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Edição de 31-07-2020
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    Arquivo: Edição de 30-04-2013

    SECÇÃO: Desporto


    ENTREVISTA COM A COMISSÃO ADMINISTRATIVA DA UNIÃO DESPORTIVA E RECREATIVA DA FORMIGA

    Travessia no deserto do Formiga tem os dias contados

    Há um ano atrás, mais coisa menos coisa, andavam nas bocas do mundo, graças ao surpreendente trajeto percorrido nos campeonatos distritais da Associação de Futebol do Porto (AFP), onde pela primeira vez na sua história marcavam presença. Terminada a - boa - temporada futebolística o céu desabou sobre a coletividade! O timoneiro que guiou a nau do clube ao longo dos últimos seis anos decidiu sair, alegando motivos pessoais e profissionais, e posteriormente, a pouco e pouco, outros seus pares seguiram-lhe o exemplo. A nau ficou então como que à deriva, isto é, sem uma Direção, o que levou a um desaparecimento do mapa desportivo local desde então. Na ausência de uma solução diretiva a coletividade passou a ser guiada por uma comissão administrativa de três elementos, os três últimos resistentes (!), que procuram agora arrumar a casa e abrir novamente as portas do clube à cidade que continua a chamar por eles.

    Esta breve sinopse retrata a atualidade da União Desportiva e Recreativa da Formiga, emblema ermesindense que o nosso jornal visitou este mês de abril, e que junto dos seus responsáveis testemunhou que apesar dos muitos obstáculos que presentemente se atravessam no seu caminho, o popular Formiga tem planos para no futuro próximo regressar ao ativo.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    Contrariamente ao que muita gente possa pensar no seio da nossa comunidade, o Formiga não morreu, está vivo. Quem o diz são dois dos três elementos que compõem a Comissão Administrativa (CA) que por estes dias vai mantendo a porta do clube entreaberta. Francisco Araújo e Joaquim Neto, foram os responsáveis formiguenses (o terceiro elemento da comissão, Paulo Rodrigues, esteve ausente por motivos profissionais) que nos receberam na pequena sede da coletividade, onde o futebol seria o primeiro tema a saltar para cima da mesa de conversa. Ainda fresca na memória de todos está a campanha realizada em 2011/12, a época em que o Formiga decidiu arriscar - pela primeira vez na sua história - participar nos campeonatos distritais da AFP, e para um principiante certo é que as coisas até correram muito bem. «Fizemos uma primeira volta espetacular, como comprova o quarto lugar que ocupávamos na classificação. Antes de começar a segunda volta estávamos a ver que íamos ficar sem 6 ou 7 jogadores - que eram cobiçados por outros clubes - mas no entanto acabariam por ficar, pois mesmo não lhes dando dinheiro, a única coisa que lhes dávamos era um sumo e uma sandes no final de cada jogo, eles gostavam de aqui estar, conseguindo cativá-los com o espírito de amizade que reinava dentro do clube. Tínhamos um ambiente espetacular». Como fazem questão de sublinhar, o futebol colocou o ego do clube lá em cima, e a popularidade deste junto da população - em especial das zonas da Formiga e dos Montes da Costa - crescia de jogo para jogo. «Éramos seguramente dos clubes do concelho de Valongo que mais adeptos levava quando jogava fora de casa. Organizávamos excursões com 70 ou 80 pessoas sempre que íamos fora. Além de um grande espírito de amizade tínhamos uma boa organização. Todas as pessoas se apercebiam do nosso bom trabalho. Sabiam que não tínhamos muito dinheiro, e mesmo assim fizemos um trabalho reconhecido por todos. Davam-nos valor, e estamos em crer que se tivéssemos permanecido no 4º lugar até final do campeonato teríamos subido à 1ª Divisão Distrital, de acordo com a reestruturação feita pela AFP no final da época, e hoje poderíamos estar a jogar com o Alfenense e estar mais próximos do outro clube da cidade que se dedica ao futebol, o Ermesinde. Teria sido espetacular ver o Ermesinde e o Formiga na mesma divisão…». Contudo, do sonho à realidade por vezes o caminho é longo e sinuoso, e o futebol acabou por ser a pedra no sapato do Formiga nos meses que se seguiram ao final da temporada 2011/12. Hoje, Francisco Araújo e Joaquim Neto reconhecem que foi talvez um erro o clube ter--se dedicado exclusivamente ao futebol, até porque diz a história que o Formiga é muito mais do que um clube de futebol. No entanto o desporto rei absorvia muito do tempo dos 12 elementos que compunham a Direção liderada pelo jovem Nuno Ferreira. Recordam que o futebol obrigava-os a ter sempre 10 ou 12 elementos a trabalhar à volta de um jogo todos os domingos. «Em dias de jogo começávamos a trabalhar às 8 horas da manhã e terminávamos às 8 horas da noite. Com isto fomos esquecendo a parte cultural que o clube sempre teve, como as marchas populares, que sempre atraíram ao Formiga muita gente», lamentam agora, de certa forma, ao olhar para trás.

