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Edição de 30-09-2019
Jornal Online

SECÇÃO: Destaque


ENTREVISTA

Centro Social de Ermesinde cria Escola Segunda Oportunidade para combater abandono escolar precoce

O Centro Social de Ermesinde (CSE), através do seu Centro de Formação e Emprego, associa neste novo ano letivo o seu nome a uma medida que coloca Portugal na condição de pioneiro no seio da União Europeia (UE). Falamos das Escolas Segunda Oportunidade, um projeto que na sua génese visa combater o abandono escolar precoce, isto é, dar respostas a adolescentes e jovens adultos que abandonaram a escola sem concluir a sua formação (escolaridade obrigatória) e que no presente, sem qualificações nem emprego, estejam à beira da (ou já em) exclusão social.

Portugal deu então no início do mês de agosto um passo importante para combater estes casos de abandono escolar, tendo o Governo reconhecido as Escolas Segunda Oportunidade, que passaram a ter enquadramento legal e que confere então ao nosso país o estatuto de pioneiro nesta resposta ao combate a esta problemática. E pioneiro é também o Centro Social de Ermesinde - e consequentemente o concelho de Valongo - no que concerne à implementação das Escolas de Segunda Oportunidades. A nível nacional o Centro é umas das primeiras instituições/entidades a avançar com esta medida de educação/formação. No sentido de conhecermos um pouco melhor este projeto - que teve o seu arranque neste mês de setembro, aquando do início do novo ano letivo - o nosso jornal esteve à conversa com Albertina Alves, Diretora Técnica do Centro de Formação e Emprego do CSE.

Foto ALBERTO BLANQUET
Foto ALBERTO BLANQUET
Portugal é o primeiro país da UE a dar enquadramento legal às Escolas Segunda Oportunidade. Esta medida de educação/formação destina-se a jovens entre os 15 e os 25 anos que tenham abandonado a escola sem terem adquirido as competências básicas - ou por outras palavras, a escolaridade obrigatória - que lhes permita posteriormente uma integração profissional ou mesmo social. No fundo, uma resposta diferente daquela que é dada pelo sistema formal da educação e formação.

Nas Escolas Segunda Oportunidade o foco são os jovens que estão fora desse dito sistema formal educativo, jovens que por si só terão já percursos de vida difíceis, que estão desempregados, em situação de empregos precários, ou ainda que já estão com comportamentos desviantes. Jovens que face a este cenário de abandono precoce da escola estão eles próprios agora numa situação de desfavorecimento.

Este é pois um público que o CSE está vocacionado a trabalhar, conforme frisa no início desta conversa Albertina Alves. «A nossa missão é melhorar a vida destes jovens. E nós trabalhamos principalmente os jovens que já estão em situação de desfavorecimento social, sendo que a nossa função nos projetos de intervenção que desenvolvemos junto deste público passa muito pela inclusão social, e a inclusão social sem a certificação escolar não é possível. Tem que haver certificação escolar que lhes permita depois fazer a integração profissional e a integração social».

O CONTACTO INICIAL

COM A PROBLEMÁTICA

DO ABANDONO ESCOLAR

ASPETO DO ESTÚDIO DE FOTOGRAFIA DAS OFICINAS DA ESCOLA SEGUNDA OPORTUNIDADE
ASPETO DO ESTÚDIO DE FOTOGRAFIA DAS OFICINAS DA ESCOLA SEGUNDA OPORTUNIDADE

É a partir do contacto direto com este público jovem em desfavorecimento social - no seio do nosso concelho, sobretudo - que o CSE chega a esta problemática do abandono escolar precoce. Esta familiaridade com este problema aconteceu com mais incidência há cinco anos atrás, altura em que a instituição teve conhecimento do trabalho de combate ao abandono escolar precoce desenvolvido pela Escola Segunda Oportunidade de Matosinhos (E2OM) – uma estrutura que já conta com 11 anos de atividade.

«Depois de acompanharmos de perto o trabalho desta entidade - a primeira em Portugal a trabalhar esta problemática do absentismo e o abandono escolar precoce -, entendemos que essa resposta teria interesse para os nossos públicos. E uma vez que já trabalhávamos o público jovem pela parte mais social e da formação percebemos que faltava a parte da certificação escolar, a qual é importantíssima para que depois esses jovens consigam dar o salto para a integração socioprofissional».

