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Edição de 30-11-2019
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    Arquivo: Edição de 20-12-2010

    SECÇÃO: Crónicas


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    Voltou na feira do Natal

    Só quem viveu anos ao ritmo do tempo passado numa pequena aldeia transmontana, pode aquilatar da relevância dos acontecimentos. Ainda o dia da Festa da Santa Maria Madalena estava para chegar, já o bolso dos miúdos ia guardando os tostões, para os rebuçados de “raminho”e os pirolitos; gastos obrigatórios do dia, em que as garrafinhas de limonada eram preparadas, pelas doceiras, com água fresca da fonte da Tenaria.

    Quando chegavam os armadores dos andores, vindos de Vilar de Maçada, começava a festa da pequenada: assistia à decoração das várias padiolas, no interior da capela, e retiradas na manhã do dia da festa; apanhava os alfinetes perdidos e esbugalhava os olhos, vendo as cores dos cetins e espelhos. A paragem do cavalo, carregado de foguetes, em frente da porta principal do templo, era um alvoroço, pois o mordomo Américo, antes de os guardar, ia experimentar um morteiro, na eira de trás da capela! A música da Portela e os padres de Vila Real não iam tardar, incluindo o jovem orador Sacro, António Maria Cardoso.

    Com a azáfama de alindar as casas e esfregar os soalhos, e por mato novo (tojos, giestas ou fetos) nas testadas da rua enlameada, estava próximo o Compasso e a Páscoa. Pela apanha das castanhas, vinha o São Martinho e, no rebusco dos soutos, era a matança do porco e os serões à lareira (comido o caldo de cebola e as castanhas cozidas e tostadas, no assador de furos de Bisalhães, no final da ceia, e, após a reza, tinha lugar a leitura dos fascículos de livros, chegados no correio, ou outros contos e historietas).

    O tempo do Natal era indispensável e mágico. Mas, para as crianças a feira de São Martinho da véspera era importante, pois recebiam as prendas antecipadas (piões, brinquedos de lata ou madeira e o rapa, e os confeitos e os pinhões de comer e jogar! Só o toque da sineta, para a missa do Galo, fazia parar os renhidos jogos nocturnos de rapa-tira-põe-deixa, da noite de Consoada.

    A feira natalícia, em S. Martinho, continha de tudo. Era a mais forte do ano. Não sendo propriamente de gado, até o José Manuel Beiço-Rachado fazia gala de lá ir mostrar o seu famoso rebanho de cabras, peritas nas fugas às multas da GNR. Bastava ouvir o silvo do seu lábio leporino, a cabra morinha, líder do rebanho, corria atrás do dono, as outras seguiam o exemplo, deixando as patrulhas da guarda de papel da multa na mão e a ver navios! As correrias, pelos montes e vales, eram um espectáculo!...

    O Donio, tendo ganho uns bons patacos, com os bois nas carregações de pipas de vinho fino, no Pinhão, comprou uma junta nova (animais lindos e possantes). Era fatal!, tinha que os ir mostrar à feira: despertar inveja dos concorrentes e ficar a saber quanto podiam valer.

    Levou o filho mais novo, já apurado para a vida militar, a puxá-los por uma soga, presa aos bonitos cornos dos animais.

    Enquanto o pai ia conversando, com interessados e outros carreiros, o Manuel ia admirando as moças. Ao olhar uma, teve um clique e, envolvido por um aroma mágico, quase largou os bois, para ir atrás da linda rapariga de Fonteita. Teve sorte: os pais dela pararam ao lado, interessados em duas ovelhas de lã merina, desconhecida na aldeia e arredores.

    Durante o apalpar da lã, e o lombo das ovelhas pelo pai, a filha fingia mirar a junta de bois, a fim de poder catrapiscar o moço de Roalde. Proferiu as palavras mais custosas e gostosas da sua vida – nunca pensou ser capaz de tal feito!

    Depois da Missa de Roalde de Domingo, foi o encontro e primeiro dia de namoro, apesar do espanto da tia acompanhante. Nem Fonteita, Vessadios ou Sobrados tinham o privilégio de ter sacerdote disponível para a missa dominical, só Roalde, com rendimentos vindos de montes de termos legados, podia suportar o custo.

