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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 10-09-2011

    SECÇÃO: Crónicas


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    A vida e a sua lógica ou a falta dela

    Dias passados fazem anos, no frio rigor da matemática, mas não é possível somar o que está dentro dos dias porque cada um difere de todos os outros, da mesma forma que os humanos, pertencendo embora à mesma espécie, possuem fisionomias distintas, idiossincrasias diversas e reagem de modos desiguais e até divergentes perante as circunstâncias que, em cada instante, os rodeiam e segundo os valores e normas por que a sociedade se rege.

    José Saramago, a justificar a sua obra “O Homem Duplicado”, dizia que a ideia para escrever esse romance ter-lhe-ia surgido numa certa manhã, frente ao espelho, em forma de interrogação: «e se existisse alguém exatamente igual a mim?». Pergunta retórica, é claro, porque bem de mais ele sabia a improbabilidade de que tal viesse a ter lugar. A aparente incongruência justifica-se porque entre a vida real e a literatura que é suposto refleti-la existem disparidades, ninguém podendo garantir que uma sobreleva a outra e se apresenta mais surpreendente. Se as narrativas devem obedecer à lei da verosimilhança, a realidade vai, com frequência, para além do horizonte da compreensão humana. No caso em apreço, a ciência garante que não existem duas pessoas exatamente iguais e tal certeza conduziu à identificação dos indivíduos pelas suas impressões digitais. Essa identificação já era utilizada há séculos em lugares como a Mesopotâmia, o Turquestão, a China, o Japão e outros, como nos ensina a Wikipédia. Foi introduzida na atividade forense como meio de prova em 1902, na França, passando, algum tempo depois, a ser procedimento corrente no deslindamento de questões de âmbito judicial. Outras técnicas como a análise da íris e os testes de ADN, bem mais recentes, baseiam-se em idêntica presunção. Mas… e se, um dia, se descobrir que, também para esta regra há uma exceção (ou mais)? Faz parte da natureza da ciência a possibilidade de ser desmentida. Não nos esqueçamos que um princípio, cientificamente atestado, resulta de uma teoria que os dados coligidos e, até àquele momento, disponíveis comprovaram. Se, no futuro, os dados se revelarem falsos, débeis ou insuficientes, o caminho que conduziu ao estabelecimento daquele princípio terá que ser abandonado, proporcionando o surgimento de outra(s) hipótese(s) que, após novos, abundantes e diversificados dados reunidos, testados e comprovados, dá (dão) lugar a uma nova teoria. Esta, para se afirmar, terá que obedecer a idênticos procedimentos de verificação e demonstração. No que respeita à correspondência física até os gémeos univitelinos, que o comum das pessoas é incapaz de distinguir, não enganam os olhos e o coração das mães, e, em breve, os restantes membros da família, os parentes, vizinhos e amigos. Por mais que se assemelhem, cada qual tem as suas características individualizantes. Ao longo da minha carreira docente, tive como alunos vários pares de gémeos que só diferenciava pelos lugares que ocupavam na sala de aula e por aspetos exteriores – peça(s) de roupa de cor diferente, um tipo de penteado para cada um, qualquer adereço que a algum deles faltava … – regra que era quebrada no caso da Cláudia e da Estrela porque a primeira tinha um sinalzinho preto no lado direito da face. Eram diferentes até nas capacidades cognitivas. Não resisto a lembrar que fui professor de dois rapazes gémeos na Escola Preparatória de Ermesinde. Tinham fraco aproveitamento mas forte ligação afetiva entre si. Contudo, um deles tinha maiores dificuldades do que o irmão. Era habitual proceder-se à autoavaliação, numa das últimas aulas de cada período letivo. Considero que, nesta idade, os alunos costumam ser transparentes ao analisarem o próprio rendimento. Ambos fizeram uma apreciação bastante detalhada e honesta do respetivo desempenho. Um deles tinha possibilidades de transitar de ano, atendendo à sua performance na disciplina de Português ou de Língua Estrangeira e às avaliações já efetuadas e confirmadas nas aulas das restantes disciplinas; o irmão considerava que não tinha condições de obter a passagem. Na reunião final do Conselho de Turma, a respetiva diretora comunicou aos colegas que o miúdo com melhores níveis tinha ido pedir-lhe que o reprovasse para continuar junto do irmão. Tendo em conta que até o mais fraco tinha possibilidade de recuperar do atraso no ano seguinte, que ambos eram cumpridores e ainda muito novos, o Conselho entendeu por bem dar passagem aos dois.

    Algumas crianças despertam cedo para a compreensão da vida. Mal fizera quatro anos, a Ana Lúcia surpreendeu-nos com este raciocínio: «os bebés são como os dias, antes de nascerem ninguém sabe se vão ser meninos ou meninas e os dias ninguém sabe se vão ser de sol ou de chuva». A idade ainda não lhe consentia alcançar outras dimensões da questão, porém, quanto aos mais crescidos, a apreciação coloca-se em patamares vários. Homens ou mulheres pensam, sentem, opinam e agem de maneiras personalizadas, mas a natureza foi mais além e deu a cada ser humano a capacidade de, em cada momento, revelar-se de formas distintas, alterando as suas atitudes e procederes e expressando-os tanto oralmente como na escrita, sobretudo nesta. O caminhante desenvolto que pisa o chão de terra húmida deixa nítido o trilho dos seus passos, mas não será capaz de os reproduzir, com naturalidade e exatidão, ao repetir o mesmo percurso. Pois, o mesmo acontece a quem expõe oralmente o seu ponto de vista: se o repetir várias vezes, talvez transmita sempre a mesma ideia mas fá-lo-á, com absoluta certeza, recorrendo a palavras e construções frásicas diferentes. A semelhança é ainda mais evidente para quem escreve um texto: escrito e revisto, tornar-se-lhe-á impossível reconstruí-lo ipsis litteris mais adiante, na ausência do trabalho anterior, o mais certo será que, após as primeiras frases, a linha de orientação semântica já seja outra, que as palavras o conduzam por outras vias.

