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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 31-05-2016

    SECÇÃO: História


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    A primeira guerra mundial tem cem anos (16)

    0 1.º morto português na Grande Guerra

    Ultrapassada a celebração de mais um aniversário da última revolução portuguesa (25 de abril de 1974) voltamos a evocar alguns factos relacionados com a participação de Portugal na 1.ª Guerra Mundial. A segunda leva de combatentes portugueses ainda nem há mês e meio havia chegado à Flandres e já tinha uma primeira morte a lamentar. A do soldado António Gonçalves Curado, natural da Barquinha. Na sua ficha do CEP, em "observações" está escrito o seguinte: "Faleceu na primeira linha em 4 de Abril de 1917, por virtude de ferimentos recebidos em combate, ficando sepultado no cemitério inglês de Laventie".

    Sobre a sua morte, o general Tamagnini de Abreu, um dos responsáveis pela preparação do CEP em Tancos e também comandante do CEP em França, escreveu o seguinte no seu diário, em 8 de abril de 1917, dia que, nesse ano, coincidiu com Domingo de Páscoa: "Chegou a comunicação oficial dos ingleses da morte do soldado e dos ferimentos dos outros. Afinal, não foram estilhaços da granada que o mataram. Caiu sobre o abrigo em que os homens estavam uma granada que fez abater o tecto e o soldado ficou com a cabeça esmigalhada e os outros, feridos. (…) Aquele pobre soldado que estava abrigado à retaguarda morre esmagado por um desabamento! C'est la guerre!".

    António Gonçalves Curado nasceu em Vila Nova da Barquinha, distrito de Santarém, em 29 de setembro de 1894, filho de José Gomes Curado e de Maria Clara. À data dos acontecimentos, o parente vivo mais próximo era a sua mãe que residia em Carvalhais de Lavos, Figueira da Foz.

    Seria, também, na Figueira da Foz que faria a sua recruta, como soldado de Infantaria, integrando o Batalhão de Infantaria n.º 28 desse Regimento, cabendo a António Curado o n.º 234 como soldado da 4.ª Companhia.

    Depois da sua morte e quando se tratou da trasladação dos restos mortais houve grande polémica entre a Figueira da Foz, terra onde se fez soldado e vivia a sua mãe, e Vila Nova da Barquinha, terra da sua naturalidade. Os seus restos mortais seriam trasladados do cemitério português de Richebourg, depois de ter sido sepultado, primeiramente, no cemitério inglês de Laventie, para a sua terra natal por intermédio da extinta comissão dos Padrões da Grande Guerra, no dia 18 de agosto de 1929.

    Aquela controvérsia teve repercussões no fim da década de 1920, na imprensa regional (A "Voz dos Combatentes" e "Gazeta de Coimbra") e até nacional ("Diário de Notícias"). Entre os argumentos enunciados a favor da Figueira da Foz, lêem-se no "DN" os seguintes: "A mãe e os irmãos do soldado Antonio Gonçalves Curado, são de aqui naturais e residentes; e é para a Figueira da Foz que reclamam os restos mortais de seu filho e irmão; o pai do primeiro soldado português morto em França, era natural e foi residente em Carvalhais de Lavos, do concelho da Figueira da Foz onde morreu; (…) É na Figueira da Foz que está o regimento a que pertencia e pertence inquestionavelmente, o primeiro soldado português morto na Grande Guerra; e portanto é nesta cidade que há direitos adquiridos sôbre a posse dos restos mortais de António Gonçalves Curado".

    O resultado acabaria por ser a edificação de dois monumentos em sua memória nas duas localidades: na Figueira da Foz, a colónia francesa em Portugal já tinha tomado a iniciativa de o homenagear, por isso foi à sua custa que se erigiu um pequeno monumento em sua memória, que foi inaugurado no dia 3 de abril de 1932, na praça Luís de Camões, próximo do monumento aos Combatentes Mortos na I Grande Guerra; em Vila Nova da Barquinha, o Monumento aos Mortos da Grande Guerra, seria inaugurado no dia 11 de abril de 1937, prestando esse concelho homenagem aos seus mortos na Guerra de 1914-1918, colocando na base do referido monumento os restos mortais de António Gonçalves Curado, 1.º soldado do C. E. P. falecido em combate e natural daquela freguesia.

