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    Arquivo: Edição de 15-05-2006

    SECÇÃO: Crónicas


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    O chapéu

    Longe estava, ao entrar no restaurante Lareira, na Rua de Costa Cabral às Antas, ouvir do Sr. Domingos:

    – Merece uma chapelada!

    Fiquei perplexo, e tive a justificação:

    – Li a crónica sobre as andorinhas! Senti tanto prazer de recordar a idade de “ir aos ninhos” que tinha de o felicitar – “chapéus há muitos” pensei. – Naquele tempo era assim!

    – O que teria levado ao seu desuso? – Perguntei ao Zeferino, sempre de resposta pronta:

    – Pondo de fora a evolução dos genes, mais ou menos protectores do couro cabeludo, foi a moda!, perderam o prazo de validade, como as cabeleiras postiças do tempo do Marquês de Pombal!

    Quando menino via-se toda a gente de cabeça protegida, fosse Verão ou Inverno. Mesmo o fato da criança tinha de ter um barrete para esconder as melenas!

    Lembro as saudações das pessoas que passavam na rua, junto das escadas graníticas da minha casa, tirarem o chapéu e dizerem: “Bom dia, boa tarde”. Os mais apressados faziam apenas o gesto de descobrir a cabeça. Mas, se passavam ao pé do sr. Prior, professor Antunes, sr. Ferreira ou D. Mariquinhas do Alferes, desbarretavam-se e, em voz alta, proferiam: “Vossa Excelência passou bem?!” A resposta era sempre: “Passei bem, obrigado, e tu?!”

    Ninguém entrava na casa mais modesta de aldeia duriense que não descobrisse a cabeça. Alguns moradores, ao verem as mãos pregadas nas abas do boné, enquanto o rolava, pediam: “Ó João, cobre a cabeça, aqui não há Santos”!

    Cenas dignas de serem vistas, em tons sépia em DVD, nos momentos livres da TV e da Net :

    A despedida do Senhor Prior, dando a bênção, após o Compasso Pascal, junto do cruzeiro de Roalde, antes de dar o Senhor a beijar aos paroquianos da Queda dos Moinhos: o povo ajoelhava, na estrumeira seca da rua, tirava o chapéu e persignava--se!, enquanto o Sol do Domingo de Páscoa se ia escondendo no monte da Eirinha.

    Às romarias iam ranchos de outras terras. No regresso faziam arruada. As imagens da santa venerada, entaladas nas fitas dos chapéus, os paus ou aguilhadas no ar, marcavam o compasso da música. As pagelas acompanhavam o baloiçar das cabeças!

    Os bonés de pala começaram a ser usados por alguns lavradores durienses. A antiga Rua de Santo António, no Porto (31 de Janeiro), era o local privilegiado das aquisições. Ainda há poucos anos o Manuel Russo ia lá comprá-los. No Alentejo faziam parte da indumentária dos donos dos montes e, mais tarde, passaram a cobrir as cabeças dos rurais, incluindo mulheres.

    Durante a traulitada ou traulitânia (Monarquia do Norte, com sede na cidade do Porto), os equipamentos dos soldados eram de vários modelos e feitios. Para distinguir a tropa fandanga, foi adoptado o uso da boina basca, conhecida por trauliteira. Mal se pensaria que, com a guerra de África, passaria a ser símbolo de soldado de elite e farda de gala.

    E os chapéus de palha?

    Era sagrado: a feira de Santo António (Vila Real) abastecia a província de protecções para a insolação. Os palhinhas de todos os feitios e tamanhos passavam a cobrir as cabeças dos transmontanos. Mas, nunca soube por que razão os das mulheres tinham abas maiores e fitinhas como os das crianças!

    Acabado o Verão, os cabelos voltavam a ser livres!

    * (Director do Colégio Vieira de Castro) – gcm@mail.telepac.pt.

    Por: Gil Monteiro

     

     

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