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    Arquivo: Edição de 15-03-2005

    SECÇÃO: Destaque


    DIA INTERNACIONAL DA MULHER

    Fotos Manuel Valdrez (recentes)
    Fotos Manuel Valdrez (recentes)

    Maria Clotilde - mulher dos sete mares

    A vivacidade gaiata brilha-lhe nos olhos, irreverente, como se estivesse ainda nos tempos da primeira juventude, ela que já vai nos setenta e poucos. Tempos em que todos arregalavam os olhos ao ver esta mulher invadir terrenos tradicionalmente masculinos, não apenas nos cães, que criava com mérito reconhecido, como no ténis, na equitação, na vela (quase um escândalo naquela altura), na pesca. Ah!..., e fez vinho no Pisão.

    Oriunda de família burguesa republicana, nasceu e viveu em Ermesinde, onde os avós maternos que aqui vinham passar férias, se conheceram. A sua casa, que eles construíram e onde viveu até 1985, é a Vila Beatriz. Cidadã avessa ao negrume do fascismo, amante da natureza que sempre foi, radicou-se na serra há já mais de vinte anos, onde na casa construída pelo seu avô – republicano que apreciava a vizinhança de Afonso Costa, que ali tinha uma casa de férias – leva uma vida montanhesa, fazendo queijo, e onde chegou mesmo a pastorear ovelhas. Foi ela que, no 1º de Maio, «obrigou» que as manifestações populares invadissem as ruas de Manteigas. E a sua postura cívica há-de acompanhá-la até ao fim da vida.

    Todos conversam com ela (e ela com todos) e a conhecem. E os seus conselhos chegam a ter algum peso nas decisões tomadas pelos responsáveis do Parque Natural da Serra da Estrela.

    LC

    Maria Clotilde frequentou o liceu até ao 2º ou 3º Ano, estudando depois no Colégio Moderno.

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    Quando era miúda, porque era muito franzina e pequenina, chamavam-lhe a “Rata”, só mais tarde foi “Tilinha”, o nome por que quase toda a gente a conhece.

    Levou sempre uma vida movimentada, daqui para ali. «Fiz vela, equitação, joguei ténis, fiz ski, tive a quinta do Pisão», resume assim, de uma penada – parte da sua agitada vida.

    Quando a Câmara de Valongo lhe expropriou a casa, foi sozinha para a serra, para as Penhas Douradas, onde comprou uma cabrinha para ter leite, mas depois foi por aí fora, criou rebanhos, andou pela serra com eles, a apascentá-los, e tornou-se produtora de queijo. Hoje tem cerca de cento e tal ovelhas e é a única queijeira certificada de Manteigas. Levanta-se todos os dias às 7 horas.

    Sabe ordenhar as cabras mas não as ovelhas, diz ela, a quem uns turistas, uma dada altura, ao vê-la na serra com o rebanho, deram uma gorjeta, depois de uma qualquer informação – recorda com deleite.

    Criar animais não é, de resto, novidade para ela, que quando mais jovem, criou cães (o fox terrier).

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    «Nunca gostei da praia, gostei sempre foi da serra». Da serra onde ganhou o vício da pesca (e onde também meteu a muita gente o vício das abelhas). As trutas da Estrela, chegou até a apanhá-las à mão. Hoje ainda pesca e conhece os bons locais. E fez, na pesca, muitas amizades. E chegou até a ir a Espanha para pescar. Ah!.. E também para velejar. É que, não gostando da praia, gosta do mar. Fez regatas. E foi a Vigo, por exemplo, para fazer regatas, com surpresa e escândalo (em 1944/45). Praticou vela no Clube de Vela Atlântico. Em andorinhas, primeiro, e snipes, depois. A equitação veio a seguir.

    E também jogou ténis. «Joguei muito com o Neves Real. Vinha jogar ténis comigo às seis da manhã, para depois ir apanhar o comboio para o Porto».

    A política

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    Da sua vida política nos tempos da velha senhora recorda um comício no cinema, da campanha de Norton de Matos, candidato da oposição democrática à presidência, em 1949. «A mesa da sala da nossa casa até foi para lá».

    Ninguém da família era religioso. «O meu avô, uma vez, até prendeu o D. António Castro Meireles, embora até fosse amigo dele e se desse bem com alguns padres».

    E recorda também os tempos mais recentes.

    «No 25 de Abril não me apercebi de nada. Passei o dia a regar batatas. Mas depois fui para a serra e fui falar com o presidente da Câmara de Manteigas para se fazer ali o 1º de Maio. “Se não houver mal...” – disse ele (Adelino Esteves era então o presidente da Câmara). Mas houve algumas dificuldades. As músicas não queriam sair. “O que é que a gente há-de tocar?”. Toquem o Hino!, disse eu. E também tocaram a Internacional (havia alguém que a sabia) – é que havia alguma organização na têxtil».