    O futebol foi pois um sonho que saiu caro ao clube. E embora sublinhem que o Formiga nada deve a ninguém, que o saldo da sua contabilidade é atualmente positivo, curto, mas é, o que é certo é que não era sustentável continuar a suportar a modalidade por mais um ano. A conjuntura económica do país assim o dita, pois se no passado recente o comércio vizinho - cafés, talhos, etc. - apoiava o clube com donativos na casa dos 25 euros atualmente esse apoio não chega nem a metade! «Para participarmos num campeonato distrital precisávamos de cerca de 4 000 euros para começar. Depois, ao longo da época eram precisos pelo menos 500 euros mensais para fazer face às despesas, como por exemplo pagar o policiamento dos jogos em casa. Inicialmente tínhamos os cafés e talhos da zona, que nos davam donativos de 25, 30, 50, ou 100 euros que, com mais alguns fundos angariados - o bar, por exemplo, que em dias de jogo originava uma receita na ordem dos 300 euros - iam dando para colmatar essas despesas. Os nossos amigos patrocinadores começaram a reduzir para menos de metade os donativos, o bar a certa altura começou a dar algum prejuízo, e o dinheiro começou a ficar muito certo, e a dada altura começámos a pôr dinheiro do nosso bolso! Perante isto não tínhamos condições para começar uma nova época futebolística com o mínimo de condições de trabalho».

    Dinheiro, ou a escassez dele, foi a principal razão pela qual o Formiga não continuou a sua aventura futebolística, não pela falta de jogadores, pois ainda hoje são muitos os que ligam para o clube a questionar o porquê deste não avançar novamente para a competição, disponibilizando-se a vestir a indumentária formiguense de forma graciosa, apenas pelo prazer de jogar e de viver o ambiente saudável que sempre reinou no clube. Mas… «fizemos contas e vimos que não dava para continuar, e o Formiga decidiu parar».

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    SEM DIREÇÃO

    TUDO FICA

    MAIS DIFÍCIL

    Mas não foi só o dinheiro a causa desta súbita paragem de atividade desportiva do emblema ermesindense. No final da temporada passada o presidente da Direção, Nuno Ferreira, comunicou aos seus pares que por motivos pessoais e profissionais não iria recandidatar-se a mais um mandato. Liderava uma jovem Direção - da qual faziam parte os três elementos da atual CA - há já seis anos, um grupo de dirigentes que arrumou a casa assim que chegou ao leme da coletividade. Liquidaram-se as dívidas, e posteriormente deu-se algum dinamismo ao clube. Nuno Ferreira saiu, mas colocou-se ao dispor dos pares de Direção para ajudar no que fosse preciso. Mas com a saída do jovem dirigente o Formiga não encontrou um novo rumo diretivo. Realizaram-se três assembleias gerais no sentido de encontrar uma nova Direção, mas ao invés disso os sócios foram-se afastando. Os sócios e a grande parte dos pares de Nuno Ferreira, ficando apenas Paulo Rodrigues, Francisco Araújo, e Joaquim Neto, três amigos de longa data que prometeram a si mesmos que o clube não iria morrer. Dizem-se algo cansados, pois não é tarefa fácil guiar um clube com tão pouca gente, e que com uma Direção tudo seria diferente, já que com mais gente era mais fácil trabalhar para reerguer o emblema. «É preciso apoio humano» dizem, ao mesmo tempo que lamentam que os reformados da zona, por exemplo, podiam ajudar, fazer alguma coisa, não só pelo clube mas também por eles, estar mais ativos ao envolver-se numa atividade, mas preferem estar quietos no seu canto.

    FUTURO PASSA

    POR CRIAR BASES

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    Mas com ou sem apoio das gentes da Formiga - e arredores -, com ou sem Direção, o trio que dá vida à CA está disposto a ressuscitar o clube. Querem começar do zero, criar bases, para voltar a recolocar o Formiga em atividade. E criar bases passa no imediato por arranjar uma nova sede, porque a atual além de não reunir as mínimas condições para que os sócios possam conviver, por exemplo, vai sofrer um aumento no que à renda mensal diz respeito. «Não podemos pagar mais do que aquilo que pagamos. Como tal queremos arranjar um espaço aqui próximo, próximo das nossas gentes, das pessoas que nos ajudam, pois não faz sentido arranjarmos uma sede fora da Formiga. Nós somos daqui, somos bairristas com orgulho, e esta é a nossa zona». Construir bases passa também por atualizar a quotização dos 132 associados atualmente filiados - que com a paralisação do clube não viram as suas quotas ser regularizadas - e criar um plano de atividades anual para concorrer a futuros subsídios concedidos pela Junta às coletividades locais. «Vamos arrumar a casa. Queremos ter bases para arrancar, e não desistir no ano a seguir por falta de condições».

    E o regresso à atividade no futuro imediato passa pelas marchas populares de S. João, para muitos a essência do Formiga. Recordam que as marchas sempre movimentaram muita gente à volta do clube, e ainda hoje outras coletividades que durante anos rivalizaram com os formiguenses nos concursos de marchas sanjoaninas dizem que são estes que sempre deram vida a esta atividade popular. O próprio poder autárquico reclama o regresso do Formiga às marchas, porque sem eles a coisa deixou de ter graça. «Mas, vamos ver. Vamos pensar e decidir nos próximos dias se vamos ou não fazer as marchas este ano. Temos algum dinheiro para começar a trabalhar, não devemos nada a ninguém, mas primeiro queremos arrumar a casa, e apesar de querermos recuperar as pessoas que todos os anos se juntavam a nós nas marchas sabemos que fazer esta atividade tem custos elevados, e não queremos ter prejuízos».

    Sem saber ainda se vão ou fazer regressar uma das bandeiras do clube - precisamente as marchas sanjoaninas - os elementos da CA que guiam este emblema com 44 anos de vida terminaram esta pequena conversa com o nosso jornal com um aviso à comunidade: «O Formiga está vivo, e brevemente vai aparecer com uns eventos. Mais cedo ou mais tarde vamos voltar».

    Por: Miguel Barros

     

     

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