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    Arquivo: Edição de 17-08-2012

    SECÇÃO: Crónicas


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    CRÓNICAS DE LISBOA

    Turista não é cego!

    O que atrai os turistas estrangeiros ao nosso país? Respondendo a muitos inquéritos que têm sido efetuados, dizem que é também um certo exotismo, comparando-nos a um país do terceiro mundo. Depois, muitos acabam por ficar surpreendidos de que, afinal, o nosso país tem muito mais pontos de interesse, para além das praias e do sol, e acrescentam que para um país pequeno essa variedade é significativa, mesmo desconhecendo a beleza da Madeira e dos Açores. Assim é de facto, e quem conhece todo o país pode confirmá-lo, sem falsos patriotismos. Contudo, Portugal poderia ser um paraíso se soubéssemos cuidar e preservar melhor as nossas jóias turísticas e naturais, mas, infelizmente e por esse país fora, encontramos tanta coisa que nos deveria envergonhar e, acima de tudo, em estado de degradação ou de agressão da natureza.

    A Torre de Belém, que a UNESCO classificou em 1983, como Património da Humanidade, faz parte do roteiro turístico e é visita obrigatória dos cidadãos estrangeiros e nacionais que demandam Lisboa. Além da sua beleza arquitetónica e do seu simbolismo histórico (foi construída na era das Descobertas – no século XVI – e considerada na época de extrema importância na defesa marítima da cidade), está também implantada num local que tem o seu encanto e valor histórico e cultural. O amplo terreiro, nas suas costas, que era normalmente relvado, tem sido utilizado para diversos eventos ou utilizado por jogadores da bola que ali disputam renhidas partidas aos fins de semana. Assim e sem manutenção, obviamente que o relvado não resistiu e ficou completamente pelado, dando um ar de deserto ou de terceiro mundismo, incluindo o lixo na pequenina praia/lago existente no sopé da torre. Dói a alma e envergonha o orgulho nacional ver o estado em que está aquele espaço em redor dum dos ex-libris de Lisboa. O que pensarão os turistas e que frustração sentirão por aquele cenário em pó seco e sujo? Que imagem levarão eles de nós e vão transmitir aos seus amigos eventualmente interessados em visitarem Lisboa e o país? É assim que se pretende que a indústria do turismo seja um importante fator da nossa economia, presente e futuro para Lisboa e todo o país? O turismo não pode assentar apenas no sol e no azul brilhante que encanta os visitantes, porque “turista não é cego” e sabe avaliar o custo vs benefício quando decide escolher um destino turístico. Vendemos “gato por lebre”?

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    Se Lisboa e muitas zonas do país têm um clima seco e quente, não poderemos ter a veleidade de construir relvados e jardins viçosos, pelo que devem ser adotadas outras formas alternativas de decoração e de jardinagem dos espaços públicos, mas que embelezem os locais, afinal as nossas minas de ouro turísticas. Neste caso, como exemplo, de quem é a responsabilidade pelo estado degradado do terreiro? Da Câmara de Lisboa? Consultando o sítio da Câmara, por ali se pode ler que, já há dois anos (!!!) «a Câmara está a preparar uma intervenção de requalificação do Jardim da Torre de Belém (...). O projecto de arquitectura paisagista está em conclusão e foi sujeito a avaliação prévia de intenções pelo IGESPAR que não levantou objecções ao proposto pela CML. O início da intervenção está previsto para os próximos meses». Escreveu ainda a Câmara que vai dotar o espaço com as condições para a realização dos diversos eventos semelhantes ao passado, mas será que aquele espaço deve ter essa utilização, sempre com efeitos de degradação, ou, ao invés, ser um local para desfrutar pelos turistas e habitantes de Lisboa, na complementaridade dos monumentos existentes na zona? Já decorreram dois anos e nada foi feito, aliás na linha da típica atitude portuguesa! Todos os dias por ali passam milhares de turistas!

    Felizmente que há, por esse país fora, excelentes exemplos de preservação, renovação e de conservação do património cultural, monumental e paisagístico, mas este mau exemplo do pelado jardim da Torre de Belém não é único nas nossas cidades e vilas, mas acaba por dar mais nas vistas do que outros maus exemplos, porque a Torre de Belém é uma das fortes imagens do nosso património e, obviamente que o impacto do desleixo faz-se sentir em todos os que visitam a zona. O setor do turismo é vital para a nossa economia, mas se não soubermos cuidar dos nossos tesouros, os turistas procurarão outros destinos. Este é um esforço de todos e não apenas das autoridades. Sinto orgulho quando observo o estado de satisfação dum turista, mas vergonha pelo contrário, porque, afinal, não desejamos que nos vejam como um país do terceiro mundo, ou não é assim?

    Por Serafim Marques (economista)

     

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