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    Arquivo: Edição de 30-05-2006

    SECÇÃO: Destaque


    Foto URSULA ZANGGER
    Foto URSULA ZANGGER
    ENTRETANTO MTN VALONGO 2006 • 1ª MOSTRA DE TEATRO NACIONAL

    (Des)encontros no espaço-tempo

    Primeira edição de um certame ao qual é fácil augurar os maiores sucessos, a Mostra de Teatro Nacional que decorreu a passada semana em Campo, na casa do ENTREtanto, oscilou entre o sublime e o nem tanto assim.

    Muito importante foi que trouxesse ao concelho o teatro que se faz aqui e agora, sendo este aqui o lés-a-lés de Portugal, já que incluiu grupos do Norte, Centro e Sul, como o Teatro das Beiras (Covilhã), o Urze-Teatro (Vila Real), o Teatro Art’Imagem (Porto), o Baal 17 (Serpa) e o Jangada Teatro (Lousada).

    Além de dar a conhecer o teatro nacional, o ENTREtanto visa também, com esta mostra, criar um novo pólo de atracção cultural, valorizando o papel do Centro Cultural de Campo, onde está instalado.

    Uma última palavra, nesta introdução, para destacar a peça que abriu a Mostra de Teatro Nacional – a qual desde já, entre outras, nomeamos para “o melhor espectáculo do ano no concelho”.

    Um trabalho dos actores como é raro ver-se, rigorosamente preciso na movimentação e magnífico na arte de esgrimir a palavra, pesada sílaba a sílaba, ora ironizando, ora ameaçando, insinuando, suspirando, enfadando, despachando, etc., etc., etc..

    De facto, cada palavra da peça de Sinisterra foi sujeita a trabalho por esta companha, com a tradução e encenação de Gil Salgueiro Nave a atingir níveis de excelência dificilmente comparáveis.

    A peça, que aparece arquitectada em andares muito diferentes, faz convergir, ou melhor, colidir no mesmo espaço cénico, a comédia em que um medíocre director de segunda ordem de uma pequena associação cultural – o Clube de Divulgação Cultural Amadeu Pimentel (quase chega a ser cruel a semelhança com certas estruturas reais e nossas conhecidas) – com a projecção – noutro espaço e noutro tempo – feita pela cientista que deveria proferir uma conferência no espaço da mui nobre associação cultural.

    Este clube, numa vilória dos Apalaches, de onde há muitos anos partiu a grande cientista, e a cosmopolita e europeia Praga de há umas décadas atrás, metem-se uma por dentro da outra fazendo as duas histórias cruzar-se num absurdo que torna a peça mais complexa e exigente, tornando-a menos acessível a certos públicos.

    O jargão, rigorosamente científico, que faz a sua aparição na peça, dá-nos um cheirinho da relatividade de Albert Einstein e da mecânica quântica de Max Planck, lado a lado com as pulsões extra-conjugais, a baixa política e a intriga como formas experimentadas de alcançar o poder, o orgulho parolo na produção (?) de ovos, e outros devaneios e derivas que tais, constituindo tudo isto umas esquisite “delicatessen”.

    No cenário, uma chapa prateada encurvada, sugerindo a curvatura do espaço-tempo, marca muito bem toda a atmosfera da peça, em que os jogos de luzes contrapõem épocas e lugares.

    O desempenho de todos os actores é excelente, mas pelo papel mais exigente que desempenham, é necessário distinguir a representação excepcional quer de Miguel Telmo (Segundo Vice-Secretário), quer de Eva Fernandes (Doutora Greñuela).

    É uma delícia ver nascer as personagens que interpretam, como fantasmagorias reais, apoiadas num trabalho de encenação que, como já dissemos, é de um rigor notável, capaz de tornar esta amostra de teatro pobre no espectáculo mais conseguido do mundo.

    Um texto como este, de Sinisterra, bem merecia ter caído, como caiu, nas mãos de quem o soubesse ler.

    Por: LC

     

     

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