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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 30-05-2006

    SECÇÃO: Cultura


    Entre Terras de Asmes e S. Vicente de Queimadela, com a ÁGORArte

    Jacinto Soares falou sobre Ermesinde, Alfena e da História que as une

    Quem participou há dias no 5º passeio pedestre de Ermesinde, e ainda não conhecia o Parque de São Lázaro, um dos mais recentes locais de lazer da Vila de Alfena, outrora S. Vicente de Queimadela, não escondeu a sua surpresa ao encontrar tão aprazível local. Esta caminhada, que a ÁGORArte voltou a organizar, foi acompanhada por Jacinto Soares, profundo conhecedor da História e da etnografia do concelho de Valongo, que uma vez mais se dispôs a transmitir os seus conhecimentos sobre a região, às pessoas que integraram um numeroso grupo.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    “Das Terras de Asmes (Ermesinde) a Terras de S. Vicente (Alfena)” foi o mote para esta caminhada, por verdejantes zonas agrícolas que ainda vão resistindo à crescente expansão da paisagem urbana.

    Partindo, como é habitual, do Fórum Cultural de Ermesinde, os caminhantes começaram por se dirigir, pela chamada “quelha do cemitério” (actual Travessa Cinco de Outubro), à zona do Passal que pertenceu à Igreja e onde, em tempos não muito distantes, funcionou a Junta de Freguesia de Ermesinde, numa casa de sóbria traça, actualmente, sem serventia. Dali vislumbra-se ainda o Colégio de Santa Joana que continua, desde a década de quarenta, do século passado, a exercer a sua prestimosa acção social e educativa no mesmo edifício que pertenceu à família Sá da Bandeira e que, a exemplo de numerosas famílias da burguesia, se instalou em Ermesinde, considerada à época como a Sintra do Norte e onde existia um rico património arquitectónico que, aos poucos, foi lamentavelmente desaparecendo. Isso mesmo recordou Jacinto Soares que umas dezenas de metros mais adiante, e já no lugar do Calvário, chamou a atenção para a existência de um campo de cultivo que em tempos foi parque de jogos de basquetebol e andebol. Era o antigo Campo do Calvário no qual o CPN (antigo GPN – Grupo de Propaganda de Natação) realizava os seus jogos. Um pouco mais abaixo, o Rio Leça servia de piscina natural aos atletas desta colectividade.

    QUEM ERAM

    OS LINHAÇAS?

    foto
    Atravessada a passagem pedonal sobre o tão decantado, como poluído Leça, e após uma pausa frente à Escola da Bela, que deve a sua criação a Alberto Dias Taborda e ao apoio da família Oliveira Pinto, os caminheiros ouviram Jacinto Soares falar dos “Linhaças”, nome por que era conhecido o corpo de bombeiros que se instalou no antigo morro da Bela para socorrer uma conhecida e conflituosa família que por volta de 1918 foi afectada pela peste bubónica, temível epidemia que grassava sobretudo nas zonas onde não havia condições higiénicas mínimas. Conta-se que os bombeiros faziam esses tratamentos recorrendo à tintura de iodo e às papas de linhaça. Daí, a alcunha atribuída.

    Mas os tempos são outros. A Bela é hoje uma zona urbana com características modernas e muito atractivas e ainda com algumas zonas verdes remanescentes dos extensos pinheirais que ali existiram e onde, por volta dos anos 40 e 50, abundavam os poços negros, assim chamados devido ao carvão armazenado em cubatas com armações de lenha e caruma, como realçou Jacinto Soares.

    Era o conhecido carvão de choça que depois de transportado para a Feira do Carvão situada na Rua das Liceiras, no Porto, ali era vendido. Curiosamente o nome Liceiras, como fez questão de sublinhar Jacinto Soares, é uma corruptela de leceiras (palavra originária de Leça) e não do liço (derivação de linho) como defendem alguns investigadores.

