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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 30-11-2006

    SECÇÃO: Crónicas


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    Presente oportuno

    Levantou-se ainda as trevas enlaçavam a noite, os galos guardavam seus cantos madrugadores no aconchego das capoeiras, toda a gente ainda dormia e só os cães denunciavam a passagem do carro de vacas caminho a baixo rumo aos moinhos. Bem que o Expedito afrouxara as treitouras do carro para que não "cantasse", mas nada podia fazer para evitar o atrito natural da ferragem das rodas no chão de terra e pedras. O silêncio da antemanhã, brevemente quebrado, de imediato era reposto e os sonos interrompidos logo volviam à tranquilidade anterior.

    Era domingo. O Expedito, como bom cristão, pensava assistir à celebração da Missa que teria lugar bem cedo. O pároco avisara que seria a primeira, das três que devia rezar nas aldeias à sua responsabilidade pastoral. Por isso o Expedito fora tão madrugador. Não tinha relógio, mas a sabedoria tradicional de homem do campo permitia-lhe calcular o tempo necessário para a deslocação ao moinho, o trabalho que aí devia fazer e o retorno um pouco antes de o sacerdote se anunciar com uma sequência linear de badaladas no sino menor.

    O tempo estava frio mas, durante toda a semana, não chovera. Aliás, às primeiras borrascas de Outono sucederam-se dias propícios ao trabalho das sementeiras e urgia aproveitar a oportunidade antes que surgissem dias de chuva, geadas ou mesmo nevões. A moenda do cereal não era trabalho de empecer a rotina do camponês. Levava-se ao moinho e só de quando em quando era necessário ir até lá ver se tudo estava em ordem e reforçar a quantidade de grão a colocar na tremonha.

    De véspera acomodara em sacos algumas dezenas de alqueires de centeio e empilhara-os criteriosamente no carro, a pensar na inclinação e na irregularidade do caminho que, em alguns sítios, era bastante acidentado. Apertara as caniças de molde a evitar que, num solavanco mais forte, cedessem à pressão da carga. Nessa manhã jungiu as vacas, apô-las ao carro, escarranchou-se à frente no que poderia chamar-se a boleia, a curta distância do traseiro dos animais, que podia tocar com as mãos, e dispôs a aguilhada debaixo das pernas por se tornar dispensável. Uma palmada em cada uma e o grito de "ei, Estrela! ei, Cereja! bastariam para que obedecessem ao incentivo do dono.

    Ilustração RUI LAIGINHA
    Ilustração RUI LAIGINHA
    Já na deriva do caminho em direcção ao rio, o Expedito julgou mais prudente descer da cómoda posição em que seguia. Acendeu o lampião que trouxera e pôs-se à frente das vacas, de aguilhada em punho, caminhando às arrecuas em lugares mais difíceis, e até puxando um dos chifres do animal que parecia desviar-se do rumo, à procura do equilíbrio necessário. Homem do campo, sabia adaptar-se com naturalidade às circunstâncias e, fosse de noite ou de dia, usava as técnicas apropriadas.

    Quando chegou ao moinho do meio – eram três a funcionar – uma ténue claridade projectava-se nos altos do outro lado do rio e a escuridão cedia pouco a pouco, permitindo que os seus olhos distinguissem já os contornos da casa. Arroussou o carro deixando-o de traseira para a porta de modo a descarregá-lo facilmente. Um a um, os sacos foram transportados para dentro e arrumados como convinha. O nosso homem fez uma primeira inspecção a todo o dispositivo de moagem para evitar surpresas inoportunas, mas tinha quase a certeza de que estava a funcionar bem, caso contrário os lavradores que o haviam precedido tê-lo-iam alertado quanto a possíveis anomalias. A questão era que, tratando-se de um sistema tão complexo com mais de uma centena de peças, nada mais natural que alguma delas não estivesse nas melhores condições. Tudo parecia normal.

    Pegou na enxada e foi cobrar a água para o moinho. De pronto, o rodízio começou a girar. E foi no instante em que decidia voltar ao interior da casa que reparou num saco de serapilheira preso aos liames da margem. Mais um pouco e o saco ter-se-ia desprendido, enrodilhando-se no rodízio. Conseguiu alcançá-lo com a enxada e trazê-lo até si. Ao abrir, verificou que continha seis cachorrinhos recém-nascidos. Provavelmente viria da aldeia a montante, alguém desta maneira se desfez de uma ninhada que não podia manter. Infelizmente, os bichos pareciam mortos, porém, ao tocá-los, teve a sensação de que um deles ainda dava sinais de vida. Pegou nele com ternura e aconchegou-o ao peito. Despiu a jaqueta que conservava o calor do seu corpo, fez uma espécie de ninho e ali depositou aquele valente enquanto fazia uma cova para enterrar os seus irmãos.

    Voltou a entrar no moinho, despejou parte do conteúdo de um saco na tremonha, aguardou uns momentos até verificar que não havia problemas, fechou a porta e subiu ao carro, sempre aconchegando o animal ao seu corpo. As vacas puseram-se em movimento, agora sem carga, na pequena claridade do amanhecer. À Junça, a menos de um quilómetro da povoação, o Expedito ouviu o primeiro toque para a Missa naquele tom familiar, ao mesmo tempo alegre e imperativo, e teve a certeza de que chegaria a horas. O sacristão dava tempo bastante para o regresso dos que andavam por lá, ao ritmo dos quadrúpedes, antes de a celebração ter início.

    Desprendeu o carro, soltou as vacas e depositou uma canastra de feno na manjedoura antes de entrar em casa, sempre com o cachorrinho encostado a si. Foi nessa ocasião que os sinos enviaram o segundo aviso. A mulher, curiosa, quis saber o que estava acontecendo e o Expedito contou a história e pediu-lhe que arranjasse forma de alimentar o animal e o acomodasse enquanto assistiam à Missa.

    – É o presente de anos que vamos dar à nossa filha. Temos que o tratar muito bem a ver se se aguenta. Quando o vir, a Helena vai ficar muito contente. Olha, põe-no ao pé da lareira sempre fica mais quente.

    Lavou-se, vestiu a roupa domingueira que a mulher lhe tinha posto na cadeira do quarto e deu um jeito ao cabelo hirsuto. Ao picar ( os aldeões dão esse nome ao último toque antes do início da liturgia dominical) o Expedito, a mulher e a filha de seis anos subiam os degraus da igreja para acompanharem o Santo Sacrifício.

    Por: Nuno Afonso

     

     

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