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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 15-06-2011

    SECÇÃO: Opinião


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    Não acertamos o passo

    Vivemos o tempo próprio que sempre ocorre a seguir a um acto eleitoral, qualquer que ele seja: presidenciais, legislativas, autárquicas e até mesmo, (embora com menos intensidade) europeias. Logo no mesmo dia, ou na manhã seguinte folheando o jornal da nossa simpatia, confrontamos os resultados finais com as sondagens, alegramo-nos com os resultados que nos sejam favoráveis, lamentamos as derrotas, quer fossem ou não esperadas, culpamos os abstencionistas, e de novo lá estamos a falar nos eleitores fantasmas, computados pelos menos exigentes em cerca de 750 mil, número que se eleva para um milhão na versão de outros analistas, exercício acompanhado de ser preciso limpar os cadernos, mas que nada é feito para não prejudicar os lobbies político-partidários.

    Contudo, a discussão passa imediatamente para outro patamar: quantos ministros e secretários de Estado terá o novo executivo, quem ganhará nas negociações partidárias para definir a sua estrutura e respectivos titulares, avançando-se que se um dos negociadores é determinado o outro é duro na defesa das suas propostas. E, por isso, grande é a expectativa de saber se teremos dez ou mais ministros, se a agricultura terá a dignidade de ser tutelada por um ministro, se o “tsunami” das privatizações atingirá a RTP e a CGD, etc..

    Todavia, qualquer que venha a ser a resposta a estas interrogações, certo é que no mesmo dia em que o novo governo assuma funções, ou o mais tardar no dia seguinte, o primeiro-ministro já terá de se apresentar aos seus colegas europeus para os ouvir pela primeira vez como um inter-pares e estes, certamente, não deixarão de aproveitar a ocasião para o bombardearem com perguntas quanto às medidas que tenciona adoptar para cumprir, rápida e religiosamente, a pesada receita negociada (imposta?) pela “Troika”: Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu. Confesso que não gostaria de estar na pele de Passos Coelho e, por isso, desejo-lhe os maiores sucessos na sua estreia, para seu prestígio e benefício de Portugal e dos portugueses.

    Andamos seis ou mais anos a “encanar a perna à rã”, afirmando permanentemente a necessidade de fazer reformas sem as concretizar; a gastar recursos financeiros que a economia não gerava; a avançar com projectos de obras públicas megalómanas afectando biliões de euros subtraídos aos sectores reprodutivos; mantivemos, e sempre que as circunstâncias o permitiram, engordamos o Estado com adiposidades em sectores que não na saúde, na educação ou na justiça, privilegiando a chamada máquina administrativa e os órgãos de soberania, e tudo corria às mil maravilhas para os políticos e seus adesivistas (empresas e boys vivendo do OE) até ao momento em que os credores começaram a desconfiar da nossa capacidade de pagar o capital emprestado e os juros e, seguindo recomendações de quem tem como função (Agências de Rating) alertar os investidores para os riscos que incorrem em cada operação financeira, elevarem as taxas de juro para níveis considerados insuportáveis, encetando, ainda, alguma parcimónia na compra dos títulos da dívida soberana portuguesa.

    Tocados os sinos a rebate, eis que o marasmo é substituído pelo excesso de velocidade imposto pela “Troika”, exigindo que façamos em poucos meses coisas que deveriam ser feitas sim, mas com tempo adequado para que as soluções produzissem os objectivos definidos e não qualquer coisa bem diferente e mais gravosa para o estado do país, para as suas finanças públicas e para o património nacional.

    De afogadilho, teremos de desanexar dos bens públicos, a preços de saldo, participações detidas na EDP, REN, TAP, BPN e todas as golden shares, perdendo com tudo isto rendimentos contributivos para o OE e qualquer controlo em empresas de sectores críticos da economia e independência do país. E, se Paulo Portas não tiver força para o impedir, iniciar-se-á a privatização da Caixa Geral de Depósitos. Primeiro, com o argumento de que apenas será alienada uma parte minoritária, mas ficando, calculistamente, a porta aberta para privatizar o restante com o argumento de que é necessário reunir capitais para atenuar a dívida pública.

    Como se constata, não somos capazes de acertar o passo na gestão da coisa pública. Ou andamos a dormir anos e anos, ou nos propomos fazer em poucos meses o que a prudência aconselharia que demorássemos mais tempo, esperando por melhor ambiente.

    E, não menos preocupante, é a sensibilidade que temos que no fim do processo, quando já tudo tiver sido vendido, quando os apoios sociais tiverem voltado ao que eram à época da primeira metade do século XX, quando os trabalhadores experimentarem novamente os sinais de escravatura, quando a Segurança Social abrir falência atirando para a miséria milhares e milhares de cidadãos com idades que não lhes permitirão obter rendimentos pela via do trabalho, o país ver-se-á obrigado a declarar a bancarrota e os credores a aceitarem a reestruturação da dívida se quiserem receber algum. Os gregos talvez nos precedam, mas Espanhóis não deixarão de nos acompanhar e Alemães e Franceses acabarão por se verem metidos no mesmo “buraco” e, então, ou acaba o sonho da comunidade europeia ou se procede à eliminação de débitos e créditos entre os países comunitários, começando tudo de novo com maior rigor e controlo.

    Por tudo isto, é que defendo que os culpados políticos que nos empurraram para este assustador abismo deveriam ser demandados criminalmente, aliás a exemplo do que actualmente acontece na Islândia, onde o ex-primeiro-ministro está a ser julgado no Landsdómur, acusado de ter provocado o naufrágio financeiro do seu país no período compreendido entre Janeiro de 2006 e Fevereiro de 2009, lapso de tempo em que exerceu as correspondentes funções. Se seguíssemos o exemplo dos islandeses, talvez que nos livrássemos de novos “Sócrates” que a generosidade portuguesa não impedirá de forjar.

    Em Portugal é tudo “português suave”. Por alguma razão o nível de vida dos nórdicos é bem superior ao nosso. Daí que, talvez não tivéssemos muito a perder se, no final dos processos em curso na Islândia e em Portugal, relacionados com a dívida soberana, empresas, trabalhadores e pensionistas vivessem em igualdade de condições. Eu sei que é um sonho mirífico. Mas valeria a pena que, colectivamente, pensássemos e implementássemos medidas que nos tornassem semelhantes aos europeus nórdicos.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

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