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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 31-03-2020

    SECÇÃO: Crónicas


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    A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA (7)

    As campanhas de pacificação em Angola

    Ora, prosseguindo a nossa incursão pelas – algumas - histórias por detrás da História, já que, em regra, não figuravam nos compêndios desta disciplina que nos era ministrada na escola, iremos agora falar da antiga província ultramarina designada por Angola.

    A região sul deste país, que alcançou a sua independência em 11 de Novembro de 1975, a partir de então designado República Popular de Angola, era, particularmente a sua província do Cunene, com uma área idêntica à de Portugal continental, no final do século XIX e princípio do século XX, histórica e fundamentalmente dominada pelos povos do Evale (Cua-nhama e Cuamato). Estes povos ocupavam e dominavam a região Ovampo. Eram tidos como aguerridos e sanguinários, indomáveis, difíceis de sujeitar à civilização, segundo alguns viajan-tes europeus que por ali se aventuraram em meados do século XIX, já que, por essa altura e como já se disse, a presença portuguesa e consequentemente a nossa soberania praticamente se limitava ao litoral.

    Entretanto, o planalto da Huíla foi-se povoando de elementos boers e europeus, fazendo com que o domínio português se fosse alargando, procurando-se, assim, que se fosse paulatinamente sedimentando a nossa soberania em toda a extensão territorial por nós reivindicada, até quase ao Zambeze, tal como se impunha na sequência da Conferência de Berlim. Ora, isto obrigava a que os povos autóctones se subordinassem à coroa, mantendo livres ao “comércio e à civilização” essas e outras regiões importantes.

    Só que, aguerridos como eram, em vez de aceitarem a submissão, insubordinavam-se e lançavam o terror entre as tribos que já se nos haviam afeiçoado, o que obrigava, da nossa parte, mais que não fosse por solidariedade, a um esforço acrescido de protecção das mesmas. E, nesse sentido, em 1895, uma coluna militar comandada pelo coronel Artur de Paiva até conseguiu a pacificação do Humbe, província do Cunene, Sudeste de Angola. Porém, as tribos do Ovampo, da mesma região, apesar de aparentemente terem aceitado a suserania nacional, depressa desfeitearam a nossa bandeira, mantendo-se recalcitrantes e provocadoras, chegando, inclusive, a assassinar nas suas terras dois comerciantes portugueses. Tudo isto fez com que o governo da nação tivesse preparado a expedição de 1904, dirigida, precisamente, contra um desses povos, mais precisamente o Cuanhama.

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    Com efeito, o primeiro grande embate entre tropas portuguesas e forças tribais, em território angolano, na defesa dos seus domínios, teve lugar a 25 de Setembro de 1904, junto ao rio Cunene, num lugar conhecido por Vau do Pembe, a cerca de uma dúzia de quilómetros de Xangongo (Forte Alves Roçadas). Ficou conhecido para a História como “massacre do Vau do Pembe” ou “recontro de Umpungo”, designação do local onde ficava a mata em cuja clareira os combates se desenrolaram. Com efeito, uma coluna militar comandada pelo capitão João Maria de Aguiar, governador do recém-criado distrito da Huíla, composta por cerca de dois mil homens, incluindo infantaria, artilharia, cavalaria, engenharia e auxiliares (nativos recrutados localmente), entre outros, quase uma décima parte do nosso efectivo militar presente naquela colónia, partindo do Lubango (Sá da Bandeira), sede do distrito (Huíla), dirigiu-se para o Humbe, a povoação fortificada mais a sul erigida pelos portugueses, próximo do rio Cunene. Após a travessia deste rio, na região conhecida por Pembe, a coluna bivacou, isto é, instalou-se provisoriamente segundo a prática militar, procedendo, a partir daí, a várias acções de reconhecimento. A expedição tinha como destino final os territórios das tribos Cuanhama (Kwanhama) e Cuamato (Kwamatos), região do Ovampo, com vista à sua submissão, já que os respectivos sobas se recusavam a aceitar a soberania portuguesa. Ora, quando um destacamento dessa coluna composto por cerca de quinhentos homens procedia a mais uma dessas acções de reconhecimento, foi emboscado por forças indígenas desta última tribo, calcula-se que em número dez vezes superior, comandadas pelo soba Tchetekelo, e numa luta corpo-a-corpo, completamente desbaratado. Relatos da época mencionam que, nesse combate, teriam perecido entre trezentos a quinhentos militares portugueses.

