicar que o convite da FPTM para representar Portugal no referido open enquanto treinador da equipa de sub-13 foi especificamente para essa prova. Há, no entanto, a intenção dos responsáveis federativos em contar com Diamantino Pinto para orientar as cores nacionais noutras provas que irão ser realizadas tanto em solo português como noutros países, conforme nos disse o nosso entrevistado.

Este convite por parte da federação surgiu não só por tudo aquilo que ao longo de anos a fio Diamantino Pinto deu ao ténis de mesa nacional, como também pelo reconhecimento do trabalho que está atualmente a ser desenvolvido no âmbito do projeto que a ATMP está a desenvolver em parceria com a CMG, como o próprio nos diz. Este projeto - ou protocolo - entre as duas entidades surgiu há quatro anos e vem sendo desenvolvido no Centro de Alto Rendimento de Gaia (espaço que é partilhado pelos atletas da FPTM), visa, sobretudo, a dinamização (da modalidade), a iniciação e a formação de jovens das escolas do 1.º ciclo do concelho de Vila Nova de Gaia.

De acordo com Diamantino Pinto, ao longo destes quatro anos «têm surgido alguns miúdos que têm servido as seleções nacionais jovens, sendo que a maior parte deles vem das escolas do Município de Gaia. Depois, também os clubes de Gaia têm ali um viveiro que poderão aproveitar para as suas equipas», já que o Centro de Alto Rendimento está aberto aos clubes para que estes ali possam treinar os seus jovens atletas e deste modo aperfeiçoá-los, visto ser este outro dos objetivos deste protocolo. Atualmente, neste início de época, este projeto da ATMP conta com 20 jovens (o mais novo tem 5 anos e o mais velho tem 13 anos).

TRABALHO QUE JÁ DÁ FRUTOS

Fotos ARQUIVO PESSOAL DE DIAMANTINO PINTO
Fotos ARQUIVO PESSOAL DE DIAMANTINO PINTO
Convidado a fazer um balanço destes quatro anos de projeto, Diamantino Pinto afirma que têm sido positivos, desde logo porque alguns atletas estão a chegar às seleções nacionais, além de que é importante porque acaba por tirar os jovens de casa. Aliás, este sedentarismo atual da juventude acaba por ser uma das principais dificuldades no trabalho que é desenvolvido na ATMP por Diamantino Pinto. «Sinto que os jovens hoje em dia quando nos chegam às mãos com 7, 8, 9 ou 10 anos são pessoas muito mimadas, sem coordenação motora e a formação, nesse aspeto, é muito mais difícil do que era há uns anos atrás. Antigamente, os miúdos jogavam à bola, tinham outras atividades físicas, contrariamente a hoje em dia, em que na maior parte do tempo estão sentados, são sedentários, e portanto o processo de formação torna-se mais complicado, não só a nível motor mas também a nível psicológico. E isso obriga-nos a encontrar formas alternativas para motivar, para conseguir chegar aos objetivos de modo a que não nos atrase o processo de formação».

Outra dificuldade sentida pelos integrantes deste projeto é o facto de haver cada vez menos clubes no nosso país, sendo que na visão do nosso entrevistado «estar a formar os miúdos e depois eles não terem clubes para praticar é uma dificuldade que temos encontrado». Nesse sentido, segundo nos explica, a Associação está a procurar que de alguma forma surjam novos clubes, ou incentive o reativar da modalidade em clubes que por alguma razão a deixaram de ter. «Porque isto começa a ser um pouco difícil. Já para não falar de algumas modalidades que estão a fazer um excelente trabalho de captação de jovens, como é o caso do futebol. E daí as outras modalidades terem necessidade de fazer um trabalho muito forte no sentido de formarem monitores, de irem às escolas, e é isto que a Associação está atenta e quer continuar a fazer. Mas de uma forma geral, o trabalho que está a ser desenvolvido pela ATMP tem sido positivo. A meu ver, o facto de trazermos miúdos para a modalidade é sempre proveitoso».

