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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 30-10-2010

    SECÇÃO: Crónicas


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    Formação sénior

    Ao entrar na sala de aula de Informática, pela primeira vez, e ao fazer a apresentação – a solicitação da Professora – tive de dizer, enquanto encarava as oito colegas do curso:

    – (...) Sinto-me mais embaraçado do que no primeiro dia da Escola Primária! Aos setenta anos, começar a aprender a usar o computador, é obra! ...

    Quando recebi a pasta da documentação, paras sessões de trabalho, é que desci das nuvens. Tinha lá tudo. Incluía, mesmo, um lápis com borracha! O regrão (ponteiro de ardósia de Valongo, usado na Primária) podia estar também presente(!), encurtava a distância ao tempo passado.

    Mas, na etiqueta da pasta plástica, bonita e funcional, tinha escrito: FORMAÇÃO SÉNIOR! Deu para matutar ...

    Ao ver o vocábulo SÉNIOR foi inevitável, tive que lembrar o tempo em que era frequente o uso do termo JÚNIOR, acrescentado a nomes da certidão de idade. E a entrada na Formação deu que cismar... O Sénior passou a ser mais utilizado, e andar nas bocas do Mundo. Vejamos, apenas dois casos: nas universidades e nos hotéis, divulgados e propagandeados para a 3ª Idade.

    A palavra Júnior foi muito usada, basta recordar o Prof. Doutor J. R. Santos Júnior, Mestre de Antropologia da UP, anos sessenta; ou referir o nome de José Alves Pinhão Júnior, condiscípulo da Escola Primária, pois o avô era José Alves Pinhão. Graças ao qual se conseguiu arranjar uma nota de quinhentos escudos, e levá-la para a aula, pelo neto, quando do estudo do dinheiro. Só em Sabrosa seria possível conseguir outra!

    O Sr. Pinhão tinha sido brasileiro de torna-viagem. Comprou boas terras na pequena aldeia, e passou a lavrador remediado, senão rico. Quando viu o Sr. Ferreira da Régua, casado com a Senhora D. Mariquinhas de Roalde, plantar grandes vinhas, nos terrenos de Nossa Senhora da Veiga, segui-lhe o exemplo e, para a empreitada, teve de ter disponível dinheiro forte e fresco. Assim, conseguiu fornecer uma nota “grande”, para ser vista pelos alunos e Professora. Era, também, dono de boas terras de semeadura, lameiros e matas. O Torrão era uma das melhores propriedades do Lugar. Constava de lameiros, fartos de água, montes, de roçar mato, terras de sequeiro, e outros terrenos, onde passou a plantar a grande vinha e a gastar notas “gordas”. E, só um bom herdeiro, à sua maneira, podia vir ser o futuro dono. E, como os dois filhos não tinham a garra requerida, quando nasceu o primeiro neto, viu o futuro dos seus bens assegurado, logo, tinha de ter o seu nome completo, José Alves Pinhão, sem qualquer apelido materno! No Registo Civil de Sabrosa, foi obrigatório acrescentar Júnior ao nome.

    O uso da condição de Sénior, ou antiga 3ª idade, só dá vantagens: descontos espectáculos, transportes, e outros, que nem procuramos conhecer, nem estão inseridos na aprendizagem da vida dos idosos.

    Quando ainda me pedem o BI para confirmar a idade, tenho “peneiras” de pensar: “Estou bem conservado!” – a ilusão anima ...

    Nem de propósito, a sair da primeira sessão de Formação, e caminhando pela rua de Costa Cabral, encontro, em sentido oposto, o colega António, passeando de bengala! Como era a primeira vez que o via de bengala, fui magicando, o que lhe ia dizer? Optei :

    – Parabéns, António, nem todos podem ter o privilégio de chegar à idade da bengala!... “Outros já partiram...”, pensei, mas não disse.

    O António foi Professor de Filosofia do liceu de Lamego, onde o conheci, na minha estreia profissional no Ensino Secundário; daí a cavaqueira pegada, em plano passeio de rua, e que deu para recordar o enigma:

    “Qual o ser que, ao nascer anda em quatro patas, passa a três, anda a duas e volta a três?”

    Estaremos em tempo de falar de oráculos?

    Por: Gil Monteiro

     

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