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    Arquivo: Edição de 31-05-2016

    SECÇÃO: Destaque


    Carteirismo e carteiristas

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    "Andava a desgraçadinha no gamanço", estrategicamente posicionada entre a multidão que assistia ao cortejo académico da queima das fitas e preparada para dar início a mais uma arriscada tarefa de surripiar carteiras.

    No dia 3 de maio, Joaquina Gonçalves, ou simplesmente "Quina" carteirista, escolheu a Rua dos Clérigos, no Porto, para seu posto e local de trabalho. Entre as muitas centenas de pessoas que assistiam ao cortejo académico da queima das fitas, marcou a sua vítima. Com um casaco dobrado sobre o braço esquerdo para encobrir a sua mão direita e a bolsa que havia de abrir, foi-se aproximando e num ápice, sacou uma carteira com 25 euros, um terço sagrado, dois santinhos, um porta-chaves de cor azul de motivos religiosos, uma mão de prata em forma de figa e uma cabeça de alho.

    A vítima, Emília Teixeira Vaz, de 71 anos, que orgulhosa e feliz assistia ao desfile da neta, de nada se apercebeu. Mas a polícia conhece "Quina" há já alguns anos e quando a vê, fica atenta aos seus movimentos. Por isso, naquele dia 3 de maio, pelas 17 horas, a carteirista, residente em Ermesinde, decana dos carteiristas de Portugal, com longo e brilhante currículo na arte de bem gamar, foi detida em flagrante delito. Alegou que ia apanhar o comboio na estação de S. Bento, quando se apercebeu de que tinha dado um pontapé em qualquer objeto que lhe pareceu um telemóvel. Viu, depois, que era uma carteira e ia entregá-la à polícia. De nada lhe valeu. Não convenceu ninguém. Os agentes da PSP tinham-na visto a meter os "garfos" na bolsa da vítima e sacar a carteira. Tudo provado com fotografias.

    A vítima apresentou queixa e D. Joaquina foi julgada no dia 18 de maio no Tribunal de Pequena Instância Criminal do Porto. Desmentiu os agentes da PSP que a detiveram. "É tudo mentira. Que Deus me mate, que me pare a pilha que tenho no coração". A juíza não se comoveu e ninguém acreditou na sua inocência. Apesar disso, a idosa senhora não deu sinais de desfalecer nem de arrependimento. São muitos anos de tarimba!

    No dia 25 foi lida a sentença: cinco meses de prisão com pena suspensa por um ano. A meritíssima Juíza entendeu que as anteriores condenações em multa não tinham sido suficientes para a fazer mudar de vida, mas suspendeu o cumprimento da pena de prisão, tendo em conta, designadamente, o facto de viver com dois netos. Mas não deixou de a advertir de que se voltar a ser apanhada a furtar iria para trás das grades. Era a sua última oportunidade. Diz-se que todos os santos têm um passado que nem sempre é edificante, e todos os pecadores têm um futuro. Poderá ser que esta senhora que, não obstante completar 86 anos no próximo dia 24 de agosto, continua ativa e em grande forma - um excelente exemplo de envelhecimento ativo - tome escarmenta.

    O registo criminal de Joaquina Gonçalves não abona nada a seu favor. Em 2003 foi condenada pelo tribunal de Tomar na multa de 360,00 euros, pela prática do crime de furto de carteira e em 2012 foi novamente condenada pelo tribunal de Barcelos na multa de 300,00 euros, pela prática de igual crime. Em 2015, no dia do cortejo da queima das fitas, foi surpreendida pelos mesmos agentes que a gora a detiveram, quando furtava a carteira a uma senhora de 92 anos. Mas como a vítima desistiu da queixa, não foi a julgamento.

    Na Rua Miguel Bombarda, em Ermesinde, onde "Quina " reside, ninguém sabe qual é a sua profissão. Sai de casa todos os dias de manhã e regressa no fim do dia, mas desconhece-se por onde anda. Presume-se que o furto de carteiras tenha sido o seu único modo de vida e que foi com os rendimentos dessa atividade que pagou o apartamento onde mora.

    Por: Casimiro Sousa

     

     

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