    Face a um tal desaire e às consequentes desorganização e desmoralização dos seus efectivos, as tropas portuguesas retiraram, redundando assim num rotundo fracasso aquela campanha.

    Para termos a noção do estado anímico que tal derrota causou no seio das nossas hostes, atrevo-me mesmo a citar, textualmente e a propósito, Velloso de Castro, alferes e ajudante de campo do capitão Alves Roçadas, no seu livro “A Campanha do Cuamato”, 1907:

    “De facto nós, que trabalhávamos, como sempre, em favor da civilização, levando, à força das armas, é bem verdade, mas pela força das circunstâncias, a boa doutrina ao coração dos povos que nas remotas paragens de África ainda se mantêm em rebeldia e opõem tenazmente a sua ignorância e selvajaria à nossa acção benéfica e civilizadora, nós que trabalhávamos em favor da humanidade, acabávamos de sofrer o mais desastroso revés que figura nos anais da nossa história militar colonial.

    Este desastre, onde tantos dos nossos camaradas pagaram com a vida a sua dedicação posta ao serviço da Pátria, precisava de ser vingado; os nossos brios ofendidos precisavam de uma desafronta. Foi no que se pensou pouco depois dos lamentáveis sucessos de setembro de 1904”.

    De referir que, por essa altura, já alemães e ingleses, cientes da instabilidade política e debilidade económica que o nosso país atravessava nos últimos anos da monarquia, com continuação, senão mesmo agravamento no pós-revolução republicana, alegando que negligenciávamos aqueles territórios, não os desenvolvendo como mereciam, e que vínhamos utilizando os nativos como mão-de-obra escrava ou sujeitando-os a trabalhos forçados, conspiravam secretamente contra Portugal, tentando desalojá-lo daquele continente. Aliás, não só estimulavam as tribos autóctones a agir contra os nossos colonos, inclusive fornecendo-lhes material bélico, como chegaram mesmo, a Alemanha e a Inglaterra, a fazer acordos secretos no sentido de partilharem entre si aqueles territórios lusos. Assim que, nos termos desses acordos, Angola ficaria para a Alemanha, que já lá possuía a sua colónia recente designada Sudoeste Africano ou Damaralândia (actual Namíbia) (1884-1915), a confinar a norte com aquele território português. Os alemães tinham todo o interesse em dispor de ligações directas com o mar, para lhes facilitar o comércio com aquela sua colónia. Daí o cobiçarem o controlo daquele território que lhe permitiria o acesso aos portos do sul de Angola. Moçambique ficaria para a Inglaterra.

    Com efeito, tais acordos secretos tiveram lugar em 1898, 1912 e 1913. E a partilha só não se concretizou, dada a circunstância de a Alemanha pretender manter os acordos em segredo, ao contrário da Inglaterra, que chegou a querer publicitá-los, e de, entretanto, ter deflagrado a Grande Guerra, opondo aquelas duas super-potências e que, obviamente, os inviabilizou. O mesmo se passava com o território que a mesma Alemanha ocupara no norte de Moçambique, a designada África Oriental (actual Tanzânia), onde tiveram lugar vários e gravíssimos confrontos militares com tropas portuguesas, especialmente no período da Grande Guerra, como teremos oportunidade de ver, lá mais para a frente.

    (CONTINUA)

    Por: Miguel Henriques

     

     

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