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Edição de 30-09-2019
Jornal Online

SECÇÃO: Crónicas


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PASSEIOS DE BICICLETA À DESCOBERTA DO PORTUGAL REAL...

«Peniche. Terra de pescadores e das rendas de bilros»

Saí de manhã cedo de São Pedro de Moel. A paisagem era diferente. O fogo por aqui tinha sido diminuto.

Ao lado da estrada da Nazaré, há uma faixa de ciclovia e é por ela que vou. Passo pela agradável localidade e Praia da Pedra do Ouro, e percorro as ruas da Praia de Paredes da Vitória. Localidade pacata quase sem movimento a contrastar com o que encontrei em agosto. Não faltam lugares de estacionamento, mas em agosto qualquer nesga de terreno que não esteja ocupado, tenta-se que os carros lá fiquem, o movimento de bar junto à praia que era calmo e servido com simpatia, agora é caótico. Entro na estrada Atlântica. A paisagem muda. Do arvoredo verde e baixo motivado pelos fortes ventos, retorna o negro após a passagem do fogo.Galgo os kms, com alguns impropérios ditos em voz alta que ninguém me ouve. É uma dor de alma. O silêncio é cortado pelas brisas de vento vindas do Atlântico. Assim chego à Praia Norte na Nazaré.

A estrada alcatroada dá lugar a uma de terra batida. Para além das suas indefinições estão estacionadas rulotes de todas as nacionalidades. Os utentes meio hippies, crianças semi-nuas a brincarem com nada, naquela terra castanho-amarelada, quando a dois passos têm a areia da praia. O mar está “Chão”. Mais parece um lago. O McNamara não aceitou o meu desafio. Estavam reunidas condições, pelo menos, para me deitar na prancha. O Canhão da Nazaré, onde se formam as ondas gigantes em determinados períodos do ano, tirou o protagonismo à antiga e conhecida tradição das “Sete Saias”. Os barcos e pescadores da arte xávega deram lugar às pranchas e aos surfistas. Uma visita obrigatória é o Sítio. Nesse promontório temos a Ermida da Memória, onde conta a lenda que N.ª Senhora apareceu a D. Fuas Roupinho, que andando numa caçada o impediu que se lançasse no precipício numa manhã de nevoeiro em 1182.De lá temos uma vista magnífica da vila e praia da Nazaré.

Da Nazaré segui pela estrada de Bartolomeu Dias até São Martinho do Porto. Estrada esta em bom estado, mas todo o seu percurso é percorrido pela serra que divide a costa de praia e o campo. Percorrida a baía de São Martinho do Porto sigo para a Foz do Arelho e desta para Óbidos. Vila com ocupação humana, anterior aos romanos. D. Dinis ofertou-a à sua esposa D. Isabel no séc. XIII. Vila nascida dentro da muralha do castelo, com belos arruamentos de casas antigas e seus canteiros de flores garridas e candeeiros antigos que já não os vemos nas nossas urbes.

FORTE DE SÃO JOÃO BAPTISTA - BERLENGAS - PENICHE
FORTE DE SÃO JOÃO BAPTISTA - BERLENGAS - PENICHE

Por lá se bebem umas ginjinhas servidas em copinhos de chocolate. Das muralhas admiramos o vale envolvente, repleto de árvores de fruta. Em agosto mais parecia uma vila brasileira, pois era a língua mais falada pelas suas ruas e estabelecimentos, levando-me a pensar que o estrangeiro seria eu. Aqui fui interpelado por um inglês, que por lá residia há meia dúzia de anos. Quis conselhos, para a sua bicicleta. Segundo ele, gostava muito de andar de bicicleta, mas ir até às Caldas da Rainha e voltar, era muito sofrimento. Diz-me ele: “Sabes, ir e vir é muito sofrimento, como um termo que se usa na Inglaterra: Damos cabo dos Tins-Tins da rainha. Para a nossa idade, já não importa e desata à gargalhada. Lá o aconselhei a mudar de selim e a alterar a altura do mesmo, entre outras coisas, que também não sou muito entendido na matéria.

A estrada N 114 estava à minha espera. Percorri-a, passando pela Lagoa de Óbidos, e retornando à mesma via passei por Serra d’El Rei. É bem serra. Estrada sempre em subida. Pelos quilómetros já feitos, pelo peso da mochila, pelas pernas, por nem sei o quê, já estava como o Inglês. Por fim cheguei a Atouguia da Baleia e daqui a Peniche foi um tirinho. A N114 termina e temos o IP6. Este quase que entra pela cidade de Peniche. Não temos outra via.

Peniche. Terra de pescadores e das rendas de bilros. Ficou-nos em má memória, pelo motivo do Estado Novo ter transformado o seu forte em prisão política. No decorrente ano a ala prisional foi transformada em museu. Pintaram-na de Branco. A cor simbólica da pureza, da inocência, posta a cobrir aquelas paredes tingidas de tantas atrocidades. Não gostei. Posso até compreender a simbologia da mesma a quem por lá esteve. Mas a cor no meu ver e sentir, teria que ser uma cor agressiva.

A parte nova tem a dita IP como estrada. Grandes zonas verdes de lazer a ladear a mesma. Quase a totalidade da cidade está situada entre muros do forte construído nos sécs. XVI a XVII. A parte norte da península junto das suas falésias tem quase a totalidade da sua área industrial. A estrada leva-nos ao Farol e ao Cabo Carvoeiro. Desta localização podemos admirar as ilhas Berlengas, e um promontório rochoso que dá pelo nome de Nau dos Corvos. Junto do Forte/Prisão/Museu, temos restaurantes que servem bom peixe, e do cais de embarque para as Berlengas. Várias firmas nos levam às Berlengas, embora tenhamos um tempo limite de tempo para permanecer nelas. Há barcos e barquinhos. Há botes e botinhos, tudo serve. À medida do cliente. Com mais ou menor adrenalina, consoante o Mar e a nossa idade. Por lá temos o Forte de São João Baptista, parte convertido em hotel. A aldeia dos pescadores com duas mini ruas e plantada numa das encostas da ilha. Ponto de chegada. Um café / restaurante para servir os turistas, um farol, trilhos a percorrer a ilha e gaivotas que em voos rasantes tentam demover os intrusos. Depois há aquele verde Mar, que nos faz parar e sonhar.

Fui alertado por um pescador que mais tarde me convidou para almoçar uma caldeirada de peixe e que declinei por falta de tempo.

Companheiro, não fume, nem deite nada para o chão, mesmo que seja um lenço de papel. Andam por aí os fiscais à civil de máquina fotográfica e a multa dá para ir ao Brasil.

Ainda não tinha embarcado para retornar a Peniche e já pensava em voltar.

Por: Manuel Fernandes

 

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