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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 30-05-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    Poluição canina

    O cão não só é o maior amigo do homem como é o mais dedicado. São exemplos, sobre exemplos, os que se imolam pelo fogo, água ou em lutas ferozes para salvarem os donos. Há, lá por casa, um minúsculo teckel que nem às moscas faz mal mas, ao ver a dona ameaçada, logo se irrita, salta e mostra os dentes de arreliado. Só na ausência obrigatória ou forçada da tutora é que afaga ou se deixa afagar por outras pessoas, consideradas amigas ou conhecidas!

    Sempre observei, com enternecimento, as várias raças de cães e seus modos de vida.

    Assistir aos almoços (jantares) dos trabalhadores do campo, em que o conduto chegava a ser meia sardinha(!) e, se era carne, os cães ao redor da toalha, estendida na erva, tinham sempre desougo (carne ou pão), oferta dos trabalhadores ávidos e de costelas salientes! Em vídeos televisivos é frequente verem-se pessoas, tribos ou residentes em locais inóspitos, de sobrevivência precária, serem acompanhados por cães nada esqueléticos.

    Estamos numa campanha , ainda bem, de não poluir ou conspurcar as ruas, passeios e jardins com as fezes caninas. No bairro de Paranhos (Porto) as acções já começaram há uns tempos, vendo-se os passeadores dos animais apanharem os detritos com sacos plásticos. Mas, já lá vão uns meses, foi preciso ler, na montra de um estabelecimento, apelos à limpeza, pois o passeio estava sujo e calcado de excrementos.

    Ao ver o zelo dos concidadãos, quando passeio o “salsicha”(nunca fez cocó no passeio, prefere a berma da rua), não deixo de apanhar as mini-fezes no asfalto .O mesmo não digo do asseio dos mecos metálicos impeditivos de estacionamento, utilizados na micção: perderam a cor verde e avançou a ferrugem castanha!

    Somos um povo bem típico: estamos no começo do despertar para a limpeza das fezes caninas e já temos uma cidade (Caldas da Rainha?) com retretes para cães!

    Ilustração Rui Laiginha
    Ilustração Rui Laiginha
    O que se está agora a ver, já tem muitos anos de existência, mesmo em Portugal. Foi na Foz do Douro, numa noite de canícula, quando procurava o carro estacionado numa rua arborizada, que, pela primeira vez, observei um moço deixar o cão bulldogue defecar na rua, retê-lo, tirar um saco de plástico do bolso e apanhar os detritos. Passados anos, em Toronto, visitando as antigas instalações dos jogos olímpicos, rodeadas de amplos jardins, arruamentos e praças, vi cães bem tratados a brincarem na relva. Um defecou, e quando pensava que iria contribuir para adubar a relva, o dono pisou o jardim e recolheu os excrementos!

    Preocupações ainda maiores são os maus tratamentos infligidos aos animais. São desumanos, e o abandono é uma cobardia.

    Recordo Miguel Torga, no tempo de médico em S. Martinho de Anta, ao escrever os ternurentos contos “Os Bichos”. Quem conhece um cão perdigueiro e um galo fica extasiado pela realidade e pela magia na leitura

    Bem dizia o compadre Rodrigues de Roalde:

    – Quem trata mal os cães tem mau coração!

    Em 1973, visitei Macau. Era território português de estrutura, mas sem a alma lusa! Pouco ou nada se ouvia a língua de Camões ou se via gente europeia. Num estabelecimento, tipo supermercado, era preciso esperar para termos o atendimento de empregado chinês a falar português! Razão teve Fernando Pessoa ao dizer: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”...

    Os restaurantes macaenses serviam cobras e carne de cão! (viam-se nas montras como se fossem lagostas). Tive arrepios de virar o estômago!

    Só sosseguei quando o capitão Mendes, em comissão na polícia do território, elucidou:

    — Nem penses na troca de pratos ... A carne de cão é mais cara!!!

    Por: Gil Monteiro

     

     

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