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    Arquivo: Edição de 15-06-2005

    SECÇÃO: Destaque


    Foto Manuel Valdrez
    Foto Manuel Valdrez

    TIC’s – uma revolução falhada na Educação?

    Ano de lançamento da disciplina, muitas esperanças se depositavam na introdução dos programas escolares da disciplina de TIC (Tecnologias da Informação e da Comunicação), que era suposto dar início a uma verdadeira revolução nas escolas. Praticamente passado um ano da sua introdução, é tempo de se fazer uma primeira tentativa de balanço. Para a levarmos a cabo, falámos com Alexandra Marques, a responsável pela disciplina na Escola Secundária de Ermesinde, tendo como termos de comparação e aferição a experiência da Escola Secundária Soares dos Reis, na qual tivemos, como interlocutores, Alberto Gonçalves, presidente do Conselho Executivo, e Fernando Leal, professor de Técnicas Especiais, este contratado para uma missão especial, como veremos.

    Em artigo de “A Voz de Ermesinde” n.º 716, de 30 de Outubro de 2004, “O que se aprende na disciplina TIC e quem é que a vai ensinar?”, caixilho do texto principal “Estudo sobre o ensino nas escolas locais num ano conturbado para a educação”, apresentáramos já algumas das linhas-mestras que presidiam ao programa da disciplina e, na nossa opinião, quais as suas virtualidades e viabilidade.

    Dizíamos então: (...) serão abordadas matérias como a utilização de um sistema operativo em ambiente gráfico (nada do velho DOS, portanto), processamento de texto, internet, folha de cálculo, criação de páginas web e de apresentações, e introdução a sistemas de base de dados».

    Foto Manuel Valdrez
    Foto Manuel Valdrez
    Apontávamos também algumas mais-valias do projecto do Ministério da Educação: «Quanto aos sistemas operativos privilegiados para suportar os equipamentos, uma nota positiva é que o Ministério da Educação não se limitou à instalação do convencional sistema Windows, da poderosa multinacional Microsoft, mas incluiu também o Linux, sistema operativo de código aberto».

    E mais à frente sublinhávamos ainda a vantagem do facto de que a distribuição Linux utilizada ir ser a da Caixa Mágica, desenvolvida de raiz em Portugal e, «sendo, por isso, nativa, afastar a questão das traduções menos felizes do sistema em Português (ou mesmo em Português do Brasil)».

    Também nessa altura alertávamos já para a situação pré-existente de um défice de competências: «Quanto à disponibilidade de professores para as TIC, aqui é que a porca torce o rabo, havendo neste momento um claro défice de competências. A primeira fase de formação de professores iniciou-se a 10 de Outubro deste ano, abrangendo cerca de 150 docentes de norte a sul do País. Será esse núcleo inicial de docentes assim preparados (esperemos que minimamente) que irá depois formar mais de 1 800 docentes da disciplina de TIC e, posteriormente, os professores de outras disciplinas».

    Eram vários os programas que então se apontavam como tendentes a colmatar as deficiências de formação dos professores nas áreas que era suposto leccionarem.

    No mesmo texto fazíamos uma apresentação sumária do Linux: «Criado pelo finlandês Linus Thorvalds e assente na noção de software livre, desenvolvida por outros, em particular por Richard Stallman, o Linux é um sistema operativo em grande parte desenvolvido por voluntários e que tem vindo, cada vez mais, a bater o pé ao omnipresente Windows».

    Ora, um ano passado, como correu tudo isto?

    AS TIC'S NA SECUNDÁRIA DE ERMESINDE

    Alexandra Marques fala-nos um pouco dos recursos pedagógicos envolvidos ao nível da Escola Secundária de Ermesinde, cinco professores especificamente na nova disciplina de TIC’s, mais quatro na Introdução às Tecnologias de Informação, uma disciplina de opção.

    A seu ver, o ano não correu mal. Sendo o primeiro ano da formação, e tendo-se iniciado as aulas com três meses de atraso, os alunos (do 9º Ano) desenvolveram a sua aprendizagem de várias ferramentas como processador de texto (incluindo as funções mais avançadas de edição, como para a feitura de brochuras ou desdobráveis), folha de cálculo, programa de apresentações e mesmo edição de páginas web. Muitos deles terão mesmo criado páginas pessoais.

    Em todos os casos usaram-se as ferramentas da multinacional Microsoft, baseadas no sistema Windows. Além destas, os alunos socorreram-se de um ou outro programa para a edição de imagens (o Photoshop, da Adobe) ou para a criação de páginas web (como o Dreamweaver da Macromedia).

