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    Arquivo: Edição de 14-03-2014

    SECÇÃO: Crónicas


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    O declínio do Ocidente

    Nas páginas do “El País”, li uma crónica do inglês Timothy Garton Ash, professor catedrático na Universidade de Oxford, em que este escrevia «Chamem-me Oswald Spengler, se quiserem, mas é difícil evitar a conclusão de que os Estados Unidos e a União Europeia não estejam hoje a competir para serem os primeiros a alcançar a decadência. Os dois gigantes da economia mundial estão à beira da bancarrota, do “eurocalipsis” e do “dolarcalipsis”». São expressões apocalípticas da sua economia.

    Isto chamou-me a atenção, porque, em 2004, publiquei, aqui e noutros jornais, alguns textos em que me referia à decadência da Europa, no que dizia respeito aos seus valores perante a invasão islâmica, embora não me referisse aos Estados Unidos, que tinham sido sempre assim e a sua crise económica ainda não era visível. E não há dúvida que a Europa e a América eram o que se chama ainda hoje o Ocidente, a cultura ocidental, hoje, embora rivais, parceiros no processo de globalização económica. Estão no mesmo barco e afundam juntos.

    De facto, Oswaldo Spengler, historiador e filósofo alemão, já escrevia “O Declínio do Ocidente”, em 1918, não pelos motivos atuais, mas pelo pessimismo, depressão e descrença que os horrores da primeira guerra mundial trouxeram à humanidade, nomeadamente ao mundo intelectual, com ramificações no historicismo e, mais tarde, a segunda guerra, ainda mais horrível mas a que Spengler já não assistiu, pois morreu em 1936, embora ainda testemunhasse os seus preliminares com Adolfo Hitler e as suas SA, já no poder.

    Com Spengler, também Arnold Toynbee, William Butler Yeats, Ciryl Connolly, Thomas Man, James Joyce, Alberto Camus, etc., acreditaram no declínio do otimismo histórico e na fragilidade das civilizações.

    Max Weber tinha apreensões semelhantes quanto à Europa moderna, pois, segundo ele, o século XIX privara o homem dos seus deuses, levando a uma anarquia de valores, ilusões e infelicidades com o laicismo adotado. Emile Durckheim, no princípio do séc. XX, referia-se a uma sociedade que, desvinculada das suas crenças e tradições, sofria duma “anomie”, duma desorganização, dum colapso geral da consciência coletiva baseada na religião, família e na pátria, sentido romântico duma identidade nacional e na falta de mitos coletivos. «Estamos a assistir ao começo da barbarização da Europa», escrevia Nicolas Berdyaev, em 1933, e o historiador académico Fredrich Meinecke afirmava: «A razão do Estado não é irracional mas levava a comportamentos bárbaros, só porque Leopold von Rancke, o historiador da Europa, seu mestre, defendia que o Estado sempre defendera a Europa do mau uso do poder». E «a Europa está em quarto minguante», dizia Yeats, em 1936, no ano da morte de Spengler. Passados dez anos, em 1946, Ciryl Connolly escrevia “O Declínio da Europa” e Arthur Koestler, em 1951, afirmava: «Acontece que acredito que a Europa está condenada. Um capítulo da história está a chegar ao fim».

    Um desencanto, um pessimismo decadente, comentários funéreos como Bernard Shaw em Heartbreak House e Back to Methusaleh, «a Natureza a vingar-se da sociedade culta, ociosa e negligente da Europa que fugiu das suas regras». Mas também declarações típicas de pessoas que se acham epígonos, como testemunhas do fim duma era ou duma civilização decadente em que o poder da máquina, da industrialização cedia lugar ao poder da finança na economização do mundo atual.

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    Ortega y Gasset (1930), escreve “A Rebelião das Massas”, não de trabalhadores mas de técnicos altamente especializados, os tecnocratas a quem faltava a cultura integral, sem princípios nem sentido do dever histórico. Uma nova classe social sem história e sem passado. Nada se reconhece do passado, só se reconhece o mundo da técnica, o uso da máquina, dos desportos, da velocidade, do perigo, da adrenalina. Os existencialistas como Karl Jaspers e até Jean-Paul Sartre, com a sua “Náusea”, alinham neste mundo moderno materialista das emoções onde [impera] o desencanto cultural provocado pela hipertrofia da máquina, perda da alma e cultura das massas, expressões estas proferidas “ad nauseam”. Max Ernst consegue exprimir, na sua arte, todo este sentimento nas obras “Bárbaros” e “A Europa depois da Chuva” (1933).

    Karl Popper, o filósofo contemporâneo que definiu a limitação humana e escreveu “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (1943), já denuncia os efeitos do capitalismo e sua contribuição na falência duma sociedade aberta, embora achasse que o sociologismo fosse longe de mais, no seu “absolutismo falibilístico” que não implicava que a procura da verdade fosse errada e que a verdade fosse relativa.

    Após este exibicionismo cultural, um tanto sem nexo, do pós-férias, aproveitando a sinergia dum cérebro descansado em que tudo surge em catadupa, aterremos no campo da realidade atual que, de facto, creio que é um Ocidente em declínio, à beira da bancarrota, e deixemos o pessimismo decadente de Fin-de-Siécle e da “Segunda Guerra dos Trinta Anos”, como W. Churchill chamou ao espaço das e entre as duas grandes guerras, ou seja entre 1914 e 1944.

    A falha de todos os valores e mitos referidos, o livre pensamento sem limite, a própria comunidade europeia pluricultural e plurirracial, onde tudo cabe e tudo se admite, torna-se “anómica”, desprovida de normas, individualista ou egoísta, cada um virado para si, deixando de ser uma sociedade altruísta. De facto, como sinal de decadência, estamos a passar duma sociedade altruísta, de cariz social e humano para uma sociedade, individualista, egoísta, economicista, em que o homem vale menos do que os dividendos das empresas ou a cotação das ações.

    É o «pior dos mundos que já existiram”» como afirmava Ortega y Gasset

    e veio quando a saúde humana é sacrificada à saúde da economia. Para que a economia cresça, corta-se nos medicamentos, na assistência e nos benefícios sociais, uma irracionalidade. Se a economia não estiver ao serviço da humanidade, para que serve? Isto acontece nos tempos atuais do neoliberalismo económico, uma mutilação do liberalismo, que privilegia a economia em detrimento do homem.

    Contudo, hoje, o declínio do Ocidente parece emergir da própria civilização, dos próprios valores que a Europa espalhou pelo mundo, o valor virtual da moeda e da Economia que hoje domina o homem e todo o chamado mundo económico e civilizado. No entanto, no mundo globalizado pela nova economia um novo poder surgiu, que está a provocar, no próprio local de origem, um declínio em que novas potências se afirmam. Aqueles que foram dominados, colonizados e aculturados irão dominar o Ocidente materialista e decadente que está novamente a ser barbarizado pelos novos bárbaros, como afirmou Nicolas Bardyaev na barbarização da Europa. É o fim duma era, dum poder que dominou o mundo conhecido durante tantos séculos, repelindo civilizações e culturas estranhas que o quiseram dominar.

    A menos que algo de imprevisto aconteça, que um salto quântico surja, estaremos agora a contemplar a Morte da Europa como disse André Malraux, o erudito político e académico francês, e eu acrescentaria, dando razão a O. Spengler:.. e também ao declínio do Ocidente.

    Por: Reinaldo Beça

     

     

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