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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 15-07-2006

    SECÇÃO: Crónicas


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    Noite mágica

    Ainda que o solstício de Junho tenha passado, a véspera do dia 24 de Junho (noitada de S. João) é uma noite mágica. Mesmo com o tempo a mudar – onde param as orvalhadas?! – o culto do Sol continua a ser praticado.

    Se Ra (deus do Sol) complementava a trindade de Osíris, Ísis e Hórus, hoje, o culto solar, no dia de noite mais curta, volta a ter um cunho místico.

    Será devido aos frequentes cataclismos? Ou a consciência humana responsabiliza o Astro-Rei, fonte da vida terrestre, pelas transformações geológicas?

    Os monumentos megalíticos estiveram sempre orientados pelo Sol (Incas, Maias ou Egípcios), e passaram a ter, agora, novas multidões de adoradores. Enquanto a comunicação social mostrou muita gente a assistir ao alinhamento dos raios solares em Stonehenje, por cá, exibiu as festividades Celtas (?) em Vila Nova de Foz Côa, onde se celebrou o solstício! O sacrifício dos animais era escuso, pois foi graças ao Sol que viveram. Imolar animais é perverso.

    O nascer e por do sol, na véspera de S. João ou de S. Pedro, são momentos transcendentes para os agricultores e, mais ainda, para os pastores. Serão também para os pescadores? As nossas tradições do mar pouco informam. Apenas S. Pedro de pescador do lago Tiberíades passou a pescador de almas!?

    Numa aldeia transmontana, o aproximar do solstício levava o Ricoquinha a apascentar as ovelhas depois do anoitecer, e pela madrugada, por “aganarem” com o calor, mesmo de lã tosquiada; regressava ao redil, noite escura, com o rebanho, em marcha luminosa de pirilampos no pêlo dos animais. Apanhar pirilampos para enfeitar as ovelhas, era deslumbrar os basbaques da aldeia, em especial os garotos!

    A aurora nesses dias era mágica. Se aos primeiros raios solares apanhavam os animais a banharem-se na água da fonte da Tenaria, era mal vai-te daqui, ficavam benzidos e livres de moléstias.

    A noitada do S. João é o máximo no Porto. Há comemorações famosas, desde Braga a Vila do Conde, mas como a da cidade Invicta não há! A fascinação é perturbante. Será o começar do Verão, junto a um rio Douro (de oiro)?

    Se no dia a dia de todas as pressas, e stress, é um prazer dizer-se à sexta-feira: “Bom fim de semana”; é também com alegria que ouvimos e desejamos:

    – Bom S. João!

    Na saudação, os mais velhos pensam nos alhos-porros, ramos de cidreira e manjericos; os jovens visionam correrias, bebidas frescas e marteladas ao povo que mexe ou se devia mexer. As conversas, entre amigos encontrados nas ruas da Baixa, foram chão que deu uvas: “é andar, é correr”. A ida às Fontainhas é fácil e o chegar à Ribeira não tarda; Gaia e Miragaia merecem o esforço da caminhada!

    O meu primeiro S. João do Porto (estudante universitário, em exames) foi um deslumbramento! Retenho imagens que ainda conseguiam, com retoques, passarem a filme colorido:

    A multidão das Fontainhas aos Leões, com apertos no passeio das Cardosas, de alhos porros, caninhas felpudas e os ramos de cidreira no ar; a confraternização lembrava exércitos antigos em camaradagem, após decretada a Paz. (era o tempo das leituras dos romances históricos de Walter Scott e do nosso Arnaldo Gama!); os corrupios terminavam com a ida ao pão quente com manteiga, nas padarias a abrirem as portas!

    Para a Grande Noite, pedi nas pastelarias do Marquês e Paranhos, e ainda não consegui comprar, o bolo de S. João “ressuscitado” pelo historiador Hélder Pacheco. Irei, com uma fatia e um cálice de vinho do Porto, festejar o S. João!

    * Director do Colégio Vieira de Castro – gcm@mail.telepc.pt

    Por: Gil Monteiro

     

     

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