    A existência de um Departamento de Informática (em que além dos professores das disciplinas já mencionadas), também tomam parte os de Engenharia Mecânica e Engenharia Electrónica, tornará possível, a curto prazo, a abertura de um site, até ao fim do período. Os alunos poderão então contactar a escola através de e-mail. Mas nem isto, nem mesmo a vinda à escola de docentes da Faculdade de Engenharia do Porto, numa demonstração de Linux para os alunos, ajudou, para já, a transpor a barreira da introdução deste sistema operativo.

    Confrontada com a questão de porque é que não se utilizaram, a par com o Word ou o Excel, as ferramentas correspondentes na plataforma Linux, Alexandra Marques responde com a dificuldade de o poder fazer neste primeiro ano, dado o atraso do início das aulas, estando contudo prevista a sua introdução aos alunos do 10º Ano, no que será o segundo ano de aprendizagem na disciplina.

    Em resposta a nova pergunta de “A Voz de Ermesinde”, a docente espera também poder já ter o Linux como matéria do programa do 9º Ano para o próximo ano lectivo. Alexandra Marques desconhecia, todavia, qual a distribuição de Linux que seria utilizada.

    O PRIMEIRO DAS TIC

    Foto Manuel Valdrez
    Foto Manuel Valdrez
    NA SOARES DOS REIS

    Muito crítico é o balanço neste primeiro ano das TIC’s por parte de Alberto Gonçalves, na Escola Secundária Soares dos Reis, no Porto – uma escola com vocação artística e que, por via disso, na disciplina de Técnicas Especiais, fazia já um uso extensivo das novas tecnologias de informação.

    Segundo o presidente do Conselho Executivo, o grupo de docentes nas TIC não souberam compreender o alcance daquilo que estava em jogo, e logo numa escola que realizou uma reforma completa no que respeita ao uso das novas tecnologias na sua vida diária. Para se compreeender o alcance deste juízo crítico, nada melhor do que apresentar brevemente o problema com que se confrontou a escola no seu projecto de estabelecer uma rede ao serviço da comunidade dos docentes e dos alunos.

    O projecto de um impulso real ao nível das tecnologias de informação começou pela planificada contratação de Fernando Leal, engenheiro informático, a quem foram cometidas, além das tarefas pedagógicas, sobretudo tarefas no domínio da criação de ferramentas informáticas que respondessem às necessidades daquele estabelecimento de ensino. Bem depressa este técnico, com o apoio da Direcção da escola, compreendeu a necessidade de trocar a rede baseada em Windows (mais especificamente Windows 2000 Server), mais exposta aos vírus, menos fiável e frequentemente a dar problemas até à gota que fez transbordar o copo, por uma rede mais robusta, segura, e que, além do mais tinha a vantagem do preço e da possibilidade da introdução de correcções de programação, porque baseada no conceito de software de código aberto, na plataforma Linux.

    A construção desta rede, numa fase inicial contando com as próprias forças mas, mais tarde, no que respeita a hardware, recorrendo a uma empresa exterior, tornou possível à escola constituir uma vasta base de dados de acesso diferenciado ao público, alunos e docentes, cada um destes com uma conta de e-mail proporcionada pelo servidor da escola, e respectiva password, que permite um acesso mais restrito a certos serviços.

    UMA EXTENSA REDE DE SERVIÇOS

    PARA A COMUNIDADE

    Foto Manuel Valdrez
    Foto Manuel Valdrez
    Através da construção, por Fernando Leal, de várias ferramentas de acordo com as necessidades da escola, foram-se pondo de pé estes serviços ao dispor da comunidade escolar, como por exemplo, o lançamento das notas, que os alunos podem conhecer a partir de sua casa, quase em tempo real, o controlo de faltas – havendo um tempo-limite para o seu registo –, o lançamento dos sumários, etc.. Como os programas da plataforma Linux cumprem escrupulosamente os requisitos de abertura que os da Microsoft deveriam cumprir, é possível a qualquer internauta – use seja que computador for (PC, Macintosh ou outro), ou seja qual for o sistema operativo – aceder à informação de forma exactamente igual, esteja onde estiver, em casa, na escola ou noutro lado.

    Mas disso mesmo se podem os leitores certificar consultando o site www.essr.net.

