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    Arquivo: Edição de 15-02-2006

    SECÇÃO: Editorial


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    A nossa liberdade e a liberdade dos outros

    Muito se tem falado de liberdade nos últimos tempos a propósito dos famosos cartoons sobre Maomé publicados num jornal dinamarquês. A liberdade de expressão é um valor inalienável que tem que ser preservado a todo o custo, mas esta liberdade é uma arma que deve ser utilizada com prudência e sabedoria e nunca para humilhar um povo.

    Ninguém tem dúvidas de que qualquer pretexto serve de rastilho para atear fogo em tudo que se relacione com o mundo árabe. Na verdade não me parece tão inocente como isso a brincadeira com a cabeça de Maomé.

    A minha liberdade passa pela liberdade dos outros e não entendo que seja necessário brincar com valores religiosos de outros povos, de outras culturas, ou então nada é inocente, como nos querem fazer crer... Há quem ainda considere o velho aforismo “Se queres a paz prepara a guerra”.

    Não me parece que seja esse o caminho, nunca gostei de dividir o mundo entre os maus e os bons, os povos não são apenas as elites do poder, os que decidem em nome dos povos, os que arrastam multidões incontroláveis, os que condenam o ser humano ao obscurantismo, à fome e à miséria, os donos da verdade, seja ela qual for…

    Neste mundo onde a liberdade é entendida ao sabor da maré lembremos um homem livre, no verdadeiro sentido literal da palavra, refiro-me a Agostinho da Silva, esse “cidadão do mundo”, filósofo, humanista, pedagogo.

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    Em determinada altura, afirmava: «Claro que sou cristão; e outras coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua forma brasileira».

    A cultura brasileira é sem dúvida essa mistura, essa tapeçaria única, tecida com as tradições locais a que se juntaram a europeia, africana e outras…

    «Não sou ortodoxo nem heterodoxo; cada um deles só exprime metade da vida, sou do paradoxo que a contém no total».

    Agostinho da Silva nasceu há cem anos, mas é ainda uma fonte por explorar, a leitura da sua escrita deixa-me sempre perplexa e cheia de dúvidas, aliás era essa a sua pedagogia: fazer perguntas, questionar, obrigar a pensar. A sua singularidade estava exactamente aí.

    Não tinha receitas, era um sonhador, um homem de grande cultura, de uma filosofia de vida extremamente simples e simultaneamente complexa, uma vontade enorme de inovar, de criar, incapaz de percorrer rotinas. Quando via que o que tinha imaginado estava feito, partia para outra.

    «Sou marujo, mestre e monge

    marujo de águas paradas

    mas que levam os navios

    às terras por mim sonhadas

    também sou mestre de escola

    em que toda a gente cabe

    se depois de estudar tudo

    sentir bem que nada sabe

    mas nem terra ou mar me prendem

    e para voar mais longe

    dum mosteiro que não houve

    e não haja me fiz monge»

    Agostinho da Silva não era um homem deste tempo, nem de tempo nenhum, ele estará sempre fora, mas sempre para a frente.

    A utopia tem destas coisas…

    Por: Fernanda Lage

     

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