    O jornal a Gazeta de Coimbra, n.° 2375 de 3-8-1929, num artigo intitulado "O Primeiro Morto", assinado por J. Arnaut Pombeiro, escreve, a este propósito, o seguinte:

    "As charnecas do concelho da Barquinha, desde esta linda vila ribatejana até Tancos e Praia, foram ocupadas em 1916 por uma populosa cidade de muitos milhares de bravos "serranos", pitorescamente denominada "Paulôna".

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    Eram os homens que vinham de todo o país aprender a ciencia e a arte da guerra, afim de partir em defesa da Pátria.

    Todos quantos partiram para a Grande Guerra levaram gratas recordações da Barquinha e das suas freguezias de Tancos e Praia, onde deram os primeiros passos na dura arte, que iam praticar, aprendendo a honrar a Pátria, como o fizeram sempre os Portugueses de todos os tempos. A Barquinha ficou pois, gravada no coração de todos os combatentes.

    Mas foi maior o seu concurso, foi mais alem o seu papel, no momento histórico que então atravessavamos.

    Á aprendisagem méramente técnica que lhes ministrara em terras de Portugal, quiz a Barquinha juntar um lampejo de sentimento vivo e chocante, no primeiro momento de combate.

    Quiz-lhes ensinar também como se morria pela Pátria, quiz abrir o caminho glorioso da Eternidade, a rota luminosa a percorrer por quantos bem merecessem da Pátria.

    E ofereceu um filho seu, um filho querido e amantíssimo, à primeira bala inimiga.

    E desde então, desde a morte gloriosa dêsse Heroi que nem teve tempo de experimentar a volúpia do combate que desejara ardentemente, - desde êsse momento, o povo da Barquinha tudo tem feito para conseguir reaver o seu Filho. Finalmente, a patriótica Comissão dos Padrões da Grande Guerra ouviu os clamores daquele povo suplicante, e levou a efeito a sua trasladação.

    No dia 18 do corrente mês, regressará à Barquinha, ao seu lar - ao lar dos conterrâneos - o Heroi que vai repousar no Largo dos Combatentes, na bâse do monumento que lhe é dedicado, regressando assim de novo ao convívio de quantos o conheceram antes da sua entrada nos portais da História.

    Ele ficará sendo, êsse tumulo colocado numa praça pública, a expressão máxima sempre patente e visível do sentimento requintado dum povo que vive e que quer viver.

    Pois, que simbolo mais eloquente e impressionante pode escolher uma nação, que o exemplo dum seu Filho, mixto de mártir e de herói, que ao primeiro vôo da sua exaltação patriótica, ao esboçar o primeiro sonho de glória, cai varado pela primeira bala inimiga, - dando aos seus camaradas o exemplo culminante do sacrifício estoico sem compensações, o dum soldado que morre fulminado, primeiro que ninguém ao soar pela primeira vez no campo de batalha, o toque incendiário do clarim que lhe gritava: "Fogo!"?

    A Barquinha, guardando avaramente adentro dos seus muros os restos mortais do soldado Antonio Gonçalves Curado, fica sendo mais um lugar sagrado das peregrinações patrióticas - o tumulo do Soldado Conhecido, o eleito pela Providencia para marchar na frente de quantos heróis morreram pela Pátria."

    Os restos mortais de António Curado seriam trasladadom do cemitério português de Richebourg para a sua terra natal por intermédio da extinta comissão dos Padrões da Grande Guerra, no dia 18 de agosto de 1929. Era soldado n.º 234, da 4.ª Companhia do Regimento de Infantaria n.º 28.

    O Monumento aos Mortos da Grande Guerra da Barquinha foi inaugurado no dia 11 de abril de 1937. Na base do monumento repousam os restos de António Gonçalves Curado, 1.º soldado do C. E. P. falecido em combate e natural da freguesia da Barquinha.

    Por: Manuel Augusto Dias

     

     

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