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Edição de 30-06-2020
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    Arquivo: Edição de 10-10-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    Sonhos e Magia

    Hoje partilho uma aprendizagem que para mim é digna de registo. Foi-me dada por um menino de origem franco-portuguesa, neto de um tio meu que se casou com a Annie, uma francesa que atualmente tem mais de 50 anos, mantendo sempre o ar franzino de menina lhe conhecemos e que aprendeu a amar Portugal e os portugueses.

    A criança que menciono tem 9 anos e este ano teve oportunidade de vir de férias a Portugal, pela segunda vez (a primeira era ainda bebé de colo), juntando-se à sua família em Sande, a terra onde em 1932 nasceu o meu pai, que mais uma vez teve a alegria de receber o abraço do seu irmão mais novo, o “Papi” do Clément.

    Este ano, na visita que nos fez verifiquei que estes tios se sentiam ainda mais acompanhados por trazerem parte da sua família que ainda não conhecíamos e que foi gerada lá nas terras de Moliére.

    Foto GL
    Foto GL
    No convívio em família que organizamos para os receber, a uma dada altura o meu tio, com os olhos húmidos de emoção tirava do bolso um papel que o seu neto lhe tinha escrito com uma reflexão que fez numa das tardes em que ficou a apreciar a paisagem. Aí ele maravilhava-se com as casas originais, por vezes com pedras ovais, com as árvores de fruto, como as figueiras, com a simpatia das pessoas.

    Pedi aos seus pais para registarem em foto esta forma tão simples de identificar Portugal e os portugueses, porque me dei conta de que, às vezes, até nós nos esquecemos de quem somos e de como somos e por hábito fixamo-nos sempre nos outros, que orgulhosamente nos representam “lá fora”.

    Se calhar, aqui, decido citar como exemplo o emblemático e polémico José Mourinho, apelidado de arrogante e convencido e no entanto, quando se assistiu à sua despedida do Inter de Milão e deixava o estádio e se deu conta que “um dos seus” estava encostado a uma parede e chorava emocionado, mandou parar o carro em que seguia e veio atrás dar-lhe um abraço, que também o emocionou. Todos nós temos um lado humano e não esquecemos o gesto simples mas importante: a ternura de um abraço.

    Poder-se-ia também falar de muitas outras pessoas de talento que orgulhosamente ostentam a nossa bandeira além-fronteiras mas vou optar por ficar “entre portas” para deixar registada a coragem de uma portuguesa anónima que mora em Ermesinde e simbolizará todas as mulheres e homens de igual coragem – aos 34 anos ficou viúva, com dois filhos pequenos para criar, sem emprego e sem casa que a abrigasse. Valeu-lhe o amor da família – os pais que lhe abriram as portas e os irmãos que se empenharam em criar-lhe as condições básicas para que ela pudesse começar tudo de novo: um novo lar para si e para as suas filhas. Continua a desempenhar o papel de mãe e de pai e arranjou um emprego que tem caráter provisório. Uma das coisas a que faz referência e que lhe serviu e serve como “vigas mestras” são também os amigos, que diz nunca ter pensado serem tantos e tão bons. Porque pertence ao grupo de pessoas que cria as suas próprias oportunidades, resolveu não se “acobardar” ou deter perante a vida e sabendo que em fevereiro de 2013 ficará de novo desempregada, deu bom uso à formação que fez em Animação Sócio-Cultural e a par com outra colega que se tornou parceira neste projeto decidiram... vender alegria. Neste trabalho em part time com as suas mentes criativas, com a sua habilidade, ousadia e dedicação a que acrescentam uma dose muito grande de imaginação, fabricam e distribuem “pedacinhos de felicidade” a quem as contrata para animar e pintar de magia as festas, reuniões de família ou outros eventos com pinturas faciais, modelagem com balões e “transformações” adaptadas ao tipo de público a que se destina o seu desempenho, que sustentam numa base elevada de profissionalismo.

    Utilizam muito a animação de rua para se promoverem além do site “Pintarmagia.com”, que criaram no facebook para divulgação das suas atividades. Quando me dizem que sou corajosa porque me atrevi a erguer-me do chão, eu penso sempre que as pessoas precisavam de conhecer tanta gente que eu tenho a honra de conhecer e que constroem alguma coisa do nada, ensinando-me tanto daquilo que não sei.

    Pessoalmente, só me compete dizer: Obrigado Anabela e Sara!, “artistas” de sonhos e de magias, por esta grande lição de coragem, provando desta forma, que importante é mesmo não cruzar os braços e lutar. Acima de tudo, acreditar em potenciais que, às vezes, muitas vezes, nem nos damos conta de que existem dentro de nós também porque, se calhar, será mesmo a “necessidade que aguça o engenho”.

    Também por mim e como portuguesa, agradeço-te Clement, por me lembrares de como é “Le Portugal”, a tal chuva de maravilhas que não temos tempo de apreciar pois se calhar só olhamos para os “elefantes brancos” e esquecemo-nos de apreciar coisas tão simples como os pequenos pirilampos que juntos, se calhar, iluminariam uma parte significativa do nosso mundo e também, se calhar, alguns dos nossos caminhos.

    Por: Glória Leitão

     

     

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