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Edição de 30-06-2020
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    Arquivo: Edição de 15-03-2005

    SECÇÃO: Crónicas


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    A demagogia acabou... E agora?

    Conseguimos, conseguimos... e agora que acabou a demagogia eleitoralista, há que conseguir cumprir as promessas. É uma exigência do povo português que, para isso, lhes deu uma maioria absolutíssima, clara e inequívoca. Conseguiram chegar ao poder em condições favoráveis mas, para o povo, ainda não conseguiram nada. Só o conseguirão depois de conseguirem cumprir a missão para a qual se propuseram, o que se afigura tarefa difícil.

    Não custa nada conseguir os votos dum povo desesperado que quer a todo o custo mudança, fugir da desgraça em que caiu, do futuro negro que vislumbra e só vê duas alternativas credíveis para tal: ora uma Esquerda representada pelo PS, ora uma Direita representada pelo PSD. As mesmas que lhe trouxeram os problemas. A Esquerda falhou em sete anos de esbanjamento, de desgoverno, de mau aproveitamento e desperdício dos fundos comunitários que choveram em catadupa. A Direita mostrou-se incompetente para resolver a situação pantanosa que herdou da Esquerda e os problemas agravaram-se com a torneira europeia só a pingar. Agora vira novamente à Esquerda que, há três anos apenas, abandonou as suas responsabilidades, deixando o país dependurado, encharcado num pantanal, numa situação gravosa de destruição do aparelho produtivo e delapidação das finanças públicas. E o novo líder estava lá para conseguir o Euro 2004 que nos trouxe os grandiosos estádios que nos deslumbram e que muito proveito nos têm dado.

    O povo português desorientado anda aos ziguezagues como presa acossada e encurralada. Se foge para um lado aparece-lhe a raposa, se vira para o outro, aparece-lhe o lobo de boca escancarada. O curral é a União Europeia que lhe impõe condições de mercado chantagistas e injustas, ao obrigar a competir com países oprimidos cujos trabalhadores, com salários de miséria e sem qualquer poder reivindicativo, contentam-se com duas malgas de arroz cozido diárias, enquanto os grandes grupos económicos para lá vão explorar aquela situação muito favorável aos seus interesses. Competir com países não democráticos que não cumprem com os mais elementares direitos dos seus trabalhadores e cuja mais valia não é a tecnologia avançada mas a miséria e opressão do seu povo, é tornar os seus próprios trabalhadores cada vez mais pobres em nome duma competitividade obtida à custa da perda de regalias sociais arduamente conquistadas. É nivelá-los por baixo.

    E AGORA?

    Ilustração Rui Laiginha
    Ilustração Rui Laiginha
    E agora, Eng.º José Sócrates, maiorino absoluto dum governo subalterno, a demagogia acabou, como vai conseguir resolver o problema fulcral do desemprego provocado pela mobilidade das empresas que se deslocam para explorar a mão de obra barata de trabalhadores oprimidos? E numa altura em que o novo Tratado da UE incentiva ainda mais essa mobilidade e obriga a abrir as portas aos seus produtos, sem restrições? Com uma chicotada tecnológica, quando o problema não é só de tecnologia mas é também de mão de obra e de baixos impostos? E as novas tecnologias são competitivas mas também trazem mais desemprego? Vai congelar salários? Vai aumentar o horário de trabalho semanal para 65 horas como na China? Vai acabar com o 13.º Mês, com o subsídio de férias e reduzir o período das ditas como já aconteceu em empresas alemãs para os trabalhadores preservarem os empregos? Como vai conseguir impedir a deslocação das empresas que nos restam com grande atracção pelo Terceiro Mundo? Como vai conseguir que o grande capital cá invista? Vai ceder à chantagem, concedendo-lhes regalias fiscais, sacrificando as finanças públicas e a Segurança Social até esta falir de vez? Ou vai sacrificar os trabalhadores com leis laborais mais flexíveis que agradam ao investidor mas não ao trabalhador? O que vai fazer, Sr. Engenheiro? O que vai tirar da manga, qual o truque para conseguir tornar Portugal um país competitivo como a China e a Índia?

    O nosso PR até já foi à China dançar com as chinesas e levar os nossos empresários para verem in loco o paraíso do capitalismo num país comunista. Foi-lhes ensinar o caminho para a fuga. Pena foi não ter levado também alguns trabalhadores portugueses para aprenderem a alimentar-se com a sobriedade dos chineses, apertando o cinto e tornando assim Portugal um país mais competitivo e interessante.

    Entretanto a Banca engorda, os grandes grupos económicos transnacionais engordam e uma minoria privilegiada leva uma vida de luxo, opulência e ostentação como nunca se viu, enquanto uma maioria cada vez mais pobre e dependente vai aumentar os grupos de indigentes, de marginais e sem abrigo em franca ascensão. É que o sacrifício dos trabalhadores europeus desempregados, não está a favorecer os trabalhadores empregados dos países mais pobres mas sim a aumentar os lucros dos grandes grupos económicos que lá vão investir.

    Em face de tudo isto e embora haja algo a fazer a nível interno, creio que o problema de fundo só poderá ser resolvido em Bruxelas, no Conselho da Europa e não por governos subalternos como o nosso, pois enquanto a política neoliberal da União, que favorece a chantagem dos grandes grupos económicos, não for alterada e os direitos dos trabalhadores não forem consagrados numa declaração universal (um trabalho também para a OIT), o nosso problema de desemprego com todas as suas graves repercussões económicas e sociais, irá continuar e só com muito sacrifício poderá ser atenuado, mesmo com toda a boa vontade do novo Primeiro Ministro. E a União Europeia, um mercado poderoso de 455 milhões de consumidores ainda com elevada capacidade de aquisição, tem muito poder para tal, se tomar o rumo duma Europa Social, deixando de ser um instrumento passivo da globalização económica e conseguindo, assim, libertar-se das pressões do G8, da OMC, da OCDE, do FMI, do BM e de todos esses instrumentos globais que, para ajudar, submetem.

    Por: Reinaldo Beça

     

     

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