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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 30-07-2005

    SECÇÃO: Crónicas


    S. Charles

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    Os contrastes sempre foram usados: desde o alto ao baixo, do salgado ao insosso, da cor berrante ao luto, com intermédios gradativos. Fazem parte do dia a dia. Se uma camisa era bonita, vinha logo à baila o dito: “Não podes ver uma camisa lavada a um pobre!”.

    Felizmente, a evolução social vai pondo cobro às flagrantes discrepâncias entre cidadãos, nivelando, cada vez mais, os pobres com os ricos e vice-versa!

    Bom era que, ao generalizar-se a globalização, as grandes carências e os contrastes fossem banidos.

    A vinda para a cidade do Porto, na continuação de estudos, resultou num novo portuense de afectos. Após o liceu, em Vila Real, o Porto era uma metrópole. Foram dias e horas gastas no prazer incontido de ir das muralhas à Ribeira, da Ribeira à Foz e Matosinhos. Os barcos e o mar eram o satisfazer do sonho vivido nas penedias transmontanas. Ver, nesse tempo, os cartazes das caravanas futebolísticas, entre as gentes de Espinho e Vila Real, dizerem: “Vêem as ondas do mar beijar as ondas da serra” (o futebol era prazer, era lazer, era convívio, era cultura...), sentia-se o mar a bater no Marão!

    FEBRE

    DE SÁBADO

    À NOITE

    O interior da cidade levou mais tempo a explorar e a conhecer. Dava gozo andar a pé até aos montes das Antas, campos de Paranhos e Areosa, e sentirmo-nos perdidos, entre tantas casas. O receio tinha um fim feliz, bastava ouvir o tilintar dos eléctricos e ver as placas de regresso à Praça ou ao Bolhão.

    A febre de sábado à noite, após o encontro no café Aviz, começava em escolher o cinema de filme ainda por ver. Como as fitas se aguentavam semanas, só nos candongueiros se obtinham bilhetes à última hora! Remédio: ir de eléctrico aos cinemas dos arredores, como o Vale Formoso ou o Vitória, junto à Circunvalação.

    Após esgotar os filmes em exibição, só restava a alternativa da matiné no Carlos Alberto. Sim, todos os dias dava cowboiadas diferentes! Mais: pelo preço, vinte e cinco tostões tínhamos direito a ver duas fitas!

    O cinema dos pobres era, pomposamente, conhecido por S. Charles – oposição ao S. Carlos de Lisboa (ópera).

    Os dias de hoje não podem, não devem renegar o passado. Sem passado não há presente nem futuro. As fotos dos artistas dos anos cinquenta/sessenta, que emolduravam as paredes e átrio do antigo cinema, deviam ser colocadas num recanto do bonito e funcional Carlos Alberto actual. E, não esquecer os actores do Teatro Experimental do Porto, que decoravam os corredores, anos mais tarde, até ao bota-abaixo para a nova construção.

    APELOS

    EM PENSAMENTO

    Em pensamento, tenho feito apelos a Hélder Pacheco, tão enraizado e enamorado do burgo onde nasceu, a escrever mais, muito mais, sobre o velho e novo Carlos Alberto. As récitas dos alunos das escolas, em condições financeiras apropriadas, não devem ser vetadas pelo elevado aluguer. Mas, as grandes referências do antigo S. Charles serão sempre couboiadas, em que os estudantes de Ciências, Engenharia, Economia, Medicina, Arquitectura (algumas cadeiras eram na Faculdade de Ciências), e até Farmácia, confraternizavam com os trolhas e desempregados temporários, e se divertiam por pouco dinheiro. Daí o dito entre estudantes desavindos: “Vai para trolha, ganhar sete e quinhentos por dia!!!”.

    As piadas, durante a passagem silenciosa e interessada dos filmes, eram de pasmar, mesmo nas fitas de Errol Flynn (espadachim) se ouviam “bocas”. Eram do género, para o artista na pantalha “– Cuidado!, o bandido está atrás da porta!...”.

    Tudo ria e convivia. O polícia de serviço não tinha que fazer!

    Por: Gil Monteiro

     

     

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