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Edição de 30-09-2020
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    Arquivo: Edição de 05-04-2012

    SECÇÃO: Crónicas


    CRÓNICAS DE LISBOA

    A morte da Rua Direita

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    Naquele tempo, a “rua direita”, fervilhava de vida, porque ali tudo se podia comprar e a que também afluíam os habitantes das aldeias limítrofes. Estes hábitos eram comuns em muitas da nossas cidades e vilas, pois quase todas tinham, uma “rua direita”, ou uma rua principal, na sua toponímica. Descer ao “centro histórico” e percorrer a rua direita, mesmo que nada se comprasse, era um ritual, tal como hoje se faz aos modernos centros comerciais, porque ela era uma ”montra comercial”.

    As condições sócio-económicas, no nosso país, foram-se alterando, mais acentuadamente a partir da década de setenta, e as cidades, não cabendo no centros históricos, a que a “rua direita” pertence, foram transbordando para a periferia, nascendo enormes urbes. O aparecimento dos primeiros supermercados e depois os “hiper” e centros comerciais, foram provocando, lentamente, a morte no comércio tradicional de rua, pelo que hoje a “rua direita” assemelha-se a um cemitério urbanístico, sem vida e com muitas lojas e prédios devolutos e em estado avançado de degradação. Este cenário, provoca, nos mais antigos, uma grande tristeza, porque nada foi ou é feito, salvo raras e honrosas excepções. O tempo não volta para trás, mas é imperioso que esses centros históricos das cidades, muitos eles de elevada riqueza histórico-cultural, sejam revitalizados e não continuem a ser um triste e feio “postal ilustrado” das nossas cidades. Essa tarefa cabe a todos, desde os proprietários, autarquias e governo central e dar vida àqueles espaços traria muitas vantagens para a uma vida citadina mais humanizada. Espera-se que a lei do arrendamento, projecto recentemente aprovado, venha revitalizar as zonas velhas das nossas vilas e cidades, fixando as pessoas a essas zonas citadinas.

    As alterações verificadas nos hábitos dos consumidores foram, simultâneamente, causa e efeito do aparecimento das grandes superfícies comerciais, cujos grandes grupos económicos descobriram a “mina de ouro” no comércio e na apetência consumista do povo português, embora a crise actual tenha refreado o movimento expansionista daquelas cadeias, na ânsia destes em “comerem as migalhas” sobrantes e dando a machadada final no comércio tradicional, o grande perdedor das alterações ocorridas. Muitos desses comerciantes, não souberam antecipar ou acompanhar as alterações, embora numa luta muito desigual, pois esta tem sido uma guerra de “David contra Golias”, e dificilmente poderiam evitar sozinhos a morte do comércio tradicional. Esta dura realidade verifica-se também já nos bairros (mais) novos das cidades onde as falências e o encerramento de lojas é assustador. Em contra ciclo, crescem o número de lojas chinesas pelas nossas vilas e cidades. Aos pequenos comerciantes, os mais ousados e preparados, resta-lhes aproveitar as sobras do comércio das grandes superfícies, mas muitos deles ainda não entenderam isso. Apostar, por exemplo, no comércio de proximidade e num serviço personalizado aos seus clientes, mas é necessário que saibam utilizar técnicas de comércio que ultrapassem o empirismo antigo e a falta de preparação para uma realidade que é bem diferente da do passado. Assim, muitos deles, herdeiros dos antigos lojistas ou aqueles que se atiram para o negócio, porque a sua ambição pessoal é serem patrões, rapidamente caem na falência, perdendo os anéis e deixando dívidas dessa aventura para a qual não souberam adquirir saberes e regras básicas para um negócio, por exemplo, capital adequado, estudo de mercado, conhecimentos do ramo, etc. As atitudes de muitos deles, em alguns casos, em vez de conquistarem clientes, afastam-os, pelo que os números do desemprego no comércio e as falências é assustador e que as actuais medidas de austeridade em nada favorecem a luta desses resistentes.

    Mais do que a tristeza pela morte das “ruas direitas”, é o perigo e a má imagem que representa aquele abandono, com reflexos também no turismo - noutras cidades europeias, podemos verificar a recuperação e preservação dos centros históricos – e de que a sociologia urbanística das nossas cidades e vilas foi profundamente alterada, com reflexos no modo de vida das populações, isto é, ruas desertas em oposição a megalómanas “catedrais de consumo”, nas quais famílias inteiras consomem dinheiro e tempo, vivendo a ilusão de novos ricos, apesar da quebra do poder de compra estar a atingir também essas “catedrais” do consumo. Esta realidade talvez sirva de mote para que muitos hábitos e atitudes mudem, incluindo a revitalização urbanística das zonas históricas e o “regresso” do espírito das “ruas direitas” das nossas cidades e vilas.

    Por: Serafim Marques

     

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