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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 31-03-2020

    SECÇÃO: História


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    MEMÓRIAS DA NOSSA GENTE (14)

    Os Reiseiros (3.ª parte)

    Desde o tempo em que S. Lourenço de Asmes integrava o concelho da Maia, existiam os “Reseiros”. Uma manifestação teatral antiga, que teve como berço as terras da Maia. Na última edição debruçámo-nos sobre os reiseiros da Palmilheira e da Cancela. Hoje, retomamos com os do Alto de Vilar, acrescentando ainda um apontamento final sobre o reaparecimento dos reiseiros, na nossa cidade, já em finais da década de 1970, quando se pensou na construção da nova igreja matriz, recorrendo a esta tradição popular como forma de angariar fundos para a construção do novo templo.

    NESTA CASA AGRÍCOLA – CASA DO RAMOS – DO LUGAR DE FONTE FRIA, PERTO DO ALTO DE VILAR, REPRESENTARAM OS «REISEIROS»
    NESTA CASA AGRÍCOLA – CASA DO RAMOS – DO LUGAR DE FONTE FRIA, PERTO DO ALTO DE VILAR, REPRESENTARAM OS «REISEIROS»
    OS REISEIROS DO ALTO DE VILAR

    Os actores que integravam o grupo dos Reiseiros do Alto de Vilar, em dias de actuação saíam, devidamente fardados, geralmente do local onde ensaiavam e dirigiam-se a pé para casa do Sr. Ramos. A casa da eira, por isso, só em caso de mau tempo, servia de apoio.

    Vários foram os actores, ao longo dos anos, que pisaram este palco e caso curioso, alguns representavam, ora num lugar, ora noutro, como aconteceu com o Miranda, carpinteiro de profissão, o «Bambalho», que nos aparece tanto aqui, como na Palmilheira, o que nos faz supor que o casco era o mesmo . Um dia, também o Sr. Eduardo Parauta foi chamado para substituir o Herodes que havia faltado .

    Desta zona chegaram ao nosso conhecimento algumas frases marcantes destes autos, como por exemplo, esta do Herodes:

    «Sou rei.

    Tenho poder.

    Por estas barbas te juro

    Quem nasceu há-de morrer.»

    Ou então esta conhecida tirada do Bambalho:

    «Quando segui para aqui,

    Queriam-me pousar a tora,

    Mas eu não fui na fita.

    Ataquei o primeiro,

    Casquei-lhe com o marmeleiro.

    Tropa maldita!

    Cá comigo não se arrebita!»

    Deste período mais recente, em casa do Ramos, ficaram nomes como o Catrino de Arcos que fazia de Herodes, o Pesqueira da Boavista no papel de Bambalho, o Sr. Israel Magalhães que chegou a fazer de pastor e de depois de Bambalho, a «filha do Casquilha», do Alto de Vilar, que encarnava a «Fama Ligeira»; o Bessa, das Liceiras, a Maria Pinta, etc. Sabemos que a Casa do Ramos acolheu, durante mais de vinte anos, os reiseiros, embora com alguns intervalos, chegando, no período final, a aceitar nas suas instalações e, segundo informação do actual proprietário, outro tipo de teatro.

    OS REISEIROS DOS ANOS SETENTA, NUM MOMENTO DE ACTUAÇÃO, NA ENTRADA DA IGREJA MATRIZ
    OS REISEIROS DOS ANOS SETENTA, NUM MOMENTO DE ACTUAÇÃO, NA ENTRADA DA IGREJA MATRIZ

    OS REISEIROS DOS ANOS SETENTA

    Durante alguns anos, finais de sessenta e princípios de setenta, não se representaram os reiseiros, na nossa cidade.

    Com a construção da nova igreja e com o movimento que se gerou para a recolha de fundos, houve quem se lembrasse que uma maneira de o conseguir, poderia ser através da reactivação dessa tradição cénica.

    Estávamos em 1978. A tradição era forte e nela cabiam tanto os que gostavam de representar, como os que sentiam prazer em ver. Como ensaiador havia o conhecido Israel Magalhães que ainda podia contar com a colaboração do Sr. Machado, marmorista de S. Paio. Foi este último, um dos mais entusiastas da iniciativa, que ficou encarregado de arranjar, o casco da Palmilheira que estava na posse de um familiar do «Ti Armindo».

    O local, embora não tivesse as condições ideais, valia pelo significado. Colocaram um estrado de madeira a fazer de palco e algumas bancadas à entrada das antigas capelas mortuárias.

    A falta de actores também foi rapidamente resolvida. Três famílias de S. Paio levaram consigo os filhos e quase que preencheram o elenco. Dos quatro filhos de Fernando Machado, dois encarnaram a figura de pastores e outro fez de galego. O Sr. Serrado teve no palco duas filhas no papel de pastoras e um dos rapazes, como príncipe. Depois o elenco ficou completo com a família de Carlos Almeida, (Carlos Grilo), tendo este

    estado na condição de capitão Reinaldo. O nosso conhecido marmorista representava Herodes, Israel Magalhães o Bambalho, enquanto o Sr. Serrades encarnava a figura de um dos capitães.

    Para a história ficou que o primeiro espectáculo se realizou, a 19 de Março deste mesmo ano, e que foram levadas à cena dez representações, com muita gente a assistir e que, contas feitas, esta iniciativa rendeu cento e vinte contos. Houve também quem achasse que a este grupo, criado nestas circunstâncias e composto com famílias de um só lugar, da parte norte da cidade, devia ser dado o nome de «Reiseiros de S. Paio». A referência, pelo menos, aqui fica.

    1- Este artigo (texto e fotos) baseia-se na publicação do autor, “Ermesinde: Memórias da Nossa Gente”.

    2- Os locais de ensaio foram variando ao longo dos tempos. Umas vezes numa casa da Rua Elias Garcia, em Ermesinde, embora as primeiras fossem no terreno do Sr. Joaquim «Risca», na actual Rua Amadeu Vilar, já, em Folgosa.

    3- O Sr. Machado, marmorista de S. Paio, muito ligado a estas representações, referiu-nos que nos anos 77/78 pediu o casco ao Ti Armindo, da Palmilheira, para o ensaiar e conseguir fundos para a construção da nova igreja.

    4- Estes dados foram-nos fornecidos pelo Sr. Domingos Ramos, de Fonte Fria, a quem agradecemos o apoio dado.

    Por: Jacinto Soares

     

     

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