DIMINUIR O FOSSO ENTRE A FORMAÇÃO E OS SENIORES

Diamantino Pinto foi, como já vimos, chamado pela FPTM a conduzir os destinos da seleção nacional de sub-13 no Open do Luxemburgo, sendo que um dos objetivos principais desta chamada prendeu-se com a necessidade de dar experiência internacional a estes jovens atletas, de terem contacto com o ténis de mesa internacional, sendo que para alguns foi mesmo a primeira representação na “seleção de todos nós”. De acordo com o nosso interlocutor esta ligação com a FPTM é para continuar, até porque a federação «está neste momento a fazer estágios mensais para estes miúdos, não só para os que participaram nesta prova internacional como para outros que vão surgindo. Neste momento está a ser feito um trabalho com as seleções jovens que não era feito mas que é muito importante, porque se estes estágios não se realizarem vai-se notar uma grande diferença entre os atletas que estão mais avançados e os que estão a começar, e nesse sentido tem que se dar um trabalho contínuo a estes atletas para aumentar os níveis e a qualidade deles. E daí a FPTM estar a iniciar este trabalho, a fazer esta aposta, para que se consiga de alguma forma diminuir o fosso que existe neste momento entre a formação e os nossos atletas seniores. Os atletas seniores que neste momento representam a seleção portuguesa foram vice-campeões da Europa, e a nível de juniores, ou de cadetes, estamos nos lugares do 10.º para baixo. Há aqui pois um fosso muito grande. E se não se fizer este trabalho ao nível da formação será muito difícil dar continuidade desses bons resultados da seleção nacional de seniores», opina Diamantino Pinto, que sublinha a importância da FPTM em apostar na realização destes estágios com os atletas da formação e a consequente participação em mais opens a nível internacional semelhantes ao que aconteceu no Luxemburgo, «pois acho que nesse sentido vamos conseguir talvez mais títulos a nível europeu».

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A nível sénior, nomes como Tiago Apolónia, João Monteiro, ou Marcos Freitas têm alcançado brilhantes resultados no plano internacional, quer ao serviço da seleção nacional, quer ao serviço dos seus respetivos clubes. É no seguimento deste facto que Diamantino Pinto considera que a atual montra do ténis de mesa português é feita pelos seniores, são mais mediáticos, sendo que o facto de tanto a equipa nacional feminina como a masculina terem sido recentemente vice-campeões europeus fez com que houvesse um aumento de procura da modalidade por parte dos jovens. «Não sei se isso foi coincidência ou não, mas eu próprio senti nas semanas a seguir a este feito dos seniores que houve mais procura pelo ténis de mesa do que nos outros anos anteriores. Isso é bom para a modalidade. Se falarmos nas equipas jovens os resultados estão aquém dos que têm sido obtidos pelos seniores, como já antes disse, mas por outro lado vê-se que há muitos atletas que chegam à idade de júnior e primeiros anos de sénior e procuram clubes de fora de Portugal para dar continuidade às suas carreiras. E com o trabalho que se está a fazer dentro das seleções jovens acho que dentro dos próximos anos o ténis de mesa vai de certeza melhorar em termos de resultados».

O facto de Diamantino Pinto desenvolver atualmente um trabalho no setor da formação da ATMP faz com que tenha uma visão ampla do trabalho que os clubes do Distrito do Porto vão fazendo no âmbito dessa mesma formação. E no plano do nosso concelho destaca o bom trabalho que tem sido feito pelo Núcleo Cultural e Recreativo de Valongo, cujos jogadores lhe vão chegando às mãos por vias dos estágios realizados pela Associação. E ajudar a reativar a secção de ténis de mesa no CPN? Diamantino Pinto diz que este projeto da ATMP no qual está integrado é um obstáculo a essa possibilidade, «mas talvez esteja na minha mente daqui a uns anos ajudar a reativar a secção (no CPN), mas neste momento não me passa essa possibilidade pela cabeça».