    Bom, é precisamente por este facto que Alberto Gonçalves faz um balanço muito crítico da disciplina de TIC, pois numa escola com uma experiência como aquela que aqui, em breves linhas, está contada, com os recursos humanos competentes como os aqui existentes, havia, ainda no fim do ano, alunos a perguntar pela sua password, o que quer dizer que não a usaram nem beneficiaram dos serviços que a escola pôs ao seu dispor.

    O trabalho com os alunos limitou-se às estafadas ferramentas de processamento de texto e folha de cálculo do Windows, ignorando-se por completo o know how existente na própria escola quanto à plataforma Linux. E mais, existindo ferramentas alternativas, de software livre, mesmo na plataforma Windows, como o Open Office, por exemplo. Curiosamente, os próprios alunos de Técnicas Especiais, e não apenas os de Fernando Leal, mostraram-se abertos e disponíveis para o uso das ferramentas proporcionadas por outro sistema operativo (nós próprios vimos a funcionar na escola o Linscape – desenho vectorial, e o Scribus – programa de paginação electrónica) numa distribuição Ubuntu de Linux para Macintosh (as distribuições de Linux são muitas, variando o número de programas instalados ou a sua apresentação gráfica e mesmo a plataforma a que se destinam – literalmente quase qualquer uma; a portuguesa Caixa Mágica é uma delas; a Soares dos Reis baseou o seu sistema de rede numa Fedora). Mas soubemos que os alunos usavam de bom grado o GIMP, para tratamento de imagem, o QCad para desenho de arquitectura, etc.. Tudo programas legalmente instalados, que não custaram um tostão à escola, e cuja qualidade tem vindo a crescer exponencialmente, de versão para versão, como aliás aconteceu com o próprio sistema operativo Linux.

    Aliás Alberto Gonçalves coloca aqui precisamente o dedo na ferida. «Não temos recursos ilimitados. E as alternativas que temos são estas: ou estamos sujeitos a pesadas multas por pirataria de software, ou pagamos fortunas pelos programas (incluindo o sistema operativo da Microsoft – ou outro proprietário), ficando ainda completamente dependentes em termos de ferramentas que não podemos melhorar ou adequar, ou finalmente, rompemos com tudo isto, e pomos de pé soluções com base no software livre.

    É lógica a escolha que fizemos e é um imperativo para o país que se generalize esta escolha. Assim poupar-se-iam milhões, ao mesmo tempo que, em vez de encher os bolsos a uma multinacional nos Estados Unidos, com muito menos dinheiro se dava emprego a técnicos competentes, capazes de engendrar soluções, tal como nós fomos capazes de fazer nesta escola».

    «E estas soluções que aqui arranjámos, nós pomo-las gratuitamente, ao serviço de toda a comunidade, aliás no espírito da comunidade do software livre», acrescenta Fernando Leal. E relata o número crescente de escolas que, entretanto, se têm vindo a interessar pela experiência da Soares dos Reis: EB 2,3 de S. João da Madeira, Inês de Castro (V. N. de Gaia), José Régio (V. Conde), Infante D. Henrique, Ramalho Ortigão, EB 2,3 do Olival (V. N. de Gaia).

    Fernando Leal revela mesmo muito do que é o espírito da Microsoft, que era suposto dar assistência aos computadores em que, concomitantemente, estaria instalado o Caixa Mágica. As mais das vezes, denuncia o técnico, quando podem, «até chegam a desinstalar o Linux».

    PISTAS PARA UM PROJECTO DE CONCLUSÃO

    Foto Manuel Valdrez
    Foto Manuel Valdrez

    Percebe-se assim o desencanto dos dois “arquitectos” da revolução informática da Soares dos Reis pelos resultados medíocres obtidos aí com as TIC. Tivessem outras escolas a potencialidade desta, diríamos nós. Alberto Gonçalves corrige-nos: «O que aqui se fez é possível fazer-se em qualquer escola. Basta querê-lo. E esta experiência é para alastrar. Obrigatoriamente!».

    De qualquer forma, em todas as escolas a introdução das TIC criou condições para obstar à info-exclusão, proporcionando a todos os alunos um espaço e uma aprendizagem que, mesmo tímida, é um salto em frente do ponto de vista da igualdade de oportunidades, da aquisição de competências, do domínio de novas ferramentas (organizativas e criativas). Visto por este prisma, todo o processo é muito positivo.

    Esperemos que um primeiro ano de balanços contraditórios possa desembocar em vontade de resolver os problemas da maneira mais sensata e razoável. A partir da escola. De cada escola. E aprendendo com as boas experiências (e as relativamente menos boas) umas das outras.

    Por: LC

     

     

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