    “PATRIOTAS

    DE VILAR”

    Segundo Jacinto Soares, a Bela pertencia à faixa carbónica que se estendia de Castelo de Paiva até à Póvoa de Varzim, passando pelo Pejão, S. Pedro da Cova, Alto da Serra de Valongo, no antigo lugar da Ribeira, onde existiam duas minas de carvão e seguia por Folgosa. Nesta faixa carbónica abriram-se durante muitos anos, e a partir do século XIX, poços para prospecção de carvão. Um deles, que permaneceu aberto, situava-se no monte da Bela e por isso ficaria a chamar-se Poço da Bela.

    Essas aberturas eram popularmente conhecidas por poços negros e foi para perpetuar a ligação do povo à história, que Jacinto Soares, num período em que foi vereador da Câmara de Valongo, propôs o topónimo Poço Negro para a rua ali existente.

    Mas onde se explorava mais carvão, como recordou aquele estudioso, era no lugar da Ribeira (Formiga) e em Baguim. Tratava-se afinal de um carvão pobre que depois de misturado com água e seco nas eiras, dava lugar a um bolo vulgarmente conhecido por sarrisca, muito usado nos fogões de barro utilizados pelos lavradores quando cozinhavam aos domingos!

    Curiosa é também a ligação ao teatro das populações da Bela como relatou Jacinto Soares, ao lembrar que ali existiu, entre os anos 40 e 50, uma das maiores associações de teatro que realizava as suas actuações num recinto ao ar livre. Foi tempo dos “Patriotas de Vilar”, que aqui se evocam.

    VESTÍGIOS

    MEDIEVAIS

    Já próximo de Alfena, e a propósito da Rua de Monforte, Jacinto Soares não deixou em claro a referência a este topónimo, cuja etimologia vem de Monte Forte e que tem a ver com reminiscências medievais dos lugares fortificados.

    Centenas de metros adiante, a Quinta das Telheiras, no lugar com o mesmo nome, data da segunda metade do século XVIII. Esta propriedade impõe-se pelo seu portal granítico e pelo brasão, muito bem conservado, que ostenta na arcada. No seu interior, existe uma capela da Senhora da Piedade com talha barroca de 1740 e a moradia é conhecida como a Casa da Quinta das Telheiras.

    Finalmente, no aprazível Parque de Lazer de S. Lázaro, onde se integra o Núcleo Histórico Central de Alfena, Jacinto Soares foi enumerando os elementos que constituem este núcleo, do qual sobressai uma ponte românica, classificada em 1967, como monumento concelhio. Esta travessia, então conhecida como a ponte de Pina, fazia na Idade Média a ligação entre Porto e Guimarães, e foi reconstruída nos anos 80 por um grupo de técnicos estrangeiros que lhe recolocaram as guardas.

    Os monógrafos de Alfena, como explicou Jacinto Soares, referem que neste local existiam duas capelas; uma situada à entrada da ponte do lado que procede do Porto, era a capela da ponte ou da Senhora dos Remédios e uma outra, à saída. A primeira já desapareceu e a segunda, situada na parte Norte da ponte ainda lá se encontra, apesar de algumas transformações. É a capela de S. Lázaro, datada de 1623, vestígio mais visível da antiga gafaria de Alfena.

    Segundo alguns estudiosos, incluindo o professor Jacinto Soares, Alfena terá origem em duas interpretações, mas a mais credível, é a que associa o topónimo ao nome de um arbusto de onde se extraía uma planta tintureira. Outros, ainda, defendem que Alfena tem origem no nome de uma batalha (alfella, em árabe), mas a primeira – sabe-se hoje – parece ser a mais exacta, sustenta aquele docente.

    OSTENTAÇÃO

    E PODER

    Conhecida na Idade Média por S. Vicente de Queimadela, só depois desse período passou a designar-se por Alfena. O documento mais antigo, que se conhece data de 1214, pertence ao Arquivo Distrital de Braga e nele, D. Stefanina (Esteuaínha) fala dos “Leprosis de Alfena et le Leprosis Portugali”. De facto, neste local de peregrinação a S. Lázaro, cujo culto esteve sempre associado àqueles doentes, existiu uma gafaria (hospital para leprosos) e por isso Alfena beneficiava de privilégios concedidos pelo rei, razão pela qual Alfena era escolhida pelas populações para ali viverem e construírem as suas casas devido à isenção do pagamento de tributos ao rei.