    E o perigo do Manuel ir namorar a Fonteita? Nada fácil!, tinha a possibilidade de apanhar um arraial de porrada ou ser corrido à pedrada. Portanto, passou a usar a táctica da abordagem:

    Começou por se dar por passante para a Régua, e entrar na taberna do Elias, pagando uma rodada de copos de vinho aos presentes; conseguiu, na saída da tasca, ver a conversada, mas sem abrir a boca!

    Em segunda tentativa, armou-se em comprador de feno, “ incumbido” pelo pai, por a colheita de penso para o gado, ter sido fraca, pois até a fonte do Barbeito deixou de deitar água, sendo preciso tirá-la ao balde, na rega dos lameiros!; teve, assim, coragem de ir a casa da Alice, a troco de poder comprar feno ou canas de milho.

    Num domingo à tarde, acompanhado por um respeitável primo, pagou a multa na taberna do Elias, e passou a poder, mesmo às escondidas, namorar na terra alheia.

    Do paraíso caiu no inferno, aquando foi do conhecimento do pai da Alice. Sem bater na filha, dizia furioso:

    – Não, não e não, filha minha nunca casará com semelhante rapaz. É rês de má família. O pai e os irmãos são arruaceiros de feiras e romarias! Ninguém quer conversas com os Donios de Roalde! – barafustando para a filha, mulher, amigos e conhecidos.

    Resultado:

    A Alice foi “deportada” para Lisboa, onde a Soqueira a entregou, em casa rica, como criada de servir.

    – E agora?! – arrepelava-se o namorado. Mas, como sabia ler e escrever...

    O Manuel chegou a frequentar a 4ª Classe, na Escola de S. Martinho, não sendo levado a exame, por o Professor Antunes não o achar muito bem preparado, e passar pela vergonha (!) de ter um aluno reprovado, no exame em Sabrosa!

    Graças aos familiares da Emília Soqueira, conseguiu a morada de Lisboa, e passou a escrever cartas de amor. E receber as respostas ?, se a conversada era analfabeta!? Só quando o Zezinho, filho da patroa, aluno da 3ª Classe da Escola do bairro lisboeta de Alvalade, passou a confidente, houve carta cá, carta lá! As missivas ditadas eram mais da autoria do escrivão do que da enamorada. Quando as lia, antes de as meter no envelope, o miúdo sentia-se gente grande!

    As cartas, levadas pela Maria do Correio de S. Martinho para Roalde, tinham semanas de percurso. O Manuel esperava, como cão de guarda, que a D. Mariquinhas do Alferes abrisse a saca de pano forte e de boca metálica, fechada à chave. Quando a leitura do correio era feita na varanda, a ansiosa carta caía do céu nas mãos do destinatário! Era lida, e relida, no tempo de ir com os bois ao pasto ou levá-los a beber, na fonte da Tenaria. Sempre que encontrava nos montes outros moços de bois, abria as cartas recebidas ou a enviar, lia-as para os mais novos, feitos basbaques. Mostrou um precioso envelope, que iria levar ao correio da sede da freguesia, tendo escrito, ao lado da direcção, o seguinte:

    “Vai-te carta, vai-te carta,

    Por entre os pinheirais.

    O meu coração fica a dar muitos ais!”

    A correspondência acabou. Aos pedidos de Fonteita, a patroa apanhava as cartas e o Zezinho deixou de colaborar. Só no Verão, pelas festas e romarias, os “emigrados lisboetas” davam parcas notícias : andava triste e não saía de casa, e nem namorava!

    Passado o ano, voltou à feira das vésperas do Natal, à frente de outros bois, agora de raça maronesa, possantes e lindos de cornadura. Como ficou para a parte da tarde, depois do pai, foi petiscar à loja do Zé Ferreiro. Ao ver gente conhecida de Fonteita, a fazer o mesmo, ficou intrigado. De coração a pular, moita calado, esperançado que melhores dias haviam de vir.

    Alarido na feira!: chegou a carreira do Tabuada, vinda do comboio correio do Pinhão. Mal o Zé Cobrador abriu a porta, quem saiu primeiro?, a Alice!

    O Manuel larga a soga dos bois mansos, salta louco a abraçar a sua amada! À surpresa, ao silêncio, seguiu-se a ovação dos feirantes – ninguém ficou indiferente a tanta ternura e amor!

    Por: Gil Monteiro

     

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