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    Arquivo: Edição de 30-11-2008

    SECÇÃO: Destaque


    11ª MOSTRA INTERNACIONAL DE TEATRO ‘08

    A força da criação. Deuses ou humanos?

    Fotos URSULA ZANGGER
    Fotos URSULA ZANGGER
    O próprio ENTREtanto deu início ao MIT, apresentando, na sessão de abertura “Por Si, São Deuses... Só por Si”, uma soberba demonstração da força do seu teatro.

    A Mostra Internacional, de que só no próximo número – com a reportagem relativa aos espectáculos dos dois últimos dias do certame e à oficina de Butoh de Tejo Janssen – faremos uma proposta de balanço, começava assim da melhor maneira, com Júnior Sampaio a surpreender a audiência com uma peça quase inteiramente construída por si – no texto, encenação, musicalidade e cenografia.

    Peça de uma modernidade evidente, esta era marcada por sua vez, pelo texto de inspiração clássica (não se poderá falar aqui propriamente de um enredo, no sentido tradicional do termo, embora o enredo estivesse já compreendido nos mitos – aqui breves apontamentos biográficos – , chamemos-lhe assim, dos deuses da galeria greco-romana), e ainda pelo recurso à tradição expressiva do teatro grego.

    Aqui Júnior Sampaio combinou sabiamente a harmonia oral dos coros – numa sincronização perfeita, mas que, por sua vez fugia ao modelo clássico pela escolha de uma musicalidade actual – com a mais caótica assimetria gestual, tirando disso um efeito de bela complexidade e solidez formal.

    Num belo fragmento do texto, inserido no programa/desdobrável do certame – «Somos humanos. Humanos, humanos!/Criamos Deuses. Criamos, criamos!/Neste teatro, amamos, amamos.../Os nossos Deuses... Humanos, Humanos!/Júpiter governa o céu. Neptuno o mar./Plutão é feio.Saturno é tempo./Juno é ciúme. Diana é casta. Vénus é prazer!/Marte é conflito. Baco dá--nos vinho. Apolo dá-nos luz./E Mercúrio? Foi quem escreveu tudo isto. Isto é Teatro?/Não. É Teatro! – podemos ver a alegoria da condição humana, que criou, por sua vez, à sua imagem, o mundo superior inacessível aos mais comuns mortais.

    Os elementos de cenografia, além dos figurinos (16 vezes 1 mais a idêntica veste do actor-encenador) são comedidos: 16 guarda-chuvas brancos e 16 mais uma caixas. A de Júnior Sampaio, deus entre os deuses, ficará inalterável, como se do próprio Olimpo se tratasse. Quanto às restantes vão-se transformando sucessivamente. De “ninho” em casa, de casa em barco, de barco em cavalo, de cavalo, até ao tapete final.

    Os guarda-chuvas irão compor a concha feminina da deusa Vénus, e do jogo entre a sedução de Vénus e a desconfiança do marido atraiçoado – Vulcano – resultam aqui, na expressão do ENTREtanto, vistosas composições.

    A própria geometria variável das caixas proporciona uma interessante história visual, como por exemplo, a da cena em que ilustrando o acto concretizado da sedução , as caixas transformadas em cavalo se empinam sobre outras, simulando a cobrição.

    Dada a generosa afluência do público nesta sessão de abertura, o espectáculo do ENTREtanto teve que (pôde) ser repetido nesse dia, e viria a subir ainda uma vez mais à cena, seis dias depois a 15 de Novembro (a abertura teve lugar no dia 15), desta vez como alternativa possível à não apresentação do previsto espectáculo do grupo francês Théâtre Itinérant La Passerelle “D’Artagnan et les Ferrets de La Reine”, que anunciaria à organização, praticamente sobre a hora, que não poderia vir a Portugal. Indesculpável!

    foto
    No dia da abertura do espectáculo do ENTREtanto esteve presente Fernando Melo, que se apresentou vestido muito informalmente, mas a presença deste autarca foi uma excepção, o que consideramos verdadeiramente lamentável.

    Mesmo nos outros dias, não conseguimos vislumbrar a presença das chamadas forças vivas de Ermesinde, o que estranhamos, já que – repetimo-lo – se estava perante o acontecimento cultural mais importante do concelho.

    No final deste espectáculo do ENTREtanto não houve lugar a café-teatro. Já a seguir à peça que comentamos abaixo, houve lugar a uma “Festa” – Perca a Cabeça, Mas Não Perca o Chapéu, animada pelos dj’s Spunto G, ao som de vários ritmos, como rock, pop, afro, ska, disco, funk, house, world music, etc.. O desaparecimento, em alguns dos dias, de um verdadeiro segundo espectáculo empobreceu o MIT, mas disso falaremos proximamente.

    Ficha Técnica:

    Texto, Encenação, Musicalidade e Espaço Cénico: Júnior Sampaio;

    Assistência de Encenação: Hugo Sousa;

    Interpretação: Anabela Melo, André Pinto, Angelina Nogueira, Eduardo Morais, Fábio Melo, Flávio Miguel, Inês Ferreira, João Castro, Liliana Carvalho, Luís Nogueira, Mariana Santos, Mário Fontoura, Paulo Kanuko, Sandra Moreira, Sandra Silova e Tânia Silva;

    Desenho de Luz: Hélder Simões;

    Cenografia: Vítor Sotto Mayor;

    Figurinos: Júlio Waterland;

    Duração: 45 minutos.

    Por: LC

     

     

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