ÁLVARO MENDES TIMONEIRO DA GLÓRIA

Sendo Diamantino Pinto uma figura incontornável do desporto local e nacional, inevitavelmente a nossa conversa não se desviou do passado glorioso deste homem. Natural de Ermesinde, onde nasceu em 1962, o CPN foi o seu berço no âmbito da modalidade, tendo chegado ao clube, na década de 70, com apenas 9 anos de idade, pela mão de outra figura mítica do desporto local e do ténis de mesa cepeenista em particular: Álvaro Mendes. No CPN desenvolveu grande parte da sua vida de atleta, tendo conquistado títulos, muitos títulos, muitos deles pomposos e que fazem parte da história do clube, casos do título de campeão nacional de infantis juntamente com Elmano Monteiro e Albano Fernando, do título de campeão nacional de pares com Elmano Monteiro, das duas vezes em que foi campeão nacional de absolutos, de um par de Taças de Portugal, bem como inúmeras representações na seleção nacional, entre outros ceptros. Foram 14 anos de CPN, até que saiu para Espanha, onde atuou duas temporadas ao serviço do Mercantil de Vigo.

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O F.C. Porto, clube cujas cores defendeu durante um par de anos na qualidade de jogador/treinador, foi a etapa que se seguiu na carreira, até que regressou ao clube da sua terra natal, o CPN, onde esteve mais quatro anos, para aos 31 anos fazer um interregno de 14 anos na sua ligação enquanto atleta e treinador com a modalidade. O casamento e a constituição de família assim o exigiram. Até que aos 45 anos retoma a prática do ténis de mesa juntamente com antigos colegas de equipa do CPN, ao serviço do Grupo Desportivo das Tintas CIN, nos campeonatos do Inatel. «Foi ai que recomecei como atleta, e mais uma vez a função de treinador acompanhou-me então. Aliás, a função de treinador sempre andou associada na minha carreira enquanto atleta, pois a determinada altura o Álvaro Mendes, que estava responsável pela formação, delegava em nós, os atletas mais maduros, as funções de treinador. Entretanto, fui tirando os cursos de treinador e neste momento estou a concluir o nível III de treinador, e daí ter também surgido o convite da ATMP para integrar este projeto», recorda Diamantino Pinto que, na qualidade de atleta, não perdeu o gosto e a aptidão pelos títulos.

Atualmente, continua a jogar, no escalão de veteranos, ao serviço do Guilhebreu, de Vila do Conde, tendo sido nos últimos anos cinco vezes consecutivas campeão nacional do seu escalão! E só não alcançou o sexto título consecutivo na última temporada porque não participou em nenhuma prova, visto ter tido algumas lesões – derivadas do seu trabalho diário com os jovens no Centro de Alto Rendimento de Gaia - que o impediram de competir.

E por falar em Álvaro Mendes, o grande timoneiro do ténis de mesa cepeenista e grande responsável pela iniciação de Diamantino Pinto na modalidade, como o próprio o diz, as memórias e saudades são muitas quando o seu nome é pronunciado nesta conversa. «Tenho muitas memórias dele, não só a nível dos ensinamentos que nos transmitiu, mas também por nos formar enquanto homens. Saudades da parte social, do ambiente que ele criava ao redor com as famílias dos atletas, organizando lanches, convívios. Tudo isso marcou-me. Era um amigo, uma pessoa que convivia diariamente connosco. Era da família, proporcionava-nos tudo de bom. Deixa saudades».

Diamantino Pinto que ainda mantém contacto com antigos colegas de equipa, como Vítor Pina ou Elmano Monteiro, por exemplo. «A amizade continua sempre presente e ainda há poucos dias estive com eles e falaram-me da vontade de organizar um jantar com ex-atletas do CPN, como já foi feito há uns anos atrás, havendo agora essa vontade de o repetir».

Questionado sobre o segredo de aquela geração dourada de mesatenistas do CPN ter sido tão forte e vencedora Diamantino Pinto não tem dúvidas: «Se calhar talvez o facto de sermos um clube pequeno e saber que se quiséssemos ganhar teríamos de fazer das “tripas coração” e nesse sentido havia uma garra muito grande, uma vontade enorme de vencer quando defrontávamos os grandes clubes. Nessas alturas, quase que nos transformávamos, transcendia-mo-nos, tínhamos uma união muito grande. Era o CPN!». Garra essa que hoje Diamantino Pinto procura transmitir aos seus jogadores, pois «é importante, porque essa garra de alguma forma ajuda na concentração. Se não houver garra não há concentração e a concentração é muito importante».

Por: Miguel Barros

 

 

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