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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 31-03-2020

    SECÇÃO: História


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    ACONTECEU HÁ UM SÉCULO (12)

    Suicídio de um General Português

    No dia 1 de março de 1920, há um século, um general engenheiro do exército português, José Emilio Sant’Ana Castel’Branco, pôs fim à sua própria vida atirando-se do cimo do Arco de Triunfo de Lisboa, junto à Praça do Comércio. Trata-se de um homem que deixou história tanto em Portugal como em parte do seu império, nomeadamente na Índia Portuguesa, em Macau e Timor.

    GENERAL JOSÉ EMÍLIO SANT’ANA CASTEL’BRANCO (1849-1920)
    GENERAL JOSÉ EMÍLIO SANT’ANA CASTEL’BRANCO (1849-1920)
    O jornal “A Capital” de 1 de março de 1920, logo na sua primeira página dá notícia do trágico acontecimento, sob o título “SUICIDIO / Do Arco da rua Augusta á rua / O ex-governador do Campo Entrincheirado, general sr. Castel’Branco tem morte quasi instantânea”

    «Hoje, cerca do meio dia, deu-se na Baixa um acontecimento sensacional que muito contristou as pessoas que o presencearam. Quem a essa hora transitasse pela rua Augusta veria que um vulto se havia despenhado do alto do Arco, do lado do relogio para a rua.

    A scena despertou a maior desolação e horror, sabendo-se pouco depois que o protagonista de tão lamentável caso fôra o general reformado da arma de artilharia sr. José Emilio da Cunha Sant’Ana Castel’Branco, ex-governador do Campo Entrincheirado e que residia na rua Arriaga, 47, rez-do-chão.

    O general Castel’Branco, que era um dos nossos mais distintos engenheiros e que muito viajou, tendo percorrido varios paizes em missão de estudo, permaneceu longo tempo em Macau onde se dedicou a importantes trabalhos de exgotos.

    Ultimamente o distinto militar fôra atacado de uma profunda neurastenia que o fazia fugir do convívio dos seus amigos e das pessoas da familia.

    O general Castel’Branco que fazia parte da Associação dos Engenheiros, instalada como é sabido na praça do Comercio junto ao Arco ali se dirigiu hoje, e subindo depois até ao relogio, passou por fim ao telhado, donde se arremeçou para a rua. O movimento dos electricos paralisou por uns momentos, muitos populares apareceram em socorro do infeliz general que poucos sinaes dava já de vida e o conduziram ao proximo posto da Cruz Vermelha. Ali se verificou quem era o suicida e como o seu estado fosse considerado gravissimo foi metido num automovel e conduzido ao hospital da Estrela onde chegou já morto, recolhendo o cadaver á enfermaria cirurgica. O sr. ministro do comercio logo que teve conhecimento do triste acontecimento encarregou um dos seus secretários de se informar do estado do ferido.

    O general Castel’Branco deixa importantes obras sobre engenharia, além de varios trabalhos da especialidade».

    O ARCO DE TRIUNFO DE LISBOA

    O ARCO DE TRIUNFO DE LISBOA
    O ARCO DE TRIUNFO DE LISBOA
    O Arco de Triunfo de Lisboa faz a ligação da Praça do Comércio à baixa pombalina e é um dos símbolos da Lisboa reconstruída após o terramoto de 1755. A sua construção iniciou-se em 1775 mas só se concluiria um século depois, em estilo neoclássico. Atualmente é possível subir ao miradouro do arco e usufruir de uma esplêndida vista panorâmica da cidade intervencionada profundamente na 2.ª metade do século XVIII.