    A fábrica chegou a ter cerca de 700 pessoas, hoje não terá mais que 200 (ela teme pela vida das pessoas).

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    Também se recorda, quando ainda morava em Ermesinde, de numa campanha eleitoral, ao passar pela Rotunda (da Boavista) lhe quererem acertar o passo, quando passava lá com o carro. Ainda se lembra do que diziam: “Arreia, que esta é vermelha!”. «No dia seguinte doía-me o corpo todo».

    Foi muitos anos do PS, depois abandonou o partido quando este propôs a lei de segurança interna. Agora é independente. Mas chegou a colaborar numa campanha do PRD. «Apareceu-me o José Rabaça a dizer: “Tenho aqui propaganda e não tenho quem a cole”. Deixa lá, colo eu!». E assim fez.

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    Personagem que não deixa ninguém indiferente, a “Elle” já lhe dedicou uma reportagem (“A Senhora do Rio”), a TVI já foi a casa dela filmar os queijos e a queijaria (esteve para não os deixar entrar, revoltada com a programação da estação), um jornal regional já brincou com ela, num 1 de Abril. A história era mais ou menos esta: a Tilinha tinha pescado um carapau na Lagoa Escura, o que provava que esta estava em comunicação com o mar (o que corresponde a uma velha lenda da serra).

    A serra

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    Maria Clotilde comenta a política e a sua vida no interior do país. «Na CEE não foram protegidos os produtos regionais». As exigências destruíram em grande parte o genuíno.

    Fala da vida simples na aldeia. «Quando fui para a serra nem jornais lá tinha. Só sabia as notícias pelo rádio. Tenho o rádio sempre ligado. 24 horas! E quando havia nevões e não se podia sair, fui eu muitas vezes a vigilante. E dos incêndios também».

    Engraçado é que se isolou na serra, como uma eremita, e agora é capaz de ter mais pessoas à sua volta do que tinha antes.

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    Conhece todos os pastores da serra, do lado de Manteigas. «Os maiores são o Zé Paisana, o Canholas,...» e diz ainda mais dois ou três. Mas duvida que a profissão subsista.

    Interessa-se muito, também, pela preservação das raças autóctones de ovelhas. Além dos cães, claro (os serra da Estrela de pêlo curto e de pêlo comprido). Uma paixão que já lhe vem da altura em que ganhava prémios nas exposições do Clube Português de Canicultura, com os seus fox terrier.

    E conta a vida do seu quotidiano. De manhã ia ao café do Vinagre (uma espécie de tasco), à tarde estava muitas vezes com os técnicos do Parque ou a conversar com o seu amigo José Rabaça. Deu-se bem com quase todos os directores do Parque até hoje, e dá-se bem sobretudo com os estagiários.

    Recorda o protesto que enviou aquando da entrega do viveiro de trutas à Turistrela, sem concurso público. Organizou um abaixo-assinado e escreveu ao Provedor de Justiça. Passados dez dias o protocolo foi desfeito. Mas o que ela queria era apurar as responsabilidades. Propôs que o viveiro passasse para o Parque. Até hoje, está tudo na mesma.

    Muitas vezes aparecem-lhe turistas. “Ó minha senhora, onde fica a serra da Estrela?”. «A serra da Estrela? Então, é onde está! (mas sei muito bem que o que eles querem é ir para a Torre)».

    Adora estar na serra. «Estava constipada e agora vim a Ermesinde, por causa dos óculos, e já estou pior». Fala dos esquilos, das raposas, preocupa-a ver os cogumelos a desaparecer e, com eles, algumas árvores que dependiam dos seus serviços para a fixação de certos elementos essenciais. Está preocupada com a seca deste ano. Talvez maior que a de 1931.

    Lembra uma altura em que organizou uma luta na serra, para pôr fim a uma lixeira em pleno Parque, a escorrer para o rio, e não deixaram passar o camião do lixo, ali a dois quilómetros da vila de Manteigas. Mandaram a GNR. Para os guardas foi uma tarde bem passada. Ficaram ali a provar o queijo, com os manifestantes. O presidente da Câmara não queria lá ir. Foi ela falar com ele...

    E queixa-se dos polícias florestais que não fazem nada.

    Ainda este ano, por sua própria mão, deitou pinheiros abaixo. Ainda hoje trepa às árvores.

    Por: LC

     

     

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