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Edição de 20-11-2017
Jornal Online

SECÇÃO: Crónicas


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Sonhos comprometidos

Passara a Srª da Serra e, obediente ao provérbio regional "a Senhora da Serra tira a merenda e dá a vela" (1), a família encontrava-se reunida, em torno de uma lareira vivaz, prestes a cear à luz da candeia que outra não havia depois que o sol transpunha o horizonte e as sombras invadiam a terra. Regressado do trabalho agrícola, o meu pai abria o jornal "O Comércio do Porto" que, ali, era entregue com dois dias de atraso (2) e, minutos depois, chamava a nossa atenção para uma notícia importante como são todas aquelas a que, de algum modo, nos sentimos ligados. Esta dizia-nos especialmente respeito: " O velho paquete Colonial encalhou nas costas da Escócia".

O Colonial havia sido "a nossa casa" durante cerca de duas semanas em junho de 1944 quando meus pais decidiram regressar à terra-mãe atravessando o Atlântico naquele barco de provecta idade e numa altura em que a guerra ainda não havia terminado persistindo no espírito de todos o trauma que provocara e os males que nos trouxera. A família era, nessa altura, constituída pelo casal de emigrantes transmontanos Francisco e Maria e pelos dois filhos à data existentes, o autor destas linhas de quatro anos e uma irmã de quatro meses. Enquanto mamãe se ocupava da neném (3), eu percorria o convés cavalgando meu triciclo, vigiado de perto por papai que preenchia o tempo lendo um dos seus amados livros. Levando em conta a seletividade da memória que retém apenas algumas imagens e oculta outras por razões que a maioria de nós desconhece, mas que têm a ver com a nossa idiossincrasia e os contextos em que ela se realiza, eu e a minha irmã éramos, decerto, as únicas crianças entre os passageiros do navio, não me recordo de nenhuma outra. O Colonial, um dos poucos navios que faziam a carreira entre o Brasil e Portugal, era um meio de transporte que tinha muito que contar como a "Nau Catrineta" (4). Construído em 1908 nos estaleiros navais Germania da Krup em Kiel (Alemanha) para uma empresa alemã de navegação que fazia a ligação entre os continentes americano e europeu, fora adquirido pela portuguesa Companhia Nacional de Navegação em 1929 para operar entre Angola/Moçambique e a então metrópole, ocasionalmente entre o Brasil e Portugal. Vendido, em 1950, à British Iron and Steel Corporation, a 17 de setembro desse ano, quando estava a ser conduzido para demolição desprendeu-se do reboque e encalhou perto de Campbeltown na Escócia (5) O corpo da notícia de "O Comércio do Porto" deveria conter estes e outros pormenores que o meu pai guardou para si.

O cabeçalho e as circunstâncias em que a notícia nos foi transmitida bastaram para lembrar um capítulo da nossa vida que ficaria para sempre guardado no arquivo da minha memória suscitando embora, a cada passo, interrogações pertinentes: 1ª O que terá motivado, realmente, a deslocação da família desde o Rio de Janeiro até à terra dos meus avós? 2ª A embaixada de Portugal no Rio de Janeiro teria informado os nossos pais dos riscos que corriam ainda que a guerra já não estivesse presente no teatro europeu? 3º Que argumentos teria usado o meu pai, de temperamento decidido, para convencer a mãe, bem mais contida, de que aquele era o tempo de empreender nova etapa das suas e nossas vidas? Tínhamos sido educados para não questionar as decisões "dos mais velhos" e essa foi a razão do nosso desconhecimento. As três questões estavam, sem dúvida, relacionadas mas cada uma tinha a sua razão de ser e as suas respostas permitiriam, sem dúvida, um conhecimento mais cabal do que, à primeira vista,parecia estranho. Os nossos avós haviam falecido nos anos mais recentes e a partilha dos bens estava resolvida. No Rio de Janeiro, apesar da guerra, o meu pai ocupava lugar de privilégio na empresa em que trabalhava e nada fazia supor que os ventos mudassem de direção, antes tudo indicava que viesse a ter uma carreira ascendente. Mas voltar à terra e encetar uma etapa diferente, a de empresário agrícola, era um sonho que ele alimentava numa época em que as técnicas de produção, na chamada Terra Fria Transmontana, passavam de geração em geração quase incólumes a mudanças. Introduzir novos métodos de cultivo, de seleção de "sementes", de fertilização, de conservação em silos em períodos adequados, de comercialização do produto eram itens muito importantes e que estavam a ser desenvolvidos em Portugal por esse tempo (6). Havia que ter em conta, no entanto, não só a parca rentabilidade das terras, como igualmente a incerteza do clima, o combate às doenças e os elevados custos de produção além das incertas políticas governamentais, falta de apoio do Estado e ausência total de seguros à produção. Visto tratar-se de algo novo, havia que ser estruturado de maneira inovadora, lógica e consistente o que de todo faltava. Quanto a informações que a Embaixada pudesse dar, era algo inexistente ou pouco esclarecedor provavelmente em virtude da suposta neutralidade de Portugal no conflito. As viagens entre Brasil e Portugal continuavam e não havia notícia de que algo de trágico tivesse acontecido.

A travessia ocorreu sem problemas e o projeto dos meus pais foi posto em ação. Infelizmente, uma série de maus anos agrícolas e ausência total de apoios do governo - de seguros nem se falava! - fizeram encalhar o sonho material que eles ambicionavam. Não obstante, cumpriu-se o sonho maior de dar a todos os sete filhos o nível de instrução que lhes permitiu singrar na vida.

(1) - A tradicional festa que se realizava anualmente a 8 de setembro em honra de Nossa Senhora da Serra precedida de uma novena, evento muito importante numa vasta área da Terra Fria Transmontana, marcava para as populações daquela vasta área a transição do verão para o outono. Como os dias eram mais "curtos" o regresso dos lavradores às suas casas fazia-se mais cedo não havendo necessidade de levar merenda; em contrapartida, o tempo entre a ceia e a deita (vela) era mais prolongado permitindo maior convívio das famílias.

(2) - Os jornais publicados na cidade do Porto demoravam dois dias a chegar às aldeias dos concelhos de Bragança, Vinhais, Macedo de Cavaleiros quiçá de outros daquela área.

(3) -"Neném" designação para bebé no Brasil.

(4) - "Nau Catrineta" - Poema de Almeida Garrett ao gosto popular baseado nos Descobrimentos Portugueses.

(5) - Informação obtida na Wikipédia - enciclopédia livre.

Por: Nuno Afonso

 

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