    O General José Emílio Sant’Ana Castel’Branco nasceu em 1849. Fez a sua formação superior na Escola Politécnica de Lisboa (curso de engenharia) e na Escola do Exército. Antes de partir para terras do Ultramar português, esteve ao serviço do Ministério das Obras Públicas, tendo colaborado no projeto do Caminho de Ferro da Beira Alta e no projeto que tinha como objetivo o saneamento e limpeza de Lisboa. No âmbito deste último, visitou várias cidades da Europa, de que escreveu um relatório bastante pormenorizado sobre infraestruturas de saneamento: “Relatorio acerca dos systemas modernos de canalisação empregados na Europa para esgoto das cidades, apresentado ao Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria em 29 de Janeiro de 1879”.

    De 1880 a 1893 exerceu as funções de professor de várias cadeiras na Escola do Exército, sendo uma delas a de Hidráulica. Desempenhou também o importante cargo de Comandante Chefe da Escola Prática de Engenharia.

    Já no início do século XX, mais concretamente em novembro de 1903, José Emílio Castel’Branco saiu de Portugal, com destino à Índia portuguesa com o objetivo de executar o plano hidráulico para o Estado da Índia, seria mesmo a primeira aposta na hidráulica agrícola daquele território. Chegou a Goa no início de 1904. Apesar da ambição do seu projeto (que incluía «a elaboração de um plano de obras de irrigação com vista a melhorar a produção agrícola; a elaboração de um estudo para melhorar as condições de navegabilidade dos rios e canais; um parecer sobre a conveniência de renovar o contrato do caminho de ferro; um estudo sobre os meios de desenvolver o comércio do porto de Mormugão e verificação sobre a necessidade de se efetuarem obras e estabelecer carreiras sem depender do porto de Bombaim; verificação da necessidade de aumentar a rede telegráfica e a ligação de Damão, Diu e Silvassa (Nagar-Aveli) com a rede geral; elaboração de um plano viário para a zona de Nagar-Aveli; inspeção e verificação da necessidade de obras de conservação nas fortificações de todo o território da Índia Portuguesa; inspeção e verificação da necessidade de obras nos edifícios públicos» (cf. Alice Santiago Faria, Projetos de Hidráulica Agrícola em Goa nos Primeiros Anos do Século XX, 2014). Por questões de ordem financeira o abastecimento de água a Pangim, principal bairro da capital, seria o único projeto a avançar. Em 1905, quando era Governador da Índia Portuguesa Arnaldo de Novais Guedes Rebelo, fez parte do Conselho de Governo da Índia, juntamente com D. António Sebastião Valente, Arcebispo de Goa e Patriarca das Índias Orientais, Alfredo Mendonça David e Francisco Maria Peixoto Vieira.

    O plano gizado e projetado pela sua equipa há mais de cem anos serviria de referência para as posteriores obras de hidráulica realizadas em Goa, sobretudo no que respeita à hidráulica agrícola, até ao fim da administração portuguesa (1961), e constituem, ainda hoje, um património que marca a paisagem agrícola de Goa.

    Depois da sua curta mas marcante estadia na Índia, o General José Emílio Castel’Branco trabalhou também em Macau e Timor. Viajou para Macau em 1906, para realizar um trabalho idêntico ao feito em Goa e, depois, viajaria com o mesmo propósito até à mais distante colónia portuguesa – Timor.

    O General José Emílio Sant’Ana Castel’Branco foi também Governador do “Campo Entrincheirado de Lisboa” (CEL) que se localizava na Área Metropolitana da capital, com o objetivo de a defender, na convicção de que a segurança do país passava sobretudo pela defesa de Lisboa. No período da Primeira Guerra Mundial, dos 40 mil soldados reservados para a defesa de Portugal continental, 25 mil estavam no CEL. O Campo Entrincheirado de Lisboa foi organizado como um comando militar com um general governador – diretamente dependente do ministro da Guerra. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), apesar da neutralidade portuguesa, as defesas da capital foram reorganizadas, tendo sido implementado um complexo sistema de defesa antiaérea, que fez de Lisboa uma das cidades mais bem protegidas do mundo. O CEL que concentrava a maioria do esforço militar português, em prontidão para a guerra, só viria a ser completamente desativado em 1999.

    Por: Manuel Augusto Dias

     

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