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Edição de 31-10-2020
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    Arquivo: Edição de 30-03-2011

    SECÇÃO: Crónicas


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    O tempo ontem e hoje

    Dezassete anos é uma vida, comadre!» – dizia o tio António Caetano à minha mãe, lamentando a ausência do meu pai em terras brasileiras. Ela não fazia comentários mas demonstrava a sua resignação com um «que se há-de fazer? Deus é quem manda.». A concordância implícita na forma não revelava qualquer passividade nos comportamentos. Ambos sabiam que, embora voluntariamente aceite, lutavam, cada um a seu modo, para que a “separação” não fosse longa. Na verdade, foi demasiado longa.

    Nem sempre o transcurso do tempo é encarado do mesmo modo. Para os jovens os anos custam a passar; a geração seguinte não detém o pensamento em considerações tais, que a vida exige entrega absoluta na independência, constituição da própria família, e na construção do futuro, preparando, simultaneamente, o futuro dos filhos; os mais idosos referem que o calendário lhes pregou uma grande partida quando, ao lembrarem os grandes marcos da sua vida, concluem: «parece que foi ontem!».

    Dezassete anos é o tempo de crescer e de atingir a maioridade legal; pode ser o período necessário para lutar pelos grandes objectivos que qualquer pessoa se propôs alcançar; a partir de certa idade será, porventura, um limite para atingir metas importantes mas não necessariamente fundamentais porque, no dizer de António Gedeão, «o sonho é uma constante da vida».

    Essa ou outra marca qualquer é importante quando faz parte de um projecto de vida. Se é projecto, tem objectivos. E, como alguém dizia e outros citaram, «há objectivos na vida que valem as penas que acarretam». Nelson Mandela passou quase trinta anos na cadeia, coerente com o objectivo, cedo assumido, de lutar contra a injustiça do “apartheid” (1948 a 1990) que os brancos impuseram à maioria de sul-africanos negros, mestiços e asiáticos. Ninguém o ouviu lamentar a perda de parte significativa da sua vida e deu exemplo de quanto um homem pode ser grande ao perdoar àqueles que tão injustos foram com ele e com os seus irmãos de cor e aceitá-los como iguais na construção de uma sociedade mais justa mais fraterna. Fica demonstrado o que afirmou Fernando Pessoa: «Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena». A alma de Mandela, como a de muitos outros ao longo da história, foi muito grande.

    Outrora, na aldeia onde cresci, havia certa uniformidade nos projectos de vida dos seus moradores. O isolamento daquelas terras implicava ausência de perspectivas. Ali nasciam, cresciam, ajudando nas tarefas agrícolas e nos trabalhos domésticos, constituíam a própria família segundo o modelo que tinham herdado de sucessivas gerações anteriores, transmitiam conhecimentos e valores recebidos e, quando chegava a hora, morriam no aconchego dos seus e acompanhados de perto por toda a comunidade. De médico conhecia-se a designação porque para moléstias do corpo havia benzedeiras, chás e outras mezinhas e para males do espírito recorria-se ao padre que assistia nos actos religiosos e exorcizava os espíritos malignos sempre que havia graves distorções comportamentais. Contavam-se os anos, é certo, mas não se dava grande importância à sua comemoração. A vida era entregue nas mãos de Deus que era pai e velava por todos os seus filhos. Quando as forças começavam a faltar, abandonavam-se os trabalhos mais pesados mas procurava-se ainda ser útil à família, “botando a cria”, tomando conta da rega, vigiando os netos ainda que esta fosse tarefa inglória, que os miúdos eram mais lestos a raciocinar e a agir. Quando as pernas já não aguentavam qualquer esforço, ficava-se junto da lareira ou vinha sentar-se num banco à porta de casa quando o sol adregava de aquecer o corpo, permitindo a comunhão com os seus semelhantes e com a natureza. Chegar aos oitenta anos não era para qualquer um.

    Durante a minha juventude, guardo lembrança de poucas pessoas de muita idade. Recordo o tio Zé Maria, cego, sentado no degrau cimeiro da escaleira que dava para o caminho; do tio Manuel Simão que tremia muito e tinha grande dificuldade em pronunciar as palavras que lhe saíam pausadas e batidas como quem picava* a lâmina da gadanha; do tio Caetano que ainda vestia de pardo, cabelo branco e ralo, a caminho da igreja porque as terras já eram cultivadas pelos filhos a quem nunca tive o atrevimento de perguntar a idade do pai, mas que deve ter morrido antes dos oitenta; da tia Beatriz, talvez a mais longeva desse tempo, que beirou os noventa anos e acerca da qual escrevi uma crónica no Mensageiro de Bragança a relatar um pouco da sua vida, dos muitos filhos e netos e de um suposto bisneto, prometendo-lhe uma reportagem quando atingisse os cem. Infelizmente, não pôde cumprir a sua parte, assim inviabilizando o nosso plano.

