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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 28-02-2011

    SECÇÃO: Crónicas


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    Os figos

    Foram precisos anos, mas consegui comer figos secos “pingo de mel”, gerados em Soutelo do Douro, em pleno Inverno frio da cidade do Porto. Senti-me transplantado aos tempos idos da lareira transmontana.

    A antiga vila de Soutelo do Douro teve a fama de colher os melhores figos secos da região. Vendia toneladas, principalmente na zona do Grande Porto e localidades onde as figueiras não conseguem frutificar. Nas encostas sobranceiras à foz do rio Tua, podemos ainda observar, nas antigas propriedades, fornos de secagem de figos!

    Os recoveiros que levavam as reses de gado maronês, compradas nas feiras de Vila Real, para abate em S. João da Pesqueira, regressavam com os alforges das burras cheios de figos ou em sacos sobre as albardas. Bem me regalei, com iguarias dessas, quando o Zé de Vila Marim regressava por Roalde e ficava admirado pelos tons brancos e o açucarado dos frutos.

    Soube mais tarde: os figos secos, ao abrigo do ar e em sacas de linhagem, parecem refinar em açúcar e cor branca, como a farinha de trigo. Apuraram ...

    Passou o tempo, mudaram-se os hábitos alimentares: perdeu-se o uso do mata-bicho, com figos, nozes ou castanhas piladas, pão e vinho ou aguardente, aos trabalhadores rurais, antes de nascer o Sol, ou aos pisadores das uvas, nas lagaradas da noite. Agora, só em vídeos turísticos, promocionais do Douro, é que podemos ver cenas semelhantes.

    No Verão, os figos eram vendidos frescos, e ao quarteirão, pelas aldeias serranas, onde não havia figueiras. Quando o “Ronca” de Bujões os apregoava, rua acima, rua abaixo, logo a Trindade de Vessadios dizia para a filha Alice ( ainda não trabalhava, nem andava na Escola) :

    – Pega lá 10 tostões, leva um prato, e vai comprar um quarteirão de figos.

    Graças à quinta de Provesende, não era preciso serem comprados em Roalde. Os mais temporões eram colhidos nas figueiras, sobreviventes duma vinha abandonada, ao fundo da quinta da Cavadinha, perto do rio Pinhão. Os lampos só apareciam na figueira da frente do armazém.

    E os lanches debaixo das figueiras?!

    A lisboeta tia Judite, a passar o mês de Setembro na quinta, metia numa cestinha o famoso pão de centeio de Provesende, e subia os socalcos até às figueiras, onde se regalava, e fazia regalar os acompanhantes, com figos (pretos e brancos) e pão! Lembro-me de comer os mais torcidos, e sem pão, pois o pão notável foi sempre o meu de cada dia, durante os dois anos de frequência da Escola Primária, na aristocrata “Vila” de Provesende.

    Fala-se muito na dieta mediterrânea. Ouve--se: «É das melhores do Mundo»; era do povo e passou aos hotéis de luxo. Não tenho dúvida: vai passar a ser muito divulgada e utilizada. Só peço: além do azeite, vinho, legumes e frutas, deve incluir a utilização de figos e fava rica, e não só nos doces, em que Faro retém o expoente máximo.

    No Algarve, férias de Agosto, sou dos poucos que páram junto aos terrenos de cultivo abandonados, e vão colher figos. Mete dó ver tantas frutíferas em agonia. O turismo rural vai ser a futura salvação? Espero ...

    Como no Douro não tinha figueiras pingo de mel, tive a oferta amiga de duas envasadas em Vilamoura, para plantar em Soutelo. Este ano, em plena pujança vegetativa, já deram bons e saborosos frutos, o que levou a dizer à Helena:

    – Vê se consegues secar alguns.

    Em Janeiro, após anos, regressar de Soutelo ao Porto com uma saca de figos secos (retemperados) é obra! Daí a visita ao “armazém” ser frequente, e ter de ouvir da Maria Fernanda:

    – Dá um nó na abertura da saquita, podem--se estragar os figos ou deixam de refinar!

    Saboreá-los, degustando um cálice de vinho do Porto (cor de tijolo velho), é entrar no reino do Céu!

    Por: Gil Monteiro

     

     

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