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    Arquivo: Edição de 30-05-2006

    SECÇÃO: Destaque


    Foto URSULA ZANGGER
    Foto URSULA ZANGGER
    ENTRETANTO MTN VALONGO 2006 • 1ª MOSTRA DE TEATRO NACIONAL

    Poucochinho, muito poucochinho de Nelson Rodrigues

    Nelson Rodrigues, o genial dramaturgo brasileiro autor de “O Beijo no Asfalto” ter-se-á inspirado num episódio real para escrever esta peça, recriando os factos de forma a provocatoriamente denunciar o sensacionalismo, compadrio com a polícia e corrupção de certa imprensa (no caso, a brasileira) e a introduzir a questão das relações baseadas em valores de boa aparência ao menos na fachada (na história verídica original, o moribundo beijava uma rapariga, na peça de Nelson Rodrigues, o beijo é entre dois homens).

    Mas há qualquer coisa que falha na produção do Baal 17, pese embora a entrega total dos actores e o que lhes é exigido enquanto carregadores do piano que são os seus próprios corpos.

    A começar, a adaptação da peça ao universo português está feita de uma forma tão desajeitada que torna irreconhecíveis ou inverosímeis as circunstâncias que unem um polícia corrupto a uma jornalista ambiciosa e sem escrúpulos.

    O final – dramático e de telenovela – ameaça na produção do Baal 17, ser transformado em espécie de obra militante de circunstância, quando na obra original do autor, a autenticidade do questionamento era outra – estava-se então em 1961 (há quase 50 anos atrás!).

    Na primeira produção de “O Beijo no Asfalto”, entregue por Nelson Rodrigues à companhia de Fernanda Montenegro, que a protagonizou, o dramaturgo chegava ao ponto de manter no texto da obra o título do jornal “Última Hora”, precisamente o órgão de comunicação onde na altura trabalhava, como jornalista, e donde, por via disso, foi então obrigado a sair.

    Não gostámos, também, de de ver os muito bonitos programas do espectáculo – em formato de jornal tablóide de oito páginas – serem usados para rasgar e espalhar no chão, quando por cá abundam títulos jornalísticos que, pelo que representam, se adequariam muito melhor à função (como “O Crime”, por exemplo, um título a matar precisamente para uma peça como esta). Isto independentemente do número de exemplares produzidos deste “Última Hora” – que é também o título do programa –, viabilizado pelo subsídio do Ministério da Cultura e quiçá excessivo.

    No universo dos jornais, em Portugal, também se percebe mal a preocupação com as vendas por parte do jornalista corrupto, o que se entenderá melhor conhecendo o percurso do dramaturgo, que esteve ligado, com outros familiares, à propriedade de jornais.

    Entretanto, uma palavra de precaução: é que não será fácil fazer teatro em Serpa e muito do que aqui se diga pode ser demasiado injusto para quem, teimosamente, e no "cu de judas", continua a levar a carta a Garcia.

    E louva-se mesmo uma certa ousadia da encenação, atendendo ao meio.

    Os actores, todavia, apesar do seu empenho, revelaram muita insegurança, como se tivessem de carregar em cima dos ombros um texto que lá foram desfiando penosamente. Uma óbvia fragilidade advinda de uma encenação que preferiu manter o registo realista para todo o trabalho de texto, enquanto, relativamente à cenografia, a deixava ostensivamente pobre, mas em que o elemento cenográfico principal em cena – uma cadeira – parecia manifestamente pouco para se enquadrar coerentemente com tudo o resto.

    Por: LC

     

     

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