    Enquanto a população diminuía drasticamente em consequência da baixa natalidade e da corrente migratória, aumentava o grupo dos que já ultrapassavam os noventa anos. O tio Armando morreu no ano transacto já passante dos noventa, tal como a mulher, Zulmira, que o antecedeu na viagem sem regresso. Teimam em liderar a estatística dos sobreviventes três mulheres e um homem que já ultrapassaram a barreira dos nonagenários: a senhora Perpetuinha (diminutivo de Perpétua), a senhora Amélia do Bernardo, a minha comadre Aurora e o tio João Grilo.

    A senhora Perpetuinha foi minha catequista, a mais velha de todas elas. As outras eram a senhora Rosinha e a menina Aninhas que já faleceram há muito, a primeira, se viva fosse, andaria também um pouco além dos noventa, a segunda quedar-se-ia pelos oitenta e poucos. Entre as décadas de 40 e 50, a senhora Rosinha era já dona da sua casa, meiga e atenciosa com a pequenada e preciosa auxiliar na educação dos sobrinhos cuja mãe, sua irmã, falecera quando estes eram ainda pequenos, enquanto a menina Aninhas era uma jovem cheia de viço, irradiando sensualidade, a quem o vento se abstinha de crestar a pele e de roubar o brilho dos cabelos castanhos sempre impecavelmente penteados, vestida com certo esmero, que, nas aulas de catecismo, despertava o eros dos rapazes e a ingénua inveja das meninas. Quanto à senhora Perpetuinha, era uma mulher já calejada pela vida. Apesar de solteira, – estado que as três conservaram – desempenhava a função de catequista e outras ligadas à igreja e era já o braço direito da mãe viúva nos cuidados com a família constituída pelo irmão, uma irmã demente, confinada ao seu quarto, por quem zelou com toda a dedicação e por dois tios casmurros que não se falavam o que exigia dela atenção redobrada. Além disso, como todas as mulheres da aldeia, ajudava nos trabalhos do campo e assessorava a irmã casada na educação dos filhos, cuidando sempre no estrito cumprimento das normas da religião. Já fez noventa e dois anos e, embora não saia de casa, mantém um bom estado de saúde.

    A senhora Amélia é uma daquelas mulheres sem história. Muito reservada, poucas vezes a vi enquanto estive na aldeia e não me lembro de alguma vez termos falado a não ser, talvez, para, mutuamente nos saudarmos.

    A minha comadre Aurora, ao contrário das anteriores, casou e teve muitos filhos. Sofreu um AVC faz bastantes anos, mas resiste ao tempo como resistiu às dificuldades para criar a numerosa prole.

    O tio João Grilo foi um dos homens mais conhecidos da terra, não pelo seu estatuto social mas porque, vivendo à entrada da povoação, convidava sempre os forasteiros para a sua casa humilde onde a cortesia não conjugava com a abundância e, sobretudo, porque andou pelo Brasil e, quando regressou, adquiriu um altifalante com que animava as festas das aldeias em redor.

    Há dezassete anos que colaboro, assiduamente, com “A Voz de Ermesinde”. È uma vida, como disse o tio António Caetano? Depende do significado que dermos à expressão. Tem valido a pena? Os leitores poderão responder e, com certeza, haverá opiniões diferentes, quiçá divergentes. Tenho escrito acerca de variados temas e sob formas diversas (actualidade, viagens, ensaio, poesia) mas muitas das minhas crónicas situam--se na terra onde fui criado. Há motivos para tal: trata-se de uma comunidade que espelha, em muitos aspectos, a realidade do país e é uma forma de preservar comportamentos, regionalismos e tradições que fazem parte do património cultural da nossa gente.

    * Picar a lâmina da gadanha - Modo de afiar as gadanhas que consiste em endireitar o fio da lâmina, batendo sucessivamente com um martelo sobre um pico de ferro.

    Por: Nuno Afonso

     

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