    Aqui regressamos à literatura para citar Fernando Pessoa no poema Autopsicografia: « O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente». Os estudiosos analisam o poema pessoano de muitas maneiras, não se esquecendo da sua propensão para o esoterismo e, por via disso, à chamada “escrita automática”. Como dizia o Professor José Augusto Seabra, «todas as análises são válidas mesmo as que podem parecer absurdas». Aqui pretendo considerar que a denominação de poeta cabe a cada um de nós num dado instante porque nós somos vários, dependendo dos condicionalismos circunstanciais e das variações psicossomáticas. «De poeta e louco, todos temos um pouco», assim diz o povo. Para conhecermos os outros é preciso que nos conheçamos antes a nós próprios. E como havemos de sentir a dor que o outro manifesta se o próprio não leva a sério «a dor que deveras sente»? O que escreve usa de fingimento até quando a sua dor é verdadeira. «E os que lêem o que escreve/Na dor lida sentem bem/Não as duas que ele teve/Mas só as que eles não têm». Provavelmente, quem lê experimenta a emoção daquele que escreve mas não comunga das suas dores. Sente as que ele não tem e, por isso, também é fingidor. «E assim nas calhas da vida/Gira, a entreter a razão/ Esse comboio de corda/Que se chama coração». Embora razão e sentimento sejam processados pelo cérebro, foi crença geral, durante séculos, que os sentimentos eram gerados no coração e, dessa ideia falhada, inscreveram-se na linguagem expressões como: «ter bom coração (coração de ouro)» ou «ter coração de pedra» consoante alguém manifesta bons ou maus sentimentos nas suas atitudes e procedimentos e ainda inúmeras outras referências a esse órgão importante para a vida humana. Fiéis a essa ideia, as emoções expressas no poema entretêm o que a razão determina. Em mensagem video que circula na Internet sobre a civilização Maia e os avanços científicos que este povo tinha alcançado, o texto que a acompanhava dizia, a dado passo: «escolha amar, siga a sua intuição e não o intelecto. Siga o seu coração, o seu desejo ardente interior. Vá com o fluxo». Parece, assim, que emoção e razão seriam oponentes, mas não parece que tal fosse a opinião do poeta que não estabelece um contraste entre os dois, antes um engano porquanto uma e outra são indispensáveis nas relações humanas e no bem estar individual e social.

    De igual sorte, os seres humanos, ao procurarem a sua lógica de vida, foram estabelecendo categorias de fácil compreensão como a contagem do tempo, o escalonamento das atividades a desenvolver e as regras cuja observância deve imperar nos planos pessoal e social. Poderíamos, assim, crer que a nossa natureza, à partida desigual em tantas coisas, tenderia para uma uniformidade de pensamentos, ações e atitudes, criando a ilusão de que estaríamos, continuamente a repetir--nos. Tantas vezes ouvimos dizer e, porventura nós próprios o dizemos: «os meus dias são todos iguais» o que de maneira nenhuma corresponde à verdade. Costumo acordar sempre quando o relógio marca as 7 horas, faço a minha higiene, tomo o pequeno-almoço e vou caminhar durante uma hora, regresso, tomo banho e mudo de roupa, leio e escrevo até às treze horas. Enquanto almoço, ouço as notícias na televisão. Em seguida, ocupo--me novamente com leitura e escrita. Às dezassete horas faço uma pequena refeição intercalar e retomo o contacto com as revistas, os livros e o computador até às vinte, hora de jantar e ouvir as mesmas (?) notícias da hora do almoço. Deito-me às 22 horas. No entanto, este horário tipo vai sofrendo alterações conforme estejamos em tempo de aulas ou em período de férias escolares, se tiver visitas, se for necessário efetuar pagamentos, se tiver que fazer compras, se… Habituei-me a caminhar pela cidade, percorrendo ruas, atravessando praças e pequenos espaços ajardinados, aqui cumprimento um amigo; mais adiante, e sem me deter, foco as capas dos jornais expostos à porta de uma papelaria; tento não ser obrigado a parar diante do semáforo; ouço o relógio da igreja que toca de quinze em quinze minutos; no rebordo de uma janela um gato angorá está sentado numa atitude simultaneamente altiva e de fleumática tranquilidade como um filósofo oriental; atrás de um portão de barras verticais paralelas, em ferro, um cão ladra furiosamente à minha passagem – dizem que os cães ladram a quem não tem dinheiro! – ; num largozinho, três ou quatro pardais vão debicando sabe-se lá o quê, no asfalto, erguem a cabeça num sentido e noutro nervosamente, perscrutam em redor, esvoaçam, retomam a procura de alimento… No dia seguinte, quase nada se manteve: por conveniência, alterei um troço do itinerário, encontrei pessoas diferentes, os pardais foram para outras bandas, o gato filósofo não apareceu mais e o cão fizera voto de silêncio.

    Se os dias fossem iguais, não existiria alegria nem tristeza, a vida igualaria a morte.

    Por: Nuno Afonso

     

     

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