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Edição de 31-01-2021
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    Arquivo: Edição de 15-01-2009

    SECÇÃO: Arte Nona


    A cidade é um céu de palavras paradas a palavra distância e a palavra medo *

    Ter a cidade como principal protagonista de uma história não é novidade. Partir dela para articular interrogações sobre modos de vida também não. Recordem-se, por exemplo, as obras da série “Cidades Obscuras”, de Schuiten/Peeters.

    Na Banda Desenhada de ficção científica este é um tema recorrente. Mas o que temos aqui é uma outra abordagem que tem como principal personagem das estórias as próprias cidades, precisamente. E temo-lo de uma forma, a um tempo poética e inquietante, crítica e (anti-) utópica. Referimo-nos à série “Terra Incógnita”, de que se publicou agora (em Outubro de 2008), o primeiro volume, intitulado “A Metrópole Feérica”. Estórias de cidades – diversas – ancoradas nos mais diversos tempos “históricos”, fazendo reflectir sobre a nossa maneira de estar em comum. Os autores em causa são José Carlos Fernandes e Luís Henriques.

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    José Carlos Fernandes e Luís Henriques começam a sua obra divagando sobre lugares e autores míticos e reais, apresentando-se na delirante forma de autores de Banda Desenhada raptados pela corte do Kim Jong-Il, e fazendo aparecer as estórias num planeta imaginário apresentado num dos textos introdutórios intitulado “Um Atlas Ilustrado de Criptogeografia: «completo e fidedigno inventário cartográfico de cidades desaparecidas, impérios fabulosos, reinos utópicos & outras ocorrências lendárias, complementado por profusa anotação versando trajes, máscaras cerimoniais & chapéus insólitos, monumentos funerários para animais de estimação, sacrifício ritual de gadgets, danças propiciatórias aos deuses do mercado imobiliário & outros surpreendentes costumes de povos exóticos, bem como numerosas lâminas com gravuras primorosamente executadas da fauna & flora desconhecidas da ciência». Enfim, todo um programa de processos e artimanhas desencadeados pelos autores, e que mostram a grande capacidade imaginativa, o saber enciclopédico e o sentido crítico apurado de José Carlos Fernandes.

    As cidades são Manata, Fílon, Khamsin, Trabântia, Tangaroa e Babel, todas elas roubadas à história e aos mitos. Em “Fílon - O Teatro do Mundo” conta-se a estória de uma cidade onde a vida era comandada pela voz dos pontos como num teatro, até ao dia em que estes emudeceram e tudo mergulhou no caos. “Khamsin - A Inconstância da Vontade” conta-nos a estória de uma cidade sujeita aos caprichos do vento. Em “Manata - A Metrópole Feérica” fala-se de uma cidade no seu apogeu, tão opulenta que não não sabe o que fazer ao seu imenso lixo, ao qual sucumbe. Em “Trabântia - As Fundações da Sociedade Perfeita”, o Alto Comité para a Utopia Colectiva vela por tudo, assegurando que nada perturbe a ordem perfeita. Bufos e microfones estão por todo o lado. Em “Tangaroa - O Umbigo dos Oceanos” fala-se de uma cidade à qual vêm ter todos os cadáveres. Finalmente em “Babel - Um Deus que nos Escute”, reelabora-se o mito da construção da torre.

    Mas não se trata só de um argumento verdadeiramente precioso, com a marca inconfundível de José Carlos Fernandes. Neste caso, temos duas obras-primas sobrepostas uma à outra, com os grafismos camaleónicos de Luís Henriques que, para cada uma das cidades, inventou uma expressão gráfica distinta, aqui insistindo no desenho a tinta-da-china, ali na combinação desta com manchas generosas, acolá na cor, além no vermelho e no preto, noutro sítio no cinzento soturno.

    Desenho e pintura casam aqui de uma forma apaixonada, no usufruto mais intenso e oportuno da formosa cama criada por José Manuel Fernandes. “Terra Incógnita Vol. 1 - A Metrópole Feérica” é uma edição da Tinta da China, da qual se fizeram 1000 exemplares. Por isso, leitor, corra, pode ser que ainda agarre algum.

    E depois leia devagar. Imperdível!

    * Verso de José Carlos Ary dos Santos

    Por: LC

     

     

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