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Edição de 31-12-2020
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    Arquivo: Edição de 30-01-2006

    SECÇÃO: Crónicas


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    Miséria em nome da competitividade

    Actualmente a competitividade é o bicho que ataca o Estado Social, os Estados Providência da Europa. É em nome dela que se põem em causa as conquistas históricas dos trabalhadores, as suas regalias e se desregulamentam as leis do trabalho para que as empresas sejam mais competitivas e, é claro, obtenham mais lucros. A Volkswagen AG, na Alemanha, até já chantagia os trabalhadores para que aceitem redução de salário e mais horas de trabalho para que um novo modelo de automóvel seja lá fabricado! Senão, abalam. O mesmo já fez a Siemens e outras. Mas que competitividade e que progresso é este em que eles estão sempre a falar e que nos está a levar novamente à escravatura do princípio do século passado? Isto que nos apresentam como progresso, não será um retrocesso de 200 anos?

    Atacar benefícios sociais é a ordem do dia no sistema económico neoliberal adoptado pela União Europeia (UE). É a pilhagem da Segurança Social. Leia-se, por exemplo, a página do The Wall Street Journal do JN Negócios e verifica-se constantemente que o que impede o progresso e a competitividade das empresas são os benefícios sociais dos trabalhadores, os seus direitos, os seus salários o que, até há poucos anos, não acontecia, só após a queda do comunismo e a assinatura do misterioso Tratado de Maastricht e depois a entrada da China para a Organização Mundial do Comércio (OMC). Nessa página lê-se sempre o mesmo:

    Os economistas (neoliberais) advertem que os governos devem reduzir os benefícios sociais que tornam muito caro as empresas despedir e contratar trabalhadores; as nações europeias devem afastar-se dessas dispendiosas protecções sociais; torna-se necessário demitir funcionários sem ser necessário dar qualquer justificação; flexibilizar as leis laborais para que se facilite os despedimentos e contratos a prazo, mais horas de trabalho, menos férias , etc etc..

    É tudo isto que eles estão sempre a pedir, alertando com a ameaça do desemprego. Dão como exemplo a Espanha com a taxa de desemprego a descer mas não dizem que é à custa de trabalhadores com contratos a curto prazo que representam 32% da força de trabalho do país, o dobro da média europeia. E perante este desemprego propositado, é isso que eles querem, diz o director do Banco Viscaya Argentaria SA: Um trabalho mal remunerado é melhor do que nenhum. O indivíduo mais improdutivo é o que está desempregado. É melhor que nada! É assim que eles se aproveitam à custa do desemprego provocado. Só que um trabalhador assim contratado e que até vai contar para as estatísticas de emprego, mal se consegue sustentar com cerca de 700 euros por mês, tendo de pagar metade para a casa. Muitos já não compram pão e aprenderam a mover-se à noite no escuro para pagarem menos energia. Tal como os chineses que são o exemplo a seguir. Pudera!

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    Naturalmente que isto não passa dum grande embuste cheio de humor negro! Admitiram a China na OMC onde antes não entrava por não cumprir com os direitos humanos mas agora mandaram à fava os direitos humanos e até passou a ser um exemplo a seguir. E é com a China que devemos competir. A China onde a maioria dos operários ganham 150 euros por mês, trabalham 12 horas por dia (6 dias), não têm férias, contentam-se com duas malgas de arroz cozido diárias, não vêem TV (que sorte!), deitam-se cedo para poupar energia e estarem aptos para trabalhar no dia seguinte e não podem reivindicar, pois nem têm direito à greve. É comer e calar! Assim a China comunista tornou-se o paraíso do capitalismo! Um paradoxo! E o operário chinês é apresentado pelos grandes grupos económicos ocidentais como o modelo a seguir pelos europeus. Foi para isto a Longa Marcha, o Grande Salto em Frente, etc. etc. que tantas mortes provocaram?!

    Veja-se o nosso futuro se as coisas assim continuarem! Mas isto não passa dum grande logro que deveria ser desmontado! Muitos pensarão que bastaria os governos europeus, se de facto estivessem com os seus trabalhadores, boicotarem as importações dos produtos das empresas que fogem para a China e outros países de mão de obra quase escrava, onde os mais elementares direitos são negados, já as coisas mudariam. Mas, santa inocência, para isso está lá a UE que obriga à livre circulação de capitais pessoas e bens de conformidade com os tratados assinados no âmbito da OMC, a que a China e a Índia agora pertencem. O proteccionismo é proibido e a Europa vai empobrecendo para que a China e a Índia engordem. Depressa estaremos como eles! Agora é que a China está a dar o grande salto em frente e a Europa o grande salto atrás!

    Nem os direitos e as regalias sociais dos trabalhadores são defendidas, no âmbito da UE!. Em nome da famigerada competitividade, o emprego vai sendo transferido para países do terceiro mundo e os trabalhadores da Europa vão perdendo, ao pouco, as suas regalias, pleno emprego e salários justos. E o pior é que esta situação insustentável de desemprego crescente, torna a Segurança Social insustentável, pondo em risco o pagamento de subsídios e reformas.

    Os europeus, pelo menos, deviam ser informados da origem dos males que os vão afectando na época global, pois esta crise é fabricada, é arbitrária não é ocasional e tem uma finalidade perversa. Por isso, se vê tanta gente por onde a crise não passa! Mas para a UE, um monstro anti-social que nos engoliu, as pessoas e os trabalhadores nada contam, quando intervém não é para defender as populações e os trabalhadores mas sim a livre concorrência, os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros cada vez mais concentrados e procede como se fosse regida por uma organização secreta e talvez até seja.

    Por: Reinaldo Beça

     

     

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