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    Arquivo: Edição de 10-07-2009

    SECÇÃO: Crónicas


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    Preconceito e hipocrisia

    Se a imprensa portuguesa não tivesse feito o alarde que fez, provavelmente o incidente vivido na Assembleia da República na quarta-feira, dia um de Julho, teria passado quase desapercebido nos órgãos de Comunicação Social de quase todo o mundo. O gesto do, até então, ministro Manuel Pinho foi de mau gosto, considerando o local onde aconteceu e a solenidade de que se revestem as cerimónias ali realizadas. O mais surpreendente, no entanto, foi a reacção das pessoas entrevistadas na rua, sobretudo os homens: não houve um só que tivesse abordado a questão com a franqueza requerida, todos repudiaram, energicamente, a atitude quais virgens ofendidas.

    Ora, todos sabemos que os portugueses não se distinguem pelas boas maneiras e pela bondade do vernáculo. Ao contrário, têm fama de grosseiros na linguagem que utilizam e na postura que assumem, seja qual for o cenário. O escritor, cronista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues recorria, frequentemente, à comparação «praguejar como um nauta camoniano» quando se referia a uma torrente de palavrões e indecências pronunciadas por alguém. Releve-se que, no tempo de Camões (séc.XVI), os marinheiros eram recrutados, via de regra, nos meios mais desfavorecidos, frequentavam as tavernas dos portos onde, a par da imundície, reinavam a licenciosidade e o desbragamento. Mas o ilustre homem de letras – que era também comentador desportivo na TV Globo, na companhia de João Saldanha, preparador físico da selecção brasileira no Campeonato do Mundo de 1958 (1º campeonato mundial vencido pelo Brasil e em que Pelé, então com 17 anos, brilhou) e de Jaime Luís, jovem lisboeta, correspondente no Brasil de um jornal desportivo português –, gostava de terçar armas com este último, referindo o hábito lusitano de maltratar o idioma comum com recurso ao calão e à grosseria.

    Quando dois ou mais homens se juntam é de regra não ser dita uma frase sem três ou quatro palavrões à mistura. Alguém que fuja ao hábito é olhado com desconfiança, mesmo com suspeição. Actualmente, isso não faz sentido, porquanto as mulheres, cuja delicadeza exigia certo recato, praguejam mais do que os marinheiros de quinhentos e sem nenhuma inibição. Quanto a boas maneiras, quem poderá afirmar que nunca lhe exibiram o dedo máximo espetado, quando conduz o seu automóvel, em momento de alguma confusão? Outro gesto significativo é o que pretende traduzir desvio de alguma coisa, roubo, que, não há muito, era de mau gosto e podia até implicar sanção policial mas que, na actualidade, é coisa vulgar e não apenas no sentido etimológico do termo.

    Dois dias após a ocorrência, ouvi a socióloga Maria Filomena Mónica desvalorizar o assunto comparando o sucedido com cenas que ocorreram, muitas vezes, na Câmara dos Deputados, durante a 1ª República, onde os parlamentares trocavam ataques virulentos, ofensas e ameaças recíprocas, mormente nos últimos anos, quando já se pressentia que algo poderia estar em marcha, tal a degradação a que chegara a vida política nacional. Ainda não há muito, um deputado do PS e outro do PSD, este antigo secretário de Estado, trocaram piropos, chegando o dito ex-secretário a declarar que «na próxima vez, o assunto resolve-se lá fora…». Podia ter-se dirigido, pessoalmente, ao adversário e ter ajustado contas ali mesmo. Alimentaria as conversas de café, mereceria a indignação geral, custaria, talvez, o lugar no Parlamento ao agressor e prejudicaria gravemente o seu partido nas próximas eleições. Seria, porém, mais verdadeiro do que esta exagerada compunção. Curiosamente, o líder do PSD Madeira e “dono” daquele pedaço da Nação foi, ao que sei, o primeiro a contrariar a condenação irritada de toda a gente que se presume de possuir boa educação, exemplificando com o Parlamento da sua Região. Segundo ele, um certo à--vontade nas intervenções políticas é o tempero para a “chatice” da conversa elevada. O Dr. Jardim não é, com certeza, um bom exemplo na prática política, mas revelou mais autenticidade do que todos os piedosos defensores da moral e dos bons costumes.

    O senhor Presidente da República aproveitou a ocasião para dar “às portuguesas e aos portugueses” mais uma das suas lições sobre a ética que deve presidir à vida pública nacional, sobretudo aos actos que têm lugar na Assembleia da República, «a Casa da Democracia», como ele referiu. Concordo sem restrições, mas essa regra tem sido frequentemente infringida quer pelos deputados, representantes do povo, quer por muitos eleitores postados nas galerias desse templo da vida política portuguesa.

    É bom não esquecer que todo o cidadão tem momentos difíceis na sua vida diária e, no caso dos governantes, estão sujeitos ao assédio constante dos media, às expressões rebuscadas dos adversários que, muitas vezes, escondem ofensas veladas e indignas, e não se compadecem de situações de stress: doença grave de um familiar próximo, por exemplo. Duvido que os zelosos profissionais dos órgãos de Comunicação Social tenham procurado saber das circunstâncias para elucidarem as pessoas, chocadas com o insólito acontecimento. Repito que discordo totalmente de toda a “baixaria”, seja na vida política, seja no dia-a-dia de cada cidadão, mas repudio a hipocrisia de que damos mostra e que a imprensa não se faz rogada em divulgar.

    Por: Nuno Afonso

     

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