Esta vontade de se juntar ao combate do abandono escolar precoce por parte do CSE nasce desse trabalho direto com os jovens do concelho e arredores muito também no âmbito dos projetos ligados ao Programa Escolhas, como são os exemplos do Trabalho Pró Boneco, Papalagui e Zona Z. Projetos desenvolvidos pelo CSE e que revelaram a necessidade de se estruturar uma nova resposta socio-educativa para o território de Valongo. Por outras palavras, com estes projetos o Centro começou a identificar com maior nitidez esta problemática do abandono escolar precoce e partiu então para a concretização da Escola Segunda Oportunidade no nosso concelho.

O despacho publicado pelo Ministério da Educação no início de agosto que dá enquadramento legal a esta oferta coloca o CSE e consequentemente o Concelho de Valongo na linha da frente para combater esta problemática.

Na verdade, são ainda poucos - a nível nacional - os municípios e/ou instituições que abraçaram esta resposta pública de educação/formação. A E2OM e a Escola do Arco Maior (Porto), são as entidades pioneiras a que a Escola Segunda Oportunidade de Valongo (E2OV) e a E2O de Samora Correia se juntaram mais recentemente. O Município de Valongo, por intermédio do CSE, será assim uma das entidades pioneiras na implementação deste projeto após o reconhecimento governamental.

E por falar em Município, há que frisar que a E2OV no nosso concelho será colocada em prática através de uma parceria entre o CSE, o Agrupamento de Escolas de Ermesinde, a Câmara Municipal de Valongo e a Secretaria de Estado da Educação. «Todas estas entidades já são parceiros do CSE em vários projetos. Tendo em conta que estamos a trabalhar com jovens, faz sentido aliarmos a formação à certificação escolar.

Efetivamente esta é uma iniciativa do CSE, que vai ser desenvolvida por nós, num processo que envolverá a criação de uma comunidade educativa capaz de construir, de forma autónoma, um plano educativo que responda às motivações e interesse dos jovens. As E2O fazem parte da oferta da rede pública. Nesse sentido a parte da certificação escolar será da responsabilidade do agrupamento de escolas da rede pública, que neste caso é a Escola Secundária de Ermesinde. À Câmara Municipal cabe o papel do enquadramento do projeto, até porque, creio que todas as escolas vão passar neste ano letivo para a alçada da autarquia», diz Albertina Alves no sentido de explicar o papel de cada um destes parceiros.

CAMINHO ALTERNATIVO

E MOTIVADOR PARA OS JOVENS

FOTO ALBERTO BLANQUET
FOTO ALBERTO BLANQUET
O abandono escolar precoce é um problema nacional e o concelho de Valongo não é exceção a esta tendência (nota: na caixa anexa apresentamos alguns dados estatísticos que atestam esta constatação a nível local e nacional). As E2O são assim digamos que um caminho alternativo às escolas do sistema formal de educação e formação, que não conseguem motivar estes jovens para integrar as respostas que têm. «A escola formal não consegue motivar estes jovens que ainda estão em idade escolar e que não terminaram a escolaridade obrigatória, e é aqui que entra esta resposta socioeducativa».

Albertina Alves explica que grande parte destes jovens, que estão em situação de desfavorecimento, são oriundos de famílias que já não valorizaram muito a escola. Ou seja, não tem só a ver com a situação económica dos agregados familiares, mas antes com a valorização da escola. «São jovens que por si já não valorizavam a parte da formação escolar. Vêm de famílias que elas próprias também entraram demasiado cedo no mercado de trabalho e reproduziram essa tendência nos filhos».

Como já antes foi referido, o CSE travou com maior nitidez conhecimento com esta realidade através da implementação dos projetos no âmbito do Programa Escolhas. Contudo, estes jovens “chegam” ao conhecimento da instituição também por via do trabalho que é feito no terreno pelos técnicos de Ação Social, das Equipas Multidisciplinares de Apoio aos Tribunais, da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, mas também através dos próprios pais, atendendo a que o Centro de Formação e Emprego do CSE dá respostas ao nível da formação de adultos, que apercebendo-se de que este pode oferecer respostas aos seus filhos encaminham-nos para a instituição.

RESPOSTA PÚBLICA DE NATUREZA PRÁTICA

UMA DAS OFICINAS DA ESCOLA SEGUNDA OPORTUNIDADE
UMA DAS OFICINAS DA ESCOLA SEGUNDA OPORTUNIDADE

A Escola Segunda Oportunidade entrou em ação neste mês de setembro com uma turma de 15 jovens com idades compreendidas entre os 15 anos e os 18 anos e, posteriormente, será iniciada uma outra turma para jovens com mais de 18 anos. Relativamente à dinâmica da formação em si, Albertina Alves explica que resultará da definição de Planos Individuais de Formação (PIF), construídos a partir das motivações e interesses dos jovens.

A Escola Segunda Oportunidade de Valongo (E2OV) será mais do que um espaço físico onde os saberes disciplinares confluem no sentido da certificação escolar. «Esperamos e vamos trabalhar para que esta nova estrutura orgânica de educação do concelho de Valongo reinvente a dinâmica pedagógica para o aumento da escolaridade. Isto é, consubstancie o conhecimento a partir do saber prático, norteado pelas espetativas de cada aluno e aluna durante o próximo ano 2019-2020, para o saber abstrato e disciplinar. Prevemos que seja um espaço de afetos e do envolvimento coletivo a permitir a emancipação crítica de cada jovem; um espaço de liberdade e de criatividade numa relação transversal com a comunidade. Assumiremos a comunidade como o eixo de uma experiência que seguramente irá marcar cada uma e cada um na construção do conhecimento. Será o teatro, a dança, a música, a informação, o artesanato ou a construção para que cada uma e cada um cresçam no seu tempo e nos devolvam a sua solidariedade e visão do mundo. Seremos a E2OV, um projeto inacabado e em construção».

A E2OV tem uma equipa composta por Florentino Silva, coordenador da escola e Sérgio Garcia com a tarefa da inovação e desenvolvimento; uma equipa de sete professores das várias áreas disciplinares do 2.º e 3.º ciclo do ensino básico e uma técnica de intervenção local destacados pelo Ministério da Educação; vários formadores de áreas vocacionais e a comunidade. «É uma ampla equipa que nos faz lembrar o ditado índio que diz que “é necessário toda uma aldeia para ensinar uma criança”. Iremos assumir esse compromisso para que cada jovem possa ser o que deseja no seu trajeto de vida». Assim, a intenção da E2OV é a procura de uma construção coletiva, que envolverá os jovens e as famílias, técnicos do CSE, professores, dinamizadores de diversas atividades e comunidade, que vão interagir e construir saberes durante a preparação e na dinamização das variadas atividades integradoras que vão sendo criadas (música, teatro, artesanato, costura, desporto, reparação de equipamentos elétricos, entre outras). Por outro lado, este processo de criação conjunta vai ser o caminho que levará os jovens a concluírem ciclos escolares interrompidos. De acordo com a diretora técnica do CSE esta resposta «é muito virada para os interesses, gostos e as necessidades de cada um, é uma resposta de natureza muito prática. Vamos tentar que através de workshops e oficinas de formação eles desenvolvam então os conhecimentos que são das áreas disciplinares do português, da matemática, ou de inglês. Será este processo de construção coletiva o terreno fértil que a E2OV irá favorecer no desenvolvimento de competências sociais nestes jovens. A E2OV será naturalmente diferente da escola formal. Estes jovens desistiram da escola, porque não se enquadraram, por qualquer motivo, e abandonaram o percurso».

OFICINA DEDICADA AO BRINQUEDO TRADICIONAL
OFICINA DEDICADA AO BRINQUEDO TRADICIONAL

A componente motivacional está, segundo a explicação de Albertina Alves, bem vincada neste projeto. Este é um dos fatores pelos quais o CSE encara este projeto como um desafio. «Esta resposta tem uma componente motivacional muito forte. Vamos trabalhar de forma a ir ao encontro deles. No fundo, é um trabalho para que eles construam um caminho que os leve à tal integração (sócioprofissional) e não à destruição deles próprios. Eles terão de fazer aprendizagens, mas não são apenas aprendizagens disciplinares, há toda uma componente social que eles terão também de adquirir. Mas isso surgirá de uma forma natural se nós conseguirmos cativá-los, e isso é um desafio para nós, primeiro criar confiança e depois motivá-los a seguir um percurso e fazerem escolhas».

Com esta nova resposta pública os alunos poderão completar ciclos de aprendizagem escolar, de acordo com os níveis de qualificação de partida. Assim, um jovem com o 5.º ano necessitará de frequentar 3 anos nesta escola para concluir o 9.º ano, ou um jovem com o 7.º ano necessitará de 1 ano para concluir igualmente o 9.º ano. Por outro lado, os alunos mais velhos (com 18 ou mais anos) vão poder frequentar em simultâneo módulos de formação financiada que lhes permitam desenvolver competências profissionais.

As E2O dão este ano letivo os primeiros passos de forma oficial. Albertina Alves opina que há muita coragem por parte do Ministério da Educação em criar esta nova resposta pública. Efetivamente «estes miúdos estão em idade escolar, ainda não terminaram a escolaridade obrigatória, e a nossa legislação diz que todas as crianças têm direito a concluir essa escolaridade obrigatória; então, se por algum motivo não se enquadraram no sistema de ensino formal faz sentido que se criem outras respostas».

Por: Miguel Barros

 

 

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