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Edição de 20-07-2022
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    Arquivo: Edição de 12-07-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    Passarada

    Em tempo de crise tudo muda para pior. Falo nas condições do meio ambiente, pois nas organizações sociais os mais desprotegidos são os mais vulneráveis a pagar os insucessos.

    Jamais pensaria que a grande crise económica, que assola Portugal, a Europa e, diria, o Planeta, fosse interferir tanto nas aves do Céu! Como as condições climáticas do norte do globo se alteraram muito, os bandos de estorninhos e tordos começaram a arribar ao Douro mais cedo, ainda com as oliveiras a florir e os cereais sem sementes! Esperamos que as levas de tordos, a dizimarem a azeitona dos olivais, este ano não se verifiquem. As cerejas já pagaram as favas!...

    Ir a Soutelo do Douro às cerejas temporãs e alertado para invasão dos pássaros, pensava, mesmo assim, em matar o desougo, e ofertar outras aos amigos do Porto. Qual quê?! Apenas comi uma, camuflada entre abundante folhagem. A Maria Fernanda só verificou a razia e o solo “estrumado” de caroços dos frutos, e outros pendurados, ligados pelos pedúnculos na árvore!

    O Carlos elucidou:

    – Tentei cobrir uma cerejeira com lonas da azeitona mas, em três dias, a folhagem começou a amarelar. Portanto, era preciso estar alguém a guardar as cerejas. A fome da passarada era tanta que nem respeitaram os espantalhos! O Barrosas chegou a ir para o Cortinhal dar tiros aos estorninhos, mas, ao mandar chumbos para uma cerejeira, outra era atacada... Desistiu!

    Os tempos têm sido tão pródigos para as aves que os ninhos, encontrados na quinta, são muitos. Sim: gosto de os procurar e observar, sem chegar muito por perto ou perturbar. Mas, não contava que cedros plantados aquando do nascimento dos meus filhos acolhessem vários ninhos, de pintassilgo, melro e rola (dita asiática). Um, perto das escadas da cozinha. As pessoas passavam e a ave continuava tranquila no choco!... Se há árvores próprias para ninhos são as oliveiras. Por ter visto um gaio – caso raro, agora – bem procurei o ninho, mesmo nas grandes, mas sem sorte!

    Em Roalde, os gaios eram os salteadores do milho temporão nas terras mais secas. Rasgavam as espigas e comiam os grãos ainda mal formados. Pela mão da avó materna, viúva a viver na nossa casa e apelidada de Mãezinha, assisti à colocação de espantalhos no milheiral da leira da Fonte do Monte, pois no lameiro, junto ao ribeiro, o milho mal espigava. Bonitos eram os bonecos espetados, em paus espalhados pelo campo e outros escondidos, entre as plantas, como se fosse o dono do campo a sachar, mas, mesmo assim, o investir não parava! A própria presença da Mãezinha não surtia efeito, era preciso bater em latas para fugirem em direção às matas próximas.

    No ano seguinte, ajudado pelo paquete dos bois, Zé Pelado, de Fermentões, e tendo observado o aparelho feito pelo Ernesto Nijo, construí uma taramela, para afugentar os gaios do milho, e dar descanso à avó, pois a leira ficava longe do pequeno povoado.

    Lembro bem do fundo da lata, onde as duas bolas de chumbo batiam, acionadas pelo eixo do para vento, e da estaca bem alta, onde foi colocada entre espigas. O vento era muito e constante.

    O tempo do milho temporão da Fonte do Monte – como não tinha idade de ir para a escola –, era dedicado à aprendizagem da natureza. Passava horas, não sei se a ver a minha taramela a funcionar ou a ver os lindos gaios. Andar aos ninhos era outro negócio!...

    (*) jose.gcmonteiro@gmail.comm

    Por: Gil Monteiro

     

     

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