    Deste núcleo histórico, e para além da capela de S. Lázaro, e da ponte românica restam ainda as ruínas de um moinho que infelizmente foi alterado. Este moinho, de estrutura granítica tinha uma eira em ardósia, a chamada pedra da taleiga onde o milho era depositado para secagem.

    Os lavradores desta como de outras regiões, faziam questão de possuir grandes eiras e lagares de uma só pedra, que simbolizavam ostentação e poder. Também a antiguidade do “santuairo” ou santuário (oratório) era um sinal de perenidade da família.

    Mas o património cultural deste lugar não se resume só à ponte, nem ao moinho, nem à capela, que por sinal está muito bem conservada. Era muito mais vasto. Era tudo o que estava à sua volta. Era tudo o que lamentavelmente foi desaparecendo na voragem dos tempos. Ali existiram casas muito antigas, de almocreves e provavelmente algumas estalagens. Hoje apenas subsistem paredes. Não devia ter sido permitido o derrube dessas casas. Considera-se no entanto, globalmente, meritório o trabalho desenvolvido na recuperação deste parque que há uns anos atrás servia de estaleiro e está agora transformado num lugar muito aprazível e bem aproveitado, num ponto de encontro entre os rios Leça e Junqueira, seu afluente.

    Por estes sítios existiu também a chamada Quinta da D. Helena que ficou ligada à história do concelho. Segundo Jacinto Soares, ali funcionou a Câmara, em 1838, ou seja, dois anos após a elevação de Valongo a concelho. Isto, porque, a dada altura, os vereadores travaram-se de razões e deixaram de reunir em Valongo por razões de segurança. Sentindo-se ameaçados e com medo de represálias passaram temporariamente a reunir naquela quinta, da qual já nem vestígios existem. Curiosamente, nessa época, tanto Alfena como Ermesinde pertenciam ao concelho da Maia.

    Aqui ficam algumas pistas para o leitor redescobrir num exercício saudável e actualmente muito recomendado que é caminhar! Aceite o desafio!

    LENDA

    DE S. LOURENÇO

    E S. VICENTE

    Esta lenda, dada à estampa por Humberto Beça na monografia sobre Ermesinde, confirma S. Lourenço como o padroeiro do primitivo lugar de Asmes. No texto, são bem evidentes os vínculos existentes entre Ermesinde e Alfena. Diz-se que S. Vicente e S. Lourenço eram irmãos mas, na verdade não eram. De resto, Humberto Beça coloca uma interrogação quando se refere ao grau de parentesco dos dois santos.

    Mantendo-nos fiéis à ortografia e ao léxico da época em que foi publicado, aqui se reproduz a dita lenda, tal como foi escrita:

    «S. Lourenço era irmão de S. Vicente (?) aquele orago em Ermezinde, este em Alfena.

    Num dia de grande cheia no Leça os dois santos, já então venerados como taes pelas suas extraordinárias virtudes, dirigiam-se a Alfena sempre seguidos dos seus fieis, anciosos de lhes ouvirem a palavra fluente e divina.

    No logar das Cavadas havia uma pequena ponte, ou sobre o Leça proximo á confluencia com o ribeirito que hoje se chama Asmes ou mesmo sobre este, A ponte era impetuosamente varrida pelas aguas revoltas da cheia que a submergiam a certa profundidade.

    A passagem era difícil e perigosa; o povo temia pela vida dos dois santos, mas S. Vicente não querendo privar as suas ovelhas da sua direcção espiritual ficando do lado de cá, decidiu-se a passar, atravessando assim mesmo a ponte coberta de agua e debaixo de uma impetuosa corrente.

    No momento da despedida, S. Lourenço disse a S. Vicente:

    Vae Vicente para o teu Alfena, que eu cá fico no meu Asmes».

    Por: Álvaro Mendonça

     

     

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