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Edição de 31-12-2020
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    Arquivo: Edição de 30-01-2006

    SECÇÃO: Cultura


    FOTO ARQUIVO CPN
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    CURIOSIDADES DA NOSSA TERRA

    A prancha

    O rio Leça foi, durante anos, a piscina de treino e competição dos ermesindenses, nomeadamente dos jovens. É certo que as inúmeras “presas” que proliferavam por todo o lado e serviam aos lavradores – como grandes reservatórios de água, para a rega do milho –, eram utilizadas como o primeiro local para o início da aprendizagem deste saudável desporto.

    Nesse tempo – estamos a falar até aos princípios da década de sessenta, pois a partir daí a poluição, quase simultaneamente com a diminuição do caudal dessa linha de água, não mais permitiram tal prática – várias eram as praias nas suas margens e os pontos para o realizar.

    Locais bons para o mergulho e para o lazer eram, entre outros, os Moinhos do Panelas, a Praia dos Tesos, a Ponte das Tábuas (que acabou em pedra e hoje está destruída pela acção do homem) e sobretudo os Moinhos do Abade, ou do Carvalhal. Este último lugar era o mais conhecido e frequentado de todos, com o seu grande açude e as suas largas e aprazíveis margens, hoje em grande parte ocupadas e conspurcadas por lixo e ervas daninhas.

    Foi nesta albufeira, onde uma alta muralha de pedra tinha origem e se prolongava, engrossando o caudal do Leça, quase até à Ponte do Panelas, mais a montante, que muitas gerações de ermesindenses aprenderam e desenvolveram a prática da natação.

    Foto MANUEL VALDREZ
    Foto MANUEL VALDREZ
    Aqui, nasceu, pode dizer-se, o CPN – a prestigiosa associação da nossa cidade – em 1941. Foi primitivamente uma delegação do GPN (Grupo de Propaganda da Natação), do Porto, que tantos torneios e competições inter-clubes realizou e donde saíram grandes campeões nacionais da modalidade.

    Várias eram as rodas de granito que, aqui, transformavam o milho na alva farinha que era cedida aos particulares, ou que, como “maquia” (1), era vendida e ia abastecer as inúmeras padarias das redondezas. E quantas vezes os seus donos, «nos Verões mais secos, fechavam as comportas deste grandioso moinho, permitindo a subida do nível da água junto à valada, para deste modo melhorar as condições para a prática de natação», sobretudo quando havia torneios, como recorda um nadador desses primeiros tempos, no livro “CPN – 50 Anos de História”.

    Desta década e para este fim é também a construção de uma placa, em cimento, sobre a margem esquerda, donde se efectuavam os saltos para o rio, a que se chamava simplesmente a “Prancha”. E de tal modo se vulgarizou esta designação, sobretudo entre os jovens, que ela, com o tempo, começou designar o próprio lugar. «Vamos nadar para a Prancha» – era, então, um convite irrecusável, em tempo estival.

    O movimento e a actividade no Leça desse tempo eram grandes. Com a juventude da terra, misturavam-se, antes da construção da sua piscina, nos finais da década de cinquenta, os alunos do Colégio de Ermesinde, e como referia o “O Primeiro de Janeiro” numa reportagem retrospectiva, em 1987, até «as mulheres do campo, tão entusiastas que eram, se dedicavam à prática, envergando como fatos de banho os seus saiotes de flanela».

    Já na década de cinquenta era vulgar ver-se, também, aos fins-de-semana, nas noites quentes do Verão, várias famílias das redondezas a tomarem o seu banho, a que se juntavam mais tarde grupos de jovens, que para ali se dirigiam, depois de terem assistido a uma “sessão” no Cinema de Ermesinde.

    Hoje o local está, infelizmente, diferente e até no moinho, apesar de tudo bem conservado, deixou ultimamente de entrar qualquer cereal, pois como diz o seu jovem proprietário: «Já não compensa moer. A farinha que mando vir de Itália ou França, fica mais barata que o próprio milho».

    Jacinto Soares

    1 Maquia: Nesta acepção, refere-se à «porção que os moleiros tiram da farinha (...) que fabricam para outrem, como remuneração do seu trabalho (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 8ª edição). Esta prática que remonta a tempos medivais conservava-se ainda em Ermesinde, nos meados do século XX.

     

     

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