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    Arquivo: Edição de 15-03-2006

    SECÇÃO: Destaque


    Fotos URSULA ZANGGER
    Fotos URSULA ZANGGER
    (FOI) DIA INTERNACIONAL DA MULHER

    Sofia Coelho: A luta desigual das mulheres - o testemunho de uma desportista

    Sofia Coelho, basquetebolista internacional do CPN e mãe de uma menina com ano e meio, está prestes, no próximo mês de Julho, a defender a sua tese de mestrado em Gestão. A sua vida preenchida não a impede de aceitar outros desafios – fomos encontrá-la, no Pavilhão do CPN a dar formação, em minibasket, a um grupo de crianças do Centro Social de Ermesinde. Mas se, na sua vida, tem conseguido não apenas no plano desportivo, uma carreira de sucesso, tem plena consciência de que a luta é desigual para as mulheres. Ela própria já se sentiu indignada enquanto objecto dessa discriminação que se insinua em todos os aspectos da vida.

    Determinada, apaixonada pelo basquetebol, que a marcou, desde a adolescência, para toda a vida, Sofia Coelho fala com desenvoltura. Percebe-se que sabe o que quer, e que está disposta a arriscar grandes mudanças, na defesa daquilo que, para ela, for essencial – como por exemplo, agora, poder estar o mais tempo possível com a sua filha.

    Proveniente de uma família sem muita prática desportiva, acompanha o irmão na prática da natação, mas alta como era, inicia-se é no basquetebol, com 14 anos, na equipa de cadetes do Académico do Porto (o irmão ainda jogou, mas futebol) .

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    O ESTÁGIO DE UMA VIDA

    É ainda muito jovem que irá sofrer uma grata e muito importante experiência de formação humana e desportiva, que a marcará para toda a vida, a ela e às suas companheiras. É que ela é uma das cerca de 30 a 40 miúdas que iniciaram o estágio de pré-selecção em Rio Maior, aquando do Europeu de Basquetebol que então se realizou em Portugal. Dessas, 13 meninas irão estar um ano em formação intensa, das quais apenas uma delas, por motivos físicos, não irá finalmente à Selecção. Como país organizador, Portugal tinha presença garantida, mas tornava-se necessário e urgente formar uma equipa minimamente condigna.

    Um ano intenso de preparação, com os estudos e o desporto lado a lado, numa experiência inédita, que há-de levar longe muitas destas meninas. Uma destas 12, por exemplo, era Ticha Penicheiro, a famosa basquetebolista nascida na Figueira da Foz e que se tornou o ano passado ainda mais famosa ao ser campeã da WNBA – o mais importante campeonato profissional do Mundo. Desse intenso ano ficou entre todas uma eterna amizade.

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    A CARREIRA ACADÉMICA

    Sofia rapidamente se integra nas séniores e prossegue a sua carreira. Vai para a Madeira, mas sente muito as dificuldades de conciliar a vida escolar e desportiva. Ir para os Estados Unidos é uma solução óbvia. Aí não se encontram – relata Sofia – todas aquelas barreiras a quem quer praticar desporto. Tudo se facilita e a prática desportiva não é olhada com desdém (antes pelo contrário). Como em Portugal, pelo menos até há poucos anos, em que um universitário que tivesse uma carreira desportiva não era propriamente muito bem aceite, e não era fácil encontrar soluções para conciliar as duas coisas.

    Assim foi-lhe possível avançar no seu curso de Gestão, em que prepara agora uma tese sobre Marketing Desportivo. Mas profissionalmente “tem” que se afastar do basquetebol, pois senão lá irá começar a envolver-se demasiado e a fazer as coisas por pura carolice... diz meio a brincar e meio a sério.

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    O PAPEL DE FORMADORA

    Acabada de dar uma aula de formação de minibasket a meninos do Centro Social de Ermesinde, sente que isso é, para si, também uma experiência muito gratificante. A primeira experiência de formação com crianças teve-a já em 1999/2000 em Rio Maior. Considera que isso lhe traz uma responsabilidade acrescida enquanto jogadora, porque deve ser exemplar para os seus formandos. Procura que aprendam pelo gosto, que sintam o prazer de jogar, sem haver aquela pressão dos resultados. Preocupada com a melhor maneira de o realizar, começou a ler livros de pedagogia, e formou-se assim também mais a ela própria, cuja formação académica não era na área do Desporto.

    Mãe de uma menina, agora com ano e meio, preferiu não a colocar num infantário para poder estar mais tempo consigo nesta fase tão importante da vida da sua filha. Quando não está com ela, a menina fica com os avós ou os tios, mas Sofia Coelho passa muitas das suas tardes com a sua filhota.

    Divide muitas das suas tarefas com o marido, o que torna um pouco mais fácil a sua vida tão preenchida.

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    UM FORTE COLECTIVO

    Depois do seu parto, e conforme o aconselhado pelos médicos, esteve ainda três meses antes de voltar à competição. Agora com 31 anos e mãe, sente das suas colegas de equipa mais jovens, não apenas a cordialidade de quem pertence ao mesmo colectivo, mas também um certo respeito por quem fez o percurso que ela fez.

    Sente-se muito bem no CPN. E só esta ligação forte entre todas as jogadoras da equipa é que pode compensar o facto de esta ser, na Liga Feminina, a única equipa a ter apenas uma estrangeira no plantel.

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    PRESSÃO DISCRIMINATÓRIA

    Mas sente muita injustiça pelo facto de a Liga Feminina ser praticamente ignorada pela televisão e a imprensa desportiva, isto apesar de ser um meio que já se mostrou capaz de produzir grandes atletas (o caso da Ticha é o mais evidente).

    Os jogos da Liga Feminina nunca passam na televisão, por exemplo. E recorda uma entrevista de emprego – relacionava-se com marketing desportivo e, por isso, interessava-lhe muito – em que se sentiu indignada e devassada na sua vida privada, pelo entrevistador insistir em pormenores na forma como tencionava ou não cuidar da sua filha, quando a forma como geria a sua vida pessoal deveria ser totalmente alheia às exigências dessa experiência profissional.

    Sente muito essa pressão discriminatória sobre as mulheres e, embora não se interesse muito por política, não lhe passaram ao lado estas discussões mais recentes sobre a paridade nos partidos.

    E está decidida a não deixar passar essa intimidação que muitas vezes sente por parte do mundo masculino.

    